A beleza dos detalhes
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quarta-feira, 25 de junho de 2008
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
Diz-se que a poesia está em tudo. Depende apenas da maneira com que se olha o mundo. Para os japoneses, especialmente, a poesia está na natureza: nas estações do ano, nas suas flores e nos seus frutos, nas suas cores, na sua essência. E é assim, no encontro de elementos naturais com o sentimento e percepção de mundo do poeta que está formado o haiku, traduzido para o português como haicai.
A forma de poesia mais tradicional da cultura japonesa chama a atenção pela estrutura - simples, objetiva e sintética. E depois conquista pela sublime capacidade do poeta em colocar em tão poucos versos sentimentos puros e imperceptíveis aos mais apressados, provocando um momento de reflexão e descobertas.
Com origem datada no século VII, no continente asiático, o haicai teve como principal precursor Matsuô Bashô (1644-1694), que se dedicou a fazer desse tipo de poesia uma prática espiritual. O haicai chegou ao Brasil junto com os imigrantes japoneses e ganhou a simpatia dos ocidentais. Produzidos por poetas brasileiros, aos poucos algumas de suas características foram sendo deixadas de lado, enquanto outras incorporadas às suas formas, produzindo o que culturalmente poderia ser chamado de ''miscigenação'' literária.
Mas é entre os próprios japoneses e descendentes que hoje vivem no Brasil que esse tipo de arte permanece pura na sua forma e ''quase'' intacta na sua essência - poema com 17 sílabas, em três linhas de 5, 7, 5, com a natureza como tema central, mas agora com as cores brasileiras. Em Londrina, por exemplo, um grupo de nikkeis se reúne uma vez por mês para produzir haicai. O líder deles, Masasuke Mashima, 76 anos, conta que as reuniões começaram em 1998 como a intenção de preservar um pouco da tradição japonesa.
Vindo do Japão aos 25 anos, o professor Mashima - como é chamado pelo grupo - é categórico em afirmar que o cenário brasileiro é muito melhor para se produzir haicai. ''Aqui no Brasil temos uma natureza abundante, em cada estação do ano existe uma variedade imensurável de flores e frutas típicas. No Japão tudo é mais restrito. Temos a neve, o arroz, a cerejeira...'', descreve.
Mas engana-se quem pensa que haicai é apenas um olhar mais atento para as belezas naturais. ''Misturamos sentimentos, beleza e natureza'', enfatiza Kishuie Shimada, 79, apelidada de Margarida. Mas não só: ''É divertimento'', brinca e resume Haruko Nakagawa, conhecida como Helena. E todos do grupo são unânimes em afirmar que haicai é ''bom para a cabeça e para o coração, como se fosse um descanso''.
O haicai verde e amarelo
Mais que a forma, a essência do poema foi a principal influência do haicai entre alguns escritores brasileiros: a aproximação a natureza, a busca pela reflexão, a sensação de descoberta. Alguns poetas adotaram esse tipo de poesia mais pela essência, que busca compreender os sentimentos do mundo através da percepção da natureza, enfatizou o professor de teoria literária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sálvio Fernandes de Melo.
Segundo ele, quando o haicai é produzido por poetas brasileiros, eles procuram absorver a essência e a estrutura, sempre em busca de uma nova linguagem, mais elaborada, crítica e contemporânea. E muitas vezes, conforme Melo, acontece de mudarem a forma e ficarem apenas com a essência. Diferente da semelhança que algumas pessoas vêem entre o haicai e a poesia concreta, Melo explica que não existe similaridade alguma: O concretismo busca o visual, o sonoro, o sólido, e não o abstrato como o haicai, que ainda tem uma ligação forte com o místico e a religiosidade, conclui.
Ainda segundo o professor, os produtores da forma mais tradicional de poesia japonesa dizem que existe o momento exato do haicai. É um insight, um flash, um pequeno momento de captação de toda a essência da vida através da poesia, descreve.
Entre os principais escritores paranaenses (ocidentais) que mais tiveram influência do haicai estão Helena Kolody, Paulo Leminski, Alice Ruiz e Rodrigo Garcia Lopes. Alguma coisa da forma foi alterada, mas alguma coisa da essência permanece nas obras desses poetas, disse o professor. (E.Z.)
Gestos ligeiros, olhares singelos
Concentração. Olhos atentos, gestos simples e ligeiros, traços metódicos para desenhar o haicai. Tudo parece fácil e até mecânico para quem chega e vê o trabalho dos 12 integrantes do grupo que se reúne uma vez por mês, na sede da Aliança Japonesa em Londrina, para produzir haicai.
Mas o resultado de uma tarde de produção revela a singeleza com que os orientais olham para o mundo: alusões entre as cores do arco-íris com as formas do amor e os sentimentos do mundo.
Tudo é possível dentro do haicai, mas um elemento é chave para caracterizar o poema: o Kigô. O termo remete à palavra do poema que indica a característica de cada estação do ano como uma flor ou uma fruta e é fundamental no haicai. Assim, o poema Resolvi definitivamente/viver no Amazonas/ queimando mato significa que o período é de primavera, quando a terra será queimada para receber nova plantação.
Boa parte da produção do dia e aí reside um pouco da graça para os poetas é encaminhada para os jornais da comunidade nipônica de todo o País. Alguns poemas também são encaminhados para concorrer em festivais de haicais, iniciativas comuns entre os nisseis. Mesmo no fim de cada reunião, o grupo escolhe as duas poesias mais bonitas, como forma de reconhecer o trabalho dos integrantes e estimular a produção.
Mashima líder do grupo por exemplo, tem haicais publicados em várias coletâneas, inclusive em uma produção da Associação Brasileira de Haicais de 1998, que comemorou os 90 anos da imigração japonesa no Brasil. Este ano, algumas de suas poesias também foram encaminhadas para participar da seleção de uma nova coletânea da entidade, agora em comemoração ao Imin 100. (E.Z.)


