Gaston e Le Fou em cena de "A Bela e a Fera": motivo de censura por "breve momento gay"
Gaston e Le Fou em cena de "A Bela e a Fera": motivo de censura por "breve momento gay" | Foto: Reprodução



Num mundo em que a diversidade sexual parece ser cada vez mais aceita ou pelo menos muito discutida, cenas que pulam o "cercadinho dos costumes" ainda causam protestos ou mesmo censura em países conservadores sob o ponto de vista da política ou da religião.

Esta semana, a Disney decidiu adiar a estreia na Malásia de seu novo filme "A Bela e a Fera", depois que as autoridades do país muçulmano do sudeste asiático censuraram "um momento gay" da nova produção destinada ao público infantil, que desta vez, não é uma animação.

A censura na Malásia acontece uma semana depois da Rússia declarar o filme impróprio para menores de 16 anos, a pedido de um deputado ultraconservador pelo mesmo motivo. A Rússia de Vladimir Putin, como se sabe, tem uma controvertida lei sobre tudo que possa ser considerado "propaganda gay" e a exibição do filme no país suscitou críticas que parecem saídas da Inglaterra vitoriana, como a do deputado Vitoly Milonov, do partido Rússia Unida - o mesmo do presidente Putin - que considerou o filme "uma vergonhosa propaganda do pecado." Se hoje mantemos os olhos nas idiosincrasias de Donald Trump não custa lembrar que Putin não fica atrás, até parece que os deuses rogaram sobre a Terra suas piores pragas na forma de governos que forçam o mundo a uma marcha-à-ré.

A Rússia, que na era comunista perseguiu os homossexuais, continua sua sanha conservadora que se estende a legislações, no mínimo, controversas como a da chamada "lei do tapa" que flexibiliza a violência contra a mulher. Defensores da lei – que recentemente teve no parlamento 385 votos favoráveis e apenas 2 contra – sustentam que "agressões moderadas" são importantes para "sustentar valores tradicionais". O que ninguém sabe é como se avalia uma "agressão moderada":um olho roxo? Um braço quebrado? Hematomas pelo corpo? O fato é que por ano no país cerca de 12 mil mulheres são assassinadas pelos seus maridos.

CORTES
Quanto à "Bela e a Fera " - produção que volta às telas com estreia prevista no Brasil para a próxima quinta-feira (16) - tudo começou quando o diretor Bill Condon revelou à imprensa que o filme continha "o primeiro momento exclusivamente gay" da história da Disney. Diante disso, a Rússia ameaçou censura, mas acabou liberando o filme para maiores de 16 anos, ao passo que na Malásia, o presidente do Conselho de Censura, Abdul Halim Abdul Hamid, declarou ao jornal The Star que o filme havia sido "autorizado [...] com um pequeno corte". A sequência cortada é um episódio que foi declarado impróprio para menores de 13 anos devido a algumas "cenas inadequadas", segundo ele. Diante disso a Disney se opôs a exibição imediata e os cartazes dos cinemas em Kuala Lumpur, na Malásia, indicam que a exibição do filme foi "adiada até novo aviso".

ILEGALIDADES
"A Bela e a Fera" também foi criticado em Singapura, país vizinho da Malásia, onde o clero cristão acusou a Disney de desviar-se dos "valores saudáveis e dominantes". "Aconselhamos os pais a conversarem com seus filhos sobre esta nova versão de 'A Bela e a Fera'", declarou o bispo Rennis Ponniah, presidente do Conselho Nacional das Igrejas de Singapura. A homossexualidade é considerada ilegal na Malásia e Singapura, e pode resultar em prisão em ambos os países.

Por outro lado, jornalistas que assistiram ao filme, consideraram o tal "momento gay" entre os personagens Le Fou (Josh Gad) e Gaston (Luke Evans) "breve e cômico" não vendo sentido para tanta censura num mundo cada vez mais acostumado – ou não? - à diversidade sexual. Não é possível que desde as batalhas que se acentuaram nos anos 60 tenhamos chegado ao século 21 com pessoas demonstrando tamanha rejeição a um casal gay, ainda que numa fração de segundo ou "num momento cômico e breve" em que Gaston quer beijar Le Fou.

Todo exemplo de solidariedade de casais homossexuais em relação a tantas outras causas não bastou nestas décadas para que o fato de uma pessoa amar outra do mesmo sexo passasse a ser visto como natural. Dos olhares curiosos a extremismos que passam pela morte de homossexuais e transexuais motivada por discriminação, o mundo parece ter estagnado nas épocas em que o preconceito determinava a prisão e a violência contra gays, coisa ainda comum na Rússia contemporânea na qual um casal homossexual de mãos dadas em público é passível de sofrer punição. O Brasil mesmo relativamente distante de comportamentos drásticos – casais homossexuais são comuns em estações de metrô, bares e outros ambientes públicos onde trocam carícias como qualquer outro par – ainda mantém uma carga grande de preconceito em alguns nichos que não toleram as mesmas cenas com naturalidade, deixando isso claro com comportamentos e olhares repressivos.

Cabe muitas vezes à cultura e à arte a lufada de oxigênio capaz de conter os extremos em relação à diversidade sexual, racial e outros tantos temas que motivam tabus dentro e fora das telas.

No âmbito do cinema, ao mesmo tempo que um filme como "Moonlight" enfia o dedo na ferida do preconceito de forma tão realista quanto esmerada - a ponto de conquistar um Oscar com um tema "non grato" - temos na contrapartida um filme da Disney motivando a implicância de políticos e religiosos porque se destina ao público infantil.

"Moonlight" deixa clara a crueldade e o bullying sofrido pelas crianças homossexuais, uma perseguição que começa na escola e pode seguir vida afora motivando feridas psicológicas difíceis de cicatrizar. Se tudo isso não basta para mostrar a necessidade de uma educação e cultura que contemplem a liberdade e a contemporaneidade, não há mais o que possa convencer um segmento da sociedade que prima pela negação de uma orientação sexual diferente da sua.

Passados 117 anos da morte do escritor irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900), acusado e preso na era vitoriana por manter relações sexuais com rapazes, o moralismo ainda cruza fronteiras, indo ancorar na Rússia ou na Malásia como forma de repressão a quem ama o igual em vez do diferente. De nada adianta dizer a algumas pessoas que as vendas colocadas sobre a realidade diversa não significam que a vida deixará de seguir seu curso, com cada um tomando seu caminho conforme desejos e subjetividades que vão muito além da tarja da censura num cartaz cinematográfico. Os censores ignoram que quanto mais se aperta a areia, mais ela escapa entre os dedos. Eles também desconhecem um princípio básico que faz o mundo girar: o amor sempre terá estratégias de sobrevivência. (Com agências de notícias)

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