A bela e a fera
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Márcio Maio <br> TV Press 
O ano mal começou, mas Deborah Secco já sabe que 2011 marca uma nova fase em sua vida. Depois de dois anos de poucas aparições na tevê, a atriz mostra sua boa forma na pele da deslumbrada Natalie Lamour de ''Insensato Coração'', novela das nove da Globo. E se prepara para lançar nos cinemas um trabalho que ela jura ser dos mais importantes em sua vida: o longa ''Bruna Surfistinha'', inspirado na vida da escritora e ex-garota de programa Raquel Pacheco. ''Me orgulho por poder mostrar, em dois veículos diferentes, papéis tão distintos e densos. Acho que estou vivendo um momento de virada para mim'', analisa a atriz carioca, que é casada com o jogador de futebol Roger Flores, atualmente no Cruzeiro de Belo Horizonte.
Deborah não esconde o desejo em impulsionar sua carreira artística e arrisca até dizer que, no que depender dela, a televisão pode começar a sentir mais sua falta. Tudo para se permitir mais experiências nos palcos e em filmes. ''Acho que cheguei a um momento da minha vida em que posso escolher um pouco. É bom se reciclar e, ao mesmo tempo, deixar saudade no público'', opina.
O filme ''Bruna Surfistinha'' está prestes a estrear e foi sua primeira experiência em um papel biográfico. Isso ajudou você na hora de compor uma ex-participante de ''reality show''?
Deborah Secco O filme me reciclou e me abriu inúmeras possibilidades de atuação. Mas não nesse sentido, porque não considero a Bruna que eu interpretei uma personagem real. Foi uma composição completamente livre de qualquer obrigação com a realidade. Nossa intenção não era fazer um documentário. Se fosse, a própria Raquel Pacheco poderia encarná-la. Nosso trabalho ali é ficcional mesmo.
Muitas comparações são feitas entre a Natalie e a Darlene, personagem que você encarnou em ''Celebridade''. Você nota semelhanças entre as duas?
D.S. Eu estava comentando com o Gilberto e com o Ricardo Linhares que a Darlene queria ser famosa e a Natalie se acha a mais famosa do planeta. A Darlene era muito menina, um tanto estabanada, e a Natalie é um mulherão. A Darlene nunca viraria essa pessoa. Talvez a Jaqueline, personagem da Juliana Paes naquela época, virasse. Mas é aquilo: o humor dos autores é o mesmo e a atriz também. Isso pode criar essa impressão. A Bebel, personagem da Camila Pitanga em ''Paraíso Tropical'', por exemplo, tem muitas características em comum com a Natalie. E, se a gente pensar um pouco, vai esbarrar em todas as personagens de comédia que o Gilberto e o Ricardo fizeram...
Você sempre se mostrou fã do ''Big Brother Brasil'', um programa que reúne muitas mulheres com os mesmos desejos da Natalie. Elas serviram de inspiração para a personagem?
D.S. Sou fã incondicional do ''BBB'', sim, mas não acompanho a vida dos participantes após saírem da casa. Perde a graça. O legal é a pressão que eles passam ali, diante de provas, de votação, essas coisas. Me inspirei mesmo nas pessoas que se acham mais famosas do que realmente são. Aquelas que querem contar a vida para a imprensa, mas fazem um caminho torto para os jornalistas descobrirem seus segredos. As que dão o furo, mas dizem que é em 'off'. E elas estão em toda parte.
A sua boa forma chama atenção nas cenas da Natalie. Foi uma exigência da emissora?
D.S. Eu tinha engordado para o filme. Mas sabia que o personagem da novela exigia outra composição. Normalmente, essas mulheres que buscam a fama são malhadas, meio bombadas até. Então, voltei ao meu pilates, que eu fazia cinco vezes por semana, e reduzi para duas. Passei a dedicar dois dias também para a musculação, principalmente para definir as pernas. E mudei a alimentação por conta de uma estafa, o que acabou ajudando. Eu comia muitas bobagens e fiz uma dieta rígida por dois meses. Hoje aprendi a comer coisas que antes passavam longe dos meus pratos, como saladas, frutas e carnes brancas. E a beber água e sucos.
Você está com uma personagem sensual na tevê e interpreta uma prostituta no cinema. Pensa na possibilidade de posar nua esse ano?
D.S. Não. Estou em um momento em que não rola. Quando fiz isso, foi por dinheiro. Hoje, graças a Deus, posso dizer não. Acho também que desvirtua o foco do que realmente eu quero mostrar agora. ''Bruna Surfistinha'' foi um trabalho que fiz com muito esforço e dedicação. Depois vem a Natalie, que é sensual, mas completamente diferente do que já fiz na televisão. Se eu trocar o rumo agora, todo o meu esforço vai por água abaixo.
Você ficou dois anos sem fazer novela. Isso depois de emendar vários trabalhos na tevê. Foi proposital ou uma coincidência?
D.S. Eu realmente emendei uma novela na outra e, depois de ''A Favorita'', decidi que era a hora de parar um pouco. Por isso, foi uma decisão minha. Só que o Gilberto Braga acabou ajudando. Ele me reservou para ''Insensato Coração'' e pediu que eu não fizesse novelas nesse período. Fiquei à vontade para investir em outros formatos, como as séries ''Decamerão'', ''Ó Paí, Ó'' e ''As Cariocas''. E fiz o ''Bruna Surfistinha'' e voltei para o teatro também. Foram dois anos de reciclagem. Agora, 2011 é um ano de colher o que foi plantado desde 2009.
Por que você decidiu dar essa pausa?
D.S. Às vezes parece discurso bobo, mas é importante. Você se reinventa, cria um novo ânimo para começar um trabalho como essa novela, por exemplo. ''Insensato Coração'' vai ser um trabalho longo, é tempo e energia para se dedicar a um papel como esse. E não é só isso, me despi completamente de qualquer vaidade, pudor, medo, seja lá o que for, para fazer o ''Bruna Surfistinha''. Abandonei minha casa e minha família por um tempo e segui em turnê pelo teatro. Tive contato com o público de diversos estados. Foram dois anos muito proveitosos e que eu espero poder repetir com mais frequência.
Você pretende evitar emendar trabalhos na tevê depois dessa pausa?
D.S. Hoje em dia acho que cheguei num momento em que posso escolher um pouco. Pode ser que daqui a alguns anos eu tenha que dar uns passos para trás, porque infelizmente a vida nem sempre é do jeito que a gente quer. Mas se eu pudesse, gostaria de alternar mais o cinema com a tevê e o teatro. Não é bom aparecer tanto em trabalhos longos na televisão. Até para que o público também me veja de uma forma diferente.
Você já foi muito criticada pela imprensa. Como lida com isso atualmente?
D.S. Tive bons e maus momentos. Comecei com ''Confissões de Adolescente'', que foi um dos programas mais elogiados da tevê. E a minha personagem era muito boa, talvez a mais querida das quatro irmãs. Muito cedo aprendi que é isso: em alguns trabalhos você acerta, recebe uma personagem que tem várias ferramentas para serem trabalhadas; já em outros, o papel não favorece tanto.
Como no caso das mocinhas?
D.S. Talvez, mas não sei se posso afirmar isso. Por mais que houvesse críticas, tenho muito orgulho do meu trabalho em ''América''. E a audiência foi enorme. Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo exatamente igual. A Sol era muito pertinente em tudo. Talvez o fato de ela ter abandonado o grande amor e saído em busca dessa aventura americana tenha criado uma rejeição, mas a história dela com o Ed fez muito sucesso. Teve uma aceitação bem maior do que a gente imaginava.
Você costuma se sair melhor em personagens de tramas paralelas...
D.S. Acho que as personagens paralelas dão mais ferramentas para os atores. A mocinha normalmente limita porque cria-se a ideia do politicamente correto. Quando encarnamos outros papéis, podemos testar, errar, tentar outros caminhos, enfim, o trabalho pode ficar mais rico. Acho que esse não é um problema da minha carreira especificamente. Em geral, as vilãs mesmo fazem mais sucesso que as mocinhas.
Isso faz com que você repense, atualmente, um convite para ser protagonista?
D.S. Prefiro personagens paralelos. Principalmente para fazer coisas diferentes do que já fiz. Como a mocinha de época, a contemporânea... O que eu queria muito fazer era uma vilã. Fiz a Íris, em ''Laços de Família'', mas já tem muito tempo. Ela nem era tão má, mas era a única vilã da novela. Se bem que nas novelas do Manoel Carlos elas são sempre adoradas.
''Insensato Coração'' - Globo - Segunda a sábado, às 21 h.


