São Paulo, 09 (AE) - Promete causar impacto a peça "A Barca dos Mortos", texto inédito no Brasil do dramaturgo alemão Harald Mueller, dirigida por Rubens Rusche. O espetáculo terá apresentações de pré-estréia entre 15 e 25 de abril no Teatro Municipal de Santo André, no ABC paulista, e estréia prevista para 13 de maio no Espaço Ademar Guerra (o porão) do Centro Cultural São Paulo.
Escrita para um concurso cuja temática era a ecologia, em 1984, a peça já foi montada oito vezes na Alemanha e mostra o planeta em total estado de devastação após uma hecatombe de proporções avassaladoras. O autor não esclarece a causa do desastre ecológico, porém a natureza está destruída e os poucos sobreviventes estão contaminados, assim como a água, o ar e os alimentos.
Nesse mundo devastado, quatro personagens, três homens e um mulher, encontram-se e peregrinam em busca de Xantei, um lugar ainda preservado, que um deles jura existir. Para o diretor, no entanto, o foco central da peça não está exatamente na busca dessa espécie de Shangri-lá, mas no encontro dos quatro personagens.
"O eixo dramático gira em torno da capacidade do ser humano de solidarizar-se e formar uma comunidade mesmo em meio à total degradação", diz. A peça tem nove quadros e os quatro primeiros tratam do encontro dos personagens, a partir do qual eles vão sofrer profundas transformações interiores. Ambientação - O impacto começará já na entrada do teatro, antes mesmo do início do espetáculo, quando o público vai deparar-se com o belíssimo cenário de J.C. Serroni, quase uma instalação. Numa sala do Instituto Goethe, que gentilmente cedeu um local para os ensaios, Serroni explica, por meio de uma maquete, que o espectador caminhará por um estreito caminho, iluminado como uma caverna, repleto de livros queimados, pichações, névoa, peças de computadores, pára- choques de carros e toda espécie de sucata.
Depois de cerca de cinco minutos de percurso, chega-se a uma arena de apenas 160 lugares, com cadeiras bem afastadas uma das outras. Nesse isolamento, o espectador estará diante de um grande tubo que, de tempos e tempos, despeja lixo no palco. Pinturas de Bosch, Kiefer e Francis Bacon e fotografias de Sebastião Salgado, Otto Dix, Jim Goldberg inspiram o cenário/instalação. "Tudo tem de ser horrível e ao mesmo tempo bonito, para não agredir o público, até porque o espetáculo não é agressivo", diz Serroni.
O grande tubo não expele apenas lixo. Logo na primeira cena, por ele cai o personagem Utai, expulso da única área habitável do planeta. Ele implora inutilmente para voltar, alegando possuir "apenas 0,4% de cádmio" no sangue e afirmando ser um asséptico clone criado para doar órgãos. E alega ainda ter respeitado os dez mandamentos da área habitável, entre eles não amar, não ler livros antigos e checar todos os alimentos. Em vão.
Dele se aproxima Checker (Antonio Galleão), uma espécie de Rambo do lixo, sem braço, porém cheio de armas. "Quando tudo é perigoso, a água, o ar, o chão, a única emoção que sobra é o medo e cada personagem nessa peça desenvolveu e se agarra às suas defesas", comenta Rusche. O nome do personagem faz referência ao verbo checar, sua obsessão. Ele checa graus de radiotividade de alimentos, da água, do ar e checa à exaustão o estado de saúde, ou melhor, o grau de deterioração, de cada novo ser humano que encontra.
O interessante na construção desse personagem é que até mesmo sua linguagem é feita de fragmentos. Ele mistura termos de várias línguas com outras supostas palavras para nomear objetos, sem, contudo, deixar de ser compreensível para o público. Clareza mantida na tradução de Rubens Rusche. "Checker é clean", insiste em dizer o personagem que não sabe mais dizer "eu", algo que vai aprender ao longo de seu processo de transformação. Degradações - Checker possuiu o mapa para Xantei e parte com Utai na busca do suposto paraíso. No caminho, encontram Cuco (Antônio Petrin), que Checker imeditamente identifica como "um homem do século 20".
Meio louco, Cuco parece ter vivido a época anterior à catástrofe. Lembra-se vagamente de ter trabalhado como guia turístico, amado uma mulher chamada Ana, lembra-se de pássaros e árvores, mas não tem certeza se tudo não passa de ilusão. Incorpora- se ao grupo e, mais tarde, o trio vai encontrar Biuti (Adriana Pires).
Biuti tem metade do rosto queimado por uma espécie de ácido, mas a outra metade mostra ter sido uma mulher bonita. Ela foi expulsa da área habitável por ter desobedecido a um dos dez mandamentos: encarregada de queimar os "livros antigos", ela os lia antes de queimá-los. Pior, a leitura passou a fasciná-la e chegou mesmo a decorar trechos de poemas.
"Um dos méritos do texto é apontar a degradação da cultura como elemento fundamental na degradação do ambiente", observa Rusche. Embora Biuti saiba poemas de cor, ela não consegue decifrar seu significado - falta-lhe contextualização, ambiência cultural. "A destruição cultural é uma realidade; a mídia abre espaço a cada semana para uma banda de sucesso de que no próximo ano ninguém mais ouve falar".
Segundo o diretor, entre os méritos da peça está o fato de mostrar, pela ausência, como nosso planeta ainda é bonito. "A peça desperta em nós a consciência de que a destruição pode ocorrer, caso persista a atual degradação cultural e, consequentemente, da natureza."
"Como todo bom autor contemporâneo, Mueller rompe com a estrutura clássica da narrativa, mas ao mesmo tempo mantém a estrutura das histórias de saltimbancos", comenta o diretor. Segundo ele, apesar do clima de destruição, o autor usa o tema da morte para falar de renascimento e tem um aspecto mítico. "No lugar do mito da origem, ele fala do mito da dissolução e eu não chegaria a dizer que é otimista, mas aposta na capacidade de transformação do indivíduo".

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