Arquivo FolhaIvete Sangalo: imponente presença cênica e também consistente repertórioTrata-se da mesma pessoa, obviamente. Só que há diferenças artísticas entre a Ivete Sangalo, líder da Banda Eva e a Ivete Sangalo que decidiu fazer um show solo. A primeira possui vícios tamanho o consumo de axé-music tais como pedir pra galera tirar os pés do chão, cantar músicas encomendadas a rádios e ‘‘rádias’’ e ter quase a obrigação de zelar mais com números do que com o repertório. Já a outra Ivete não pode ser mais chamada simplesmente de musa da atual música baiana. Ela, desde quinta-feira, revelou-se uma diva do show ‘‘Essa É pra Tocar no Rádio’’, apresentado na área verde do Othon Palace de Salvador, e que deixou as 500 pessoas presentes completamente hipnotizadas.
Durante uma hora e meia, a cantora baiana destilou categoria e um surpreendente - e nobre - domínio de palco, só comparável a Maria Bethânia. É evidente que parte dos méritos vai para o diretor Gabriel Villela, responsável também pelos figurinos (belos) e cenários (nada que mereça maiores comentários).
Ele soube, sobretudo, transformar a boa intérprete em também boa atriz. Deu-lhe gestos nobres e/ou ousados sem se esquecer que Ivete é uma artista do canto. Deu-lhe dois curtos textos, um deles devidamente esquecido. O ‘‘branco’’ repentino foi substituído por um rápido (mesmo que ‘‘clicheroso’’) agradecimento ao público. Villela conseguiu um outro milagre: aproveitar a pouca extensão do palco (o jeito foi construir uma plataforma) sem que isso prejudicasse, muito, a desenvoltura de Ivete - um pequeno tropeço num instrumento e todo o cuidado do mundo na hora de correr o palco de canto a canto.
Bem, carismática que é, coube apenas à cantora obedecer de maneira natural às marcações para que os holofotes captassem todo o seu charme cênico. O show foi aberto com ‘‘Canário do Reino’’ (Tim Maia). No total, 17 músicas. Surge Ivete no palco vestida de terno, gravata e chapéu, com direito a trejeitos masculinos e coreografia a la Michael Jackson. Inicialmente, o público a recebeu um pouco friamente. Ou o susto foi grande ao vê-la vestida de ‘‘homem’’ (aliás, não deu mesmo pra entender o uso desse expediente) ou a maioria das pessoas pensou que ir ouvir ‘‘Arer꒒ e coisas afins que compõem o repertório da Banda Eva. Porém - e é aí que entra a atriz-cantora - Ivete foi ganhando a todos pela imponente presença cênica e também consistente repertório com forte sotaque de soul music, funk, pop, enfim.
Na primeira parte do show, um clichê perfeitamente dispensável: o de Ivete ir, música a música, retirando a ‘‘fantasia’’ masculina, mesmo que o mais importante, naqueles momentos, fossem os arranjos e interpretações originais a pérolas como ‘‘Bolinha de Papel’’ (Geraldo Pereira, em versão funk), ‘‘Pra que Recordar’’ (Carlos Dafé) e a genial ‘‘Salve Essa Flor’’ (Cassiano).
Na segunda parte, eis que surge ela com todo esplendor e sensualidade, vestida com vistosa saia rodada, no melhor estilo dançarina pós-moderna de flamenco. Dançou, passeou com desenvoltura (mesmo com o tamanho do palco isso foi até possível). Ganhou público, não as tietes do gargarejo, mas os sisudos e até então céticos em relação à empreitada solo.
Como não é boba nem nada, Ivete cantou ‘‘Coleção’’ (Cassiano Paulo Zdanowski), sucesso em sua voz no disco mais recente da Banda Eva. Em seguida, atacou de ‘‘Sá Marina’’ (Wilson Simonal), magnífica. Aplausos e gritos. Em determinados momentos, Ivete parecia estar incorporada com um orixá da MPB, Maria Bethânia. Jogada de cena, gestos dramáticos, andar na ponta dos pés. Foi só uma vibração, uma influência cênica da rainha soberana. Mas Ivete tem estilo próprio. Permite-se sair de um possível pedestal da realeza para balançar o bumbum a la Carla Perez ou fazer rápida referência coreográfica (mas com charme) à dança estranha de Claudinho e Buchecha.
Pois muito bem, essa outra faceta cênica-musical de Ivete é que deve ser conhecida, principalmente por quem torce o nariz (e com um pouco de razão) às estripulias da Banda Eva. É preciso ver de perto o surgimento de uma senhora intérprete de música dançante, suingada, é certo, mas com consistência. Que também se mostra delicada em ‘‘Valsa Brasileira’’ (Edu Lobo-Chico Buarque) e ao mesmo tempo explosiva em ‘‘I Got You (I Fell Good)’’, do genial James Brown. ‘‘Essa É pra Tocar no Rádio’’ é um espetáculo fantástico, marcante, sensacional. Um show que revela uma Ivete brilhante. O ‘‘porém’’ fica pela pequenez do palco (que mesmo assim ela soube dar conta). Dois dedinhos a mais de largura e uns quatro palmos a mais de comprimento e Ivete poderia espalhar todo o estoque da carga de nobreza até então enrustido. Outros palcos maiores deverão ser construídos. Deverão não; precisam. Bem como seria de bom-tom viajar com o show e transformá-lo em disco. De preferência ao vivo.
Ainda é cedo para chamá-la de rainha - Bethânia continua insuperável no palco. Princesa! Isso, princesa! Salve, Ivete!! Salve, Princesa!!
• O jornalista Antônio Mariano Júnior viajou a Salvador a convite da produção do show.

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