A biografia de um imortal
Sua existência de quase um século confunde-se, na maioria das vezes, com a trajetória do País. Desde 1918, quando começou a trabalhar no jornal A Tribuna, do Rio de Janeiro, até morrer, em 1993, às vésperas de completar 95 anos e depois de presidir por 35 anos consecutivos a Academia Brasileira de Letras (ABL), o jornalista Austregésilo de Athayde foi um incansável trabalhador em prol da liberdade, sobretudo de imprensa, atividade a que se dedicou com afinco e que exerceu até poucos dias antes da morte, sem jamais tirar um dia de férias - publicava um artigo diário no Jornal do Commércio.
Muito da vida de Austregésilo e do que aconteceu no mundo nesse quase um século podem ser conhecidos na biografia Austregésilo de Atayde - O Século de um Liberal, escrita a quatro mãos pelo também jornalista Cícero Sandroni e por Laura Constância Austregésilo de Athayde Sandroni, respectivamente, genro e filha do biografado. O livro, de 880 páginas, que reúne mais de uma centena de fotografias e cartas, foi lançado recentemente pela Editora Agir.
Ele tinha uma visão liberal da sociedade. Achava que o liberalismo salvaria o mundo, e sempe foi fiel às suas idéias, conta Sandroni, que se casou com Laura em 1958, quando Austregésilo contava já 60 anos. A empreitada custou a Cícero o afastamento do cargo de editor de opinião do Jornal do Commércio, mas foi em parte facilitada pelo cuidado de Maria José, a Jujuca, mulher de Austregésilo, que se preocupou durante a vida (ela morreu em 1985) em arquivar tudo o que o marido publicou e o que sobre ele foi publicado.
Apesar dessas idéias liberais, a imagem que permaneceu de Austregésilo foi a de um conservador. Os fatos enumerados no livro por Cícero e Laura derrubam esse mito. Já na campanha presidencial de 1919 ele saiu em defesa de Rui Barbosa, então candidato da oposição, concorrendo com Epitácio Pessoa. Seu primeiro artigo de crítica à violência do poder contra a imprensa foi escrito em 1920, e dois anos depois ele ficava ao lado do cronista João do Rio, na época diretor de A Pátria, um jornal de oposição. Foi contra o fechamento do Partido Comunista, mas apoiou o golpe militar de 64, embora mais tarde tenha condenado seus excessos.
Austregésilo de Athayde passou a infância no Ceará, e na adolescência entrou para o seminário da Prainha, em Fortaleza, de onde foi aconselhado pelos padres a sair depois de passar cinco anos anos tentando encontrar Deus através da razão. Era um agnóstico, o que não o impediu de, na elaboração da Declaração Universal dos Direitos do Homem, que ajudou a redigir, nas Nações Unidas, tentar aprovar uma emenda no primeiro artigo da Declaração incluindo o nome de Deus, por achar que a maior parte dos 58 povos ali representados era teísta. Foi voto vencido. Dispensado da vida religiosa, ele mudou-se para o Rio de Janeiro em 1918, mesmo ano em que começou a carreira de jornalista no A Tribuna, na época dirigida por Lindolfo Collor.
Anos depois, entrou para o O Jornal, do amigo Assis Chateaubriand, que começava a montar os Diários Associados e do qual o O Jornal do Commércio, onde depois passou a trabalhar, fazia parte. Foi o primeiro jornalista a viajar aos Estados Unidos em missão profissional, em 1931, onde entrevistou o presidente Herbert Hoover e Henry Ford e Nelson Rockefeller, dois dos maiores nomes do mundo dos negócios americano. Mas apesar da intensa participação na vida política do País, o nome de Austregésilo estará para sempre associado à Academia Brasileira de Letras (ABL), para onde foi eleito em 1951.
Sete anos depois, em 1958, assumiu a presidência da Casa, cargo que exerceria por 35 anos ininterruptos. Não à toa, Cícero e Laura deixaram para abordar esta atividade na última parte do livro. Na condução da ABL, Austregésilo mostrou seu lado de administrador financeiro competente, até então pouco conhecido.
Com a ajuda de Barbosa Lima Sobrinho, ele explorou ao máximo as potencialidades financeiras da Academia. Em 1979, era erguido no terreno da ABL, ao lado do Petit Trianon, a tradicional sede da instituição, um prédio de 20 andares. Alguns escritores defendiam a demolição da sede e a venda do terreno, localizado em área privilegiada, no Centro do Rio. As críticas não foram poucas, mas além de impedir a demolição da charmosa réplica da Academie Française, Austregésilo firmou um contrato com a construtora que garante, a partir de setembro do ano que vem, a integração total do prédio ao patrimônio da Academia, que terá sua renda engordada com o dinheiro proveniente do aluguel de centenas de salas.ReproduçãoAustregésilo de Athayde: biografia mostra sua contribuição à democracia brasileiraBebel Nepomuceno
Agência Estado





