Veneza A diretora Tonie Marshall (''Instituto de Beleza Vênus'') disse durante a entrevista coletiva sobre ''Au Plus Prè du Paradis'' que ofereceu a Catherine Deneuve uma verdadeira história de amor. Aquele amor, segundo ela, que segundo ocupou a maior parte da vida da atriz, mais do que o próprio trabalho. Não se deu lá muito bem. O filme não é bom. É um pastiche sentimental: a busca de um amor perdido na juventude em algum lugar entre a França e os Estados Unidos, o encontro com um fotógrafo profissional (William Hurt), a aceitação do duvidoso pragmatismo sentimental americano (''se não pode estar com quem ama, então ame quem está com você'') e a confusa intercorrência com sequências inteiras de ''Tarde Demais para Esquecer'', o clássico romântico das lágrimas sobre o encontro amoroso na noite de Natal, no terraço do Empire State Building. E Catherine muito menos está bem no filme. Tronco engrossado, sem cintura, caminhar hesitante, sempre agarrada à bolsa, ao cigarro e ao isqueiro. Parece particularmente infeliz no personagem Fanette.
Mas acima de tudo profissional, a sempre inteligente e luminosa Catherine não iria complicar a futura carreira comercial do filme logo em sua pré-estréia mundial. Temperamento de pantera, o ícone do cinema francês andou brava por aqui, primeiro com a meia hora de atraso do carro que a levou do Hotel Excelsior ao Casin• (distancia entre os prédios: 100 metros, ou pouco menos) para a entrevista coletiva, depois com o jornalista que a irritou querendo saber por que nos últimos anos ela vem fazendo sempre o mesmo filme. Sem digerir o ultraje, mostrou as unhas e desferiu: ''Qual personagem não lhe agradou, quais os filmes? O de Lars von Trier, o de François Ozon? É uma grande ofensa para todos nós, como você pode dizer isso ?! Qualquer um sabe que faço filmes muito diferentes!''
Duas horas mais tarde, ela está de volta ao Excelsior, agora numa sala pequena, elegante e providencialmente climatizada. Uma Catherine Deneuve simpática mas também irônica, sempre oscilando nos limites do glamour glacial, ''comme il fault''. Vestindo o mesmo tailleur verde-esmeralda de mangas compridas, bem mais calma, La Deneuve recebeu a Folha2 para uma conversa que durou o tempo exato de cinco cigarros. Seria muito, não fosse o metódico ritual da atriz acendendo um atrás do outro. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O que representa para a senhora o papel de Fanette ?
Foi um desafio interessante mas um pouco pesado e estafante. Porque significava estar todos os dias no set. Mas era também muito bom, porque no fundo ''Au Plus Près du Paradis'' é uma homenagem a tudo o que há de mais romântico na vida.
O press release informa que estavam filmando em Nova York no dia 11 de setembro do ano passado. Como foi a experiênca?
Deveríamos filmar em Manhattan, mas acabamos indo para o Canadá porque em Nova York ficou impossível. William Hurt ficou bastante alterado, é uma pessoa problemática, introvertida, intelectual. Americano. Eu, que sou francesa, soube manter a calma.
Incomoda ser a grande dama do cinema europeu ?
Não sou uma dama e não sou grande. Sou somente uma mulher e isso já é o bastante para mim. As pessoas sempre me consideraram uma pessoas muito clássica, quando na verdade levo uma vida quase sempre anticonvencional.
E o trabalho de atriz, é cansativo? Em que termos a profissão é gratificante?
Para começar, um ator não trabalha. Os técnicos sim, trabalham. Atores fazem um pouco mais, um pouco menos. Como qualquer outro profissional. Mas não me arrisco a ficar sem fazer nada. Como neste meu trabalho predomina o belo, adoro aquilo que faço. Tenho sempre muito interesse pelo cinema, porque me dá a possibilidade de conviver com a arte e a beleza.
A esta altura da carreira, como se apresentam os papéis?
Para os americanos, uma atriz de 40 anos está acabada profissionalmente. Graças a Deus estamos na Europa. De qualquer maneira, antes de chegar aos personagens idosos, muitas de nós, mais ou menos famosas, devemos passar por um período de ausência das telas.
Isto ainda não aconteceu para senhora...
Ainda não, mas poderá acontecer em breve.
Sophia Loren, que esteve aqui no início do festival, já há algum tempo interpreta a mãe, e às vezes até a avó...
É mesmo?! Com cabelos brancos, rugas e tudo o mais?
É verdade. Em ''Between Strangers'', primeiro filme do filho dela, Edoardo Ponti, é uma velha e frustrada mulher que trabalha num supermercado.
Seu filho a dirigiu num filme? Um filme que passou aqui no festival? Rapaz feliz, que conseguiu dinheiro para sua psicanálise...

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