Muitos séculos atrás, numa mesma ilha, viviam duas nações em guerra. O conflito se arrastava por várias gerações, com muito sangue derramado, sem trégua. A violência e atrocidades das batalhas angustiavam os reis e a população das duas nações - a nação branca e a preta.
Quando finalmente a paz foi conquistada, os reis decidiram que seria importante deixar um registro dos sangrentos combates para que a guerra nunca fosse esquecida. Para que as futuras gerações, conhecendo o passado, nunca mais o repetissem.
Numa espécie de celebração da paz, os governantes das duas nações se uniram e contrataram poetas, escritores e trovadores para criarem um relato original e inesquecível. Uma história para a guerra ser lembrada através dos séculos, através dos milênios.
Anos se passaram e nenhum deles conseguiu criar uma grande história que relatasse os acontecimentos de maneira completa e intensa. O reis estavam quase desistindo quando apareceu um homem chamado Sissa dizendo que tinha uma obra que satisfazia todos os desejos e objetivos dos reis.
Apresentou uma caixa de madeira coberta com quadrados brancos e pretos. Sobre o tabuleiro, colocou várias peças que pareciam pessoas estilizados. A reação dos reis, e de toda a corte, foi de descrédito. Não conseguiam entender como uma complexa guerra poderia ser representada num pequeno tabuleiro.
Solicitando a atenção de todos, Sissa começou a explicar sua invenção. Disse que o tabuleiro era uma réplica da ilha dividida por paralelos e meridianos e os acontecimentos da guerra seriam narrados na forma de um jogo. De um lado a nação branca, de outro a preta.
Os movimentos das peças reviveriam a batalha cada vez que fosse um novo jogo fosse disputado. Mostrou o movimento das peças: o rei, a dama (rainha), o bispo, a torre, o cavalo e o peão. Cada uma delas realizando funções específicas, correspondente a suas posições sociais e ocupações de guerra.
Esse é o início da milenar lenda que conta a história do xadrez, um dos jogos mais fantásticos que a humanidade produziu. Sua origem remete a 3 mil anos atrás, em algum lugar da Ásia. Essa sedutora e inteligente lenda é contada para o público infanto-juvenil em ‘‘A História do Xadrez’’ obra do ilustrador argentino Horacio Cardo que acaba de ser publicada pela Editora Salamandra.
Com ilustrações belíssimas, trata-se de um livro completo. Oferece, ao mesmo tempo, a lenda literária do xadrez e o jogo estruturado. Apresenta a imagem simbólica de cada peça e seus movimentos práticos no tabuleiro. O papel subjetivo é colocado lado a lado com a função objetiva. O leitor que não conhece o jogo, será seduzido a aprendê-lo. O leitor que já o conhece e pratica, será envolvido pela riqueza simbólica da lenda.
Ao final, quando Sissa terminou seu relato, os reis encantados não conseguem encontrar nenhuma falha em sua invenção. Ela representava perfeitamente a memória da guerra. Felizes, ofereceram ao inventor uma recompensa, aquela que desejasse. Sua resposta foi direta: ‘‘Não há tesouro que se possa comparar com as riquezas oferecidas pelo jogo. Para mim, será suficiente que todos continuem a praticar o jogo, tentando compreender seus ensinamentos.’’
Diante da prepotente insistência dos reis, disse que aceitava uma recompensa. Pediu uma moeda de ouro para a primeira casa do tabuleiro, duas para a segunda casa, quatro para a terceira e assim por diante até a casa final (64), em progressão geométrica. Os nobres consideram um pedido bobo, apenas algumas moedas de ouro. Mas quando os funcionários começaram a fazer as contas, perceberam que não conseguiriam completar todas as casas nem se juntassem o tesouro das duas nações. Na décima casa o número já alcançava 1.024 moedas.
Segundo a lenda, é por isso que o xadrez continua sendo praticado até hoje. Mas, infelizmente, não conseguiu acabar com as guerras fora do tabuleiro.
‘‘A História do Xadrez’’ de Horacio Cardo, Editora Salamandra, tradução de Pedro Bandeira, 48 páginas, capa dura, R$ 24,00. Distribuição pela Editora Moderna: telefone (11)6090-1500 - fax (11)6090-1501 - internet www.moderna.com.br

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