O evento brasileiro mais importante na área de artes plásticas vai mudar. A 25ª Bienal de São Paulo será realizada entre março e maio de 2001, e não mais no segundo semestre de 2000. Esta foi uma das principais resoluções que o conselho diretor da Fundação Bienal - entidade organizadora do evento - tomou ao eleger, no final de fevereiro, o arquiteto paulista Carlos Bratke, 56 anos, como seu novo presidente.
Outra decisão importante foi pôr no cargo um apaixonado pela Bienal - da qual participa, diretamente ou não, desde garoto. Afinal, seu pai foi, ao lado de Ciccillo Matarazzo, um dos criadores do evento. Na Bienal, Carlos Bratke trabalhou como monitor e até expôs seus próprios trabalhos - na 9ª edição - antes de desistir da carreira de artista para se dedicar à arquitetura.
Entre os planos do novo presidente está a inclusão da Bienal de Arquitetura de São Paulo no estatuto da Fundação, o que tornaria praticamente obrigatória sua realização a cada dois anos. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que Carlos Bratke concedeu à Folha2 por telefone:
ReproduçãoRelevo Espacial (1960): escultura de Hélio Oiticica, mostrada na Bienal do ano passado

Como você vê sua nomeação para presidente do maior evento de artes plásticas do País?
Há seis anos participo do conselho diretor. A minha atuação sempre foi mais técnica do que, vamos dizer, de patrocinador, de mecenas. Eu não sou industrial, não sou banqueiro. O que eu posso oferecer, e sempre ofereci, não é capital, é trabalho. Agora minha nomeação vem ao encontro de um projeto antigo do conselho, que é retomar, em bases mais firmes, as Bienais de Arquitetura.
Por quê?
As artes plásticas e a arquitetura sempre estiveram ligadas. Houve bienais em que se mostraram as duas coisas. Mas bienais exclusivas de arquitetura houve apenas três até hoje. A primeira foi há uns 20 e poucos anos. A segunda foi feita há seis anos, 20 anos depois da primeira. Isto aconteceu porque não é evento prioritário da Fundação Bienal. Não está no estatuto. Estatutário é promover a Bienal de Artes Plásticas. Esta é a obrigação de um presidente. Então nós fizemos a segunda de arquitetura e foi quase um balão de ensaio. Não foi um evento, não apresentou uma boa qualidade. Deu para fazer um evento grande, ocupando todo o espaço da Bienal mas pecou pela urgência, pela pressa. A 3ª Bienal aconteceu três anos e meio depois da segunda. Ainda em função da má qualidade da segunda, alguns conselheiros acharam que não era interessante promover mais estas bienais de arquitetura, quiseram transformá-las talvez em quadrienais. Mas nós, arquitetos do conselho, sempre batalhamos para fazer a cada dois anos, porque achamos que o Brasil tem muito material para mostrar, o mundo todo tem muito material para mostrar.
Quando seria a próxima?
Já está marcada para novembro deste ano.
Qual será o formato do evento?
A nossa bienal de arquitetura tem um formato diferente de outras que estão sendo feitas na América Latina ou na Europa porque, em geral, estes eventos são baseados em fóruns de debates, uma coisa mais técnica, voltada para profissionais. A Bienal de São Paulo é completamente diferente, é para o público ver e conhecer as novas tendências. A última, com pouca divulgação e pouco tempo de permanência - apenas 17 dias - teve uma visitação de 60 mil pessoas. E foi uma bienal muito bem-feita, uma surpresa para todos os conselheiros. Provavelmente, se a de novembro for tão bem quanto a última, ela vai ser encaixada no estatuto da Fundação como uma exposição agora constante. Uma das coisas importantes que vamos trazer são as experiências de soluções urbanas realizadas em Curitiba.
E por que a Bienal de Artes Plásticas foi adiada para o ano 2001?
Por uma série de razões. No ano que vem, por exemplo, vamos ter o prédio da Bienal praticamente ocupado o ano inteiro pelo evento ‘‘500 Anos de Artes Visuais’’, que abre em maio.
Então a mudança de data aconteceu porque o prédio vai estar ocupado?
É, vai ser o ano inteiro, é um pedido do Governo Federal. Mas havia outros motivos... Antes disto, o conselho já havia pensado em transferir o evento para o ano 2001 para coincidir com os 50 anos da Bienal e com uma festa em homenagem ao Ciccillo Matarazzo.
Mas além do ano, houve também a mudança dos meses. Normalmente, a Bienal é realizada no segundo semestre e, em 2001, vai ser realizada em março e maio. Por que não manter em outubro?
Na verdade, ela foi apenas adiada. Em junho, normalmente, é realizada a Bienal de Veneza e existe uma combinação entre a de São Paulo e a de Veneza para que não coincidam. E como a Bienal de Veneza vai até outubro, novembro, as datas bateriam. Além disto, nós não queríamos adiar muito. Em segundo lugar, existem razões técnicas que fazem ser vantajoso trazer o evento para o primeiro semestre.
Quais seriam?
Em primeiro lugar, não há muitos eventos culturais importantes no primeiro semestre. Eles geralmente são marcados para o segundo semestre. Outra razão é o clima. No primeiro semestre, o clima é melhor. O prédio da Bienal não dispõe de ar-condicionado e o verão em São Paulo é bastante duro. Outra coisa é que os fretes de transporte das peças que vêm do exterior são mais fáceis, porque no fim do ano há um acúmulo na alfândega. Para mandar os trabalhos de volta, nesta época, fica muito mais caro e difícil.
Isto quer dizer a Bienal vai passar a acontecer sempre no primeiro semestre?
Isto eu não posso dizer porque não sou ditador da Bienal. Sou presidente até 2001. Depois eu não posso responder, só o próximo presidente poderá dizer. Mas vamos fazer esta experiência. Se for boa, quem sabe?
No ano passado, a organização da Bienal sofreu muitas críticas depois daquele temporal que causou destruição no prédio, interrompendo o evento. Toda a imprensa noticiou que foi investido muito dinheiro em seguro, transporte de obras e nada em infra-estrutura. De lá para cá, alguma coisa mudou?
Estamos fazendo uma grande reforma.... O problema foi que aconteceu um cataclisma, não foi uma coisa normal. Foi uma chuva de pedra, onde as pedras caíam em bloco. Elas não se soltavam, caíam paralelepípedos. Não foi só a Bienal que sofreu. O Shopping Center Iguatemi fechou, cinemas foram arrebentados, caíram árvores, enfim, foi uma barbaridade. E a cobertura do prédio da Bienal, que tem 50 anos, em alguns pontos não resistiu. Mas não houve nenhum prejuízo de obras de arte. E a nossa ação imediata foi muito elogiada por organizadores de eventos internacionais, a rapidez com que a coisa foi resolvida. Em 24 horas estava funcionando de novo. E não fui eu quem fez isto, foi o presidente anterior. Agora, acontece o seguinte, o prédio originalmente era uma laje impermeabilizada e isto foi muito estragado, durante festas que ocorreram há muitos anos, com shows pirotécnicos. A pólvora queimou toda a impermeabilização, entupiu todos os condutores, foi uma tragédia. Além disto, colocaram uma cobertura com orientação do próprio Oscar Niemeyer e que foi dimensionada com escoamento para as condições normais e não para um dilúvio como o que aconteceu. O que vamos fazer é trocar toda esta cobertura e vamos exagerar no tamanho das calhas para evitar novos problemas.
Outra crítica a esta última Bienal foi quanto ao núcleo museológico. Segundo os críticos, o que atraiu o público foram as estrelas como Van Gogh, Tarsila, Magrite, Goya. Para você, como presidente, é preciso ter estas estrelas para atrair o público?
Não, a idéia não é esta. A idéia é conseguir uma sequência didática para explicar as coisas para o grande público. Então, todos os nomes que estavam no espaço museológico tinham, de uma forma ou de outra, e às vezes até sutilmente, uma ligação com o tema Antropofagia. Esta foi a razão que norteou o curador na escolha, tentar ligar artistas consagrados com o que os demais fizeram... A gente até podia encher a Bienal só com artistas consagrados, mas esta não é sua função. Sua função é descobrir novos talentos, é patrocinar a vanguarda. Então o espaço museológico serve a este aspecto didático. E como existe esta crítica, existem outras, inclusive afirmam que não deveria existir o espaço museológico.
Por quê?
Porque, na opinião destes críticos, a Bienal fica competindo com o Masp, com a Pinacoteca, com outros museus que trazem mostras de Rodin, Caravaggio, Monet, Dali, Michelangelo. Mas esta não é a função da Bienal. Ela promove a vanguarda. Ali você vai ver coisa esquisita, coisa que não entende, vai ver de tudo, não há censura.
Mas na sua opinião, sem estes nomes, a Bienal teria o público que tem hoje?
Não sei...
De uma certa forma, é quase tradicional a Bienal trazer artistas de destaque internacional...
Mas sempre com este espírito de ter uma ligação com o tema, entendeu? A função é promover o inusitado.
E o tema da próxima...
O gancho para a Bienal de 2001, na minha opinião - é claro que isto vai depender da curadoria e tudo mais - deveria ser o ‘‘renascimento’’. Esta última Bienal, com tema Antropofagia, lidava com morte, com fim de vida, lidava com o ocaso. A próxima deveria lidar com o nascimento de um novo século, um novo milênio. Principalmente porque as artes plásticas, hoje, estão refletindo um final de século, elas estão mórbidas...
A curadoria já está definida?
Ainda não. Ainda vai demorar um pouquinho... A gente está estudando todas as possibilidades. Inclusive, talvez, até a de dar a curadoria para um. É uma idéia. Porque há uma briga de curadores que querem fazer o evento. Muitos dos quais já fizeram bienais excelentes. Mas não queremos repetir o modelo. Então, estamos estudando com muito carinho. E vamos definir nos próximos três meses.Agência EstadoCarlos Bratke: ‘‘A função da Bienal é promover a vanguarda, ali você vai ver coisa esquisita, vai ver de tudo, não há censura’’Telma Elorza

mockup