Uma oportunidade rara para os amantes das artes: um dos grandes nomes da pintura brasileira, o italiano radicado no Brasil Enrico Bianco, abre, nesta sexta-feira, sua primeira exposição no Paraná. O vernissage será às 20h30, na Galeria Bahiarte, em Londrina. A exposição, inédita em todo País, reúne 24 obras de seu acervo pessoal, produzidas nas últimas duas décadas. A mostra poderá ser vista até dia 20.
ReproduçãoNu com garrafas (25 x 35), de Enrico BiancoA exposição é um presente para o círculo de artes paranaense e para quem não conhece o trabalho do artista. Aos 80 anos, e ainda ativo, Bianco é um dos grandes mestres das artes plásticas da atualidade, ao lado de Carlos Scliar e Aldemir Martins. Radicado no Brasil há 62 anos, o pintor faz parte da velha tradição da arte, para a qual a estética não está sublimada por conceitos e o ato de pintar não traz deslumbramento ao ego, mas significa a própria essência da vida.
Lembrado por alguns apenas como o colaborador de Portinari - com o qual fez inúmeros murais, como ‘‘Guerra e Paz’’ para a sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York - Bianco não exibe mágoa sobre isto. ‘‘Eu comecei a trabalhar com Portinari quando era um jovem de 18 anos. Ele, 16 anos mais velho, era para mim um homem grandioso. Eu o admirava muito e continuo admirando’’, afirmou à Folha por telefone. Não deixou, porém, seu trabalho ser influenciado pelo mestre e amigo. ‘‘O que tínhamos em comum era o respeito pela pintura. Foi ela que nos ligou’’, disse.
ReproduçãoTrigal (35 x 25), de Enrico BiancoSegundo ele, pouquíssimas pessoas puderam entender Portinari e sua obra e ‘‘nenhum crítico o conseguiu até hoje’’. ‘‘Ele era preocupado social e politicamente, e com um passado muito mais atormentado do que o meu. O meu maior empenho, com relação ao meu trabalho, sempre foi estético’’, afirmou. Entretanto, Bianco reconhece que os observadores mais atentos podem encontrar um tênue parentesco entre os estilos de pintura. ‘‘E isto, para mim, é uma grande honra. Afinal, melhor receber influências de um grande pintor do que de um bobão qualquer, não?’’, brincou.
Na exposição que traz a Londrina, Bianco estará mostrando um pouco de seu processo criativo, através de suas famosas ‘‘maquetes’’, os pequenos quadros nos quais faz seus estudos de cores, antes de pintar a tela final. Nesta exposição, algumas maquetes estarão acompanhadas por desenhos e esboços, a primeira fase de seu trabalho. ‘‘O quadro é uma idéia. Transportar a idéia para um sentido físico exige uma elaboração, um estudo quanto a desenhos e cores até se chegar ao que mais corresponde a sua idéia. As minhas maquetes são meus estudos, o fio condutor’’, explicou.
Embora os temas de seus trabalhos façam parte daquilo que se costuma classificar como acadêmico, o trabalho do artista não pode ser entendido como tal. Bianco pinta a beleza que não aceita classificações, em traços tão expressionistas quanto extremamente pessoais. As próprias cores que usa e sua visão pessoal fazem a grande diferença.
Como afirmou certa vez o jornalista Mário Margucci: ‘‘para detectá-la, é preciso entrar no reino intrínseco da pintura, onde se ‘fala’ com o ‘alfabeto das cores’, onde o estilo nasce do jeito de pincelar, do ‘chiaro/oscuro’, dos contrastes, das transparências, das luminosidades’’. Pessoalmente, Bianco não gosta de rótulos sobre sua obra. ‘‘Não gosto de dizer que faço isto ou aquilo. Eu apenas pinto. A pintura é minha paixão de tal modo que chego a ter ciúmes do tempo em que não estou pintando’’, afirmou.
Nesta exposição, o público poderá ver obras desenvolvidas através de temas recorrentes em seus trabalhos como a natureza morta, a cena de campo e o nu. Estes, segundo Bianco, são temas que estão intimamente ligados ao seu modo de viver e encarar a arte. ‘‘O nu, para mim, sempre foi um enorme desafio. Principalmente porque, em nossa época, o estético ficou sublimado pelo erótico. Para mim, porém, a mulher sempre foi algo belo, definitivo’’, explicou.
Segundo ele, com seus nus está apenas tentando entender as mulheres. ‘‘Sou um homem, portanto não entendo nada de mulher. Eu busco o íntimo, o particular, aquela reflexão que cada mulher faz frente ao espelho da vida. O fato de estar nua é só um detalhe’’, afirmou. Para o ele, o maior elogio feito sobre seus nus partiu de um amigo de seu filho. ‘‘O rapaz, tido como garanhão, entrou em meu atelier e disse que nunca se masturbaria em frente a um destes nus. E é isto que eu quero. Eu tenho repulsa por este lado erótico que a humanidade teima em ver. A sensualidade não precisa ser explicitamente erótica’’, garantiu.
As cenas de campo servem, segundo ele, apenas como um cenário para as pessoas que estão ali representadas - lembranças dos tempos passados na Calábria, interior da Itália, misturadas à observação do sertanejo brasileiro. ‘‘Os camponeses que dão duro nos trigais e olivais da Itália são idênticos ao nordestino que luta contra a seca, ao colhedor de café, ao boiadeiro’’, apontou.
Para Bianco, o contato entre o homem e a terra sempre foi muito marcante para seu trabalho. ‘‘Eu vejo o homem usando a terra e sendo usado por ela. E, pode notar, em minha pintura nunca aparece uma máquina. A indústria me apavora. Eu profiro mostrar esta força heróica entre homem e terra. O trabalho de formiga’’, explicou.
Já as naturezas mortas são, segundo ele, válidas pela pintura em si e pela carga emocional que podem transmitir ‘‘apesar de serem chamadas mortas’’. ‘‘Os grandes mestres sempre foram buscar a poesia através de objetos do cotidiano. Não é preciso retratar uma pessoa para passar emoção. A natureza, em si, tem um enorme poder de síntese que sempre vai me satisfazer mais que o abstrato. Aliás, o abstrato é muito pobre e árido para minha visão mediterrânea’’, garantiu.
Entre as maquetes que serão expostas estão alguns dos mais representativos quadros do artista como uma ‘‘Madona com trigo’’, da série mais famosa de Bianco; ‘‘Trigal’’, ‘‘Pastores com ovelhas’’, ‘‘Colheita de algodão’’, ‘‘Boiada’’ e diversos nus.
Exposição de pinturas de Enrico Bianco - abertura sexta-feira (dia 06), às 20h30, na Galeria Bahiarte (Rua Espírito Santo, 1.701), em Londrina. A exposição poderá ser visitada até dia 20, de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas; e aos sábados, das 8 às 13 horas.

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