A BATALHA DA PAZ
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de novembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Muitos séculos atrás, numa mesma ilha, viviam duas nações em guerra. O conflito se arrastava por várias gerações, com muito sangue derramado, sem trégua. A violência e atrocidades das batalhas angustiavam os reis e a população das duas nações - a nação branca e a preta.
Quando finalmente a paz foi conquistada, os reis decidiram que seria importante deixar um registro dos sangrentos combates para que a guerra nunca fosse esquecida. Para que as futuras gerações, conhecendo o passado, nunca mais o repetissem.
Numa espécie de celebração da paz, os governantes das duas nações se uniram e contrataram poetas, escritores e trovadores para criarem um relato original e inesquecível. Uma história para a guerra ser lembrada através dos séculos, através dos milênios.
Anos se passaram e nenhum deles conseguiu criar uma grande história que relatasse os acontecimentos de maneira completa e intensa. O reis estavam quase desistindo quando apareceu um homem chamado Sissa dizendo que tinha uma obra que satisfazia todos os desejos e objetivos dos reis.
Apresentou uma caixa de madeira coberta com quadrados brancos e pretos. Sobre o tabuleiro, colocou várias peças que pareciam pessoas estilizados. A reação dos reis, e de toda a corte, foi de descrédito. Não conseguiam entender como uma complexa guerra poderia ser representada num pequeno tabuleiro.
Solicitando a atenção de todos, Sissa começou a explicar sua invenção. Disse que o tabuleiro era uma réplica da ilha dividida por paralelos e meridianos e os acontecimentos da guerra seriam narrados na forma de um jogo. De um lado a nação branca, de outro a preta.
Os movimentos das peças reviveriam a batalha cada vez que fosse um novo jogo fosse disputado. Mostrou o movimento das peças: o rei, a dama (rainha), o bispo, a torre, o cavalo e o peão. Cada uma delas realizando funções específicas, correspondente a suas posições sociais e ocupações de guerra.
Esse é o início da milenar lenda que conta a história do xadrez, um dos jogos mais fantásticos que a humanidade produziu. Sua origem remete a 3 mil anos atrás, em algum lugar da Ásia. Essa sedutora e inteligente lenda é contada para o público infanto-juvenil em A História do Xadrez obra do ilustrador argentino Horacio Cardo que acaba de ser publicada pela Editora Salamandra.
Com ilustrações belíssimas, trata-se de um livro completo. Oferece, ao mesmo tempo, a lenda literária do xadrez e o jogo estruturado. Apresenta a imagem simbólica de cada peça e seus movimentos práticos no tabuleiro. O papel subjetivo é colocado lado a lado com a função objetiva. O leitor que não conhece o jogo, será seduzido a aprendê-lo. O leitor que já o conhece e pratica, será envolvido pela riqueza simbólica da lenda.
Ao final, quando Sissa terminou seu relato, os reis encantados não conseguem encontrar nenhuma falha em sua invenção. Ela representava perfeitamente a memória da guerra. Felizes, ofereceram ao inventor uma recompensa, aquela que desejasse. Sua resposta foi direta: Não há tesouro que se possa comparar com as riquezas oferecidas pelo jogo. Para mim, será suficiente que todos continuem a praticar o jogo, tentando compreender seus ensinamentos.
Diante da prepotente insistência dos reis, disse que aceitava uma recompensa. Pediu uma moeda de ouro para a primeira casa do tabuleiro, duas para a segunda casa, quatro para a terceira e assim por diante até a casa final (64), em progressão geométrica. Os nobres consideram um pedido bobo, apenas algumas moedas de ouro. Mas quando os funcionários começaram a fazer as contas, perceberam que não conseguiriam completar todas as casas nem se juntassem o tesouro das duas nações. Na décima casa o número já alcançava 1.024 moedas.
Segundo a lenda, é por isso que o xadrez continua sendo praticado até hoje. Mas, infelizmente, não conseguiu acabar com as guerras fora do tabuleiro.
A História do Xadrez de Horacio Cardo, Editora Salamandra, tradução de Pedro Bandeira, 48 páginas, capa dura, R$ 24,00. Distribuição pela Editora Moderna: telefone (11)6090-1500 - fax (11)6090-1501 - internet www.moderna.com.br


