Imagem ilustrativa da imagem A barbárie de volta para o futuro
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“Um só ato de violência causa uma reação em cadeia, fazendo a sociedade retroceder à barbárie.”

Esta frase pode ser encarada como a síntese de “O Riso dos Ratos”, novo romance do escritor mato-grossense Joca Reiners Terron lançado pela editora Todavia.

A obra narra a conturbada história de um pai que, após a filha sofrer abuso sexual, luta na Justiça para que o criminoso seja punido. Diante da lentidão do judiciário, resolve fazer justiça com as próprias mãos.

Imerso em sua particular obsessão de vingança, se refugia em sua mente e se aliena do mundo à sua volta. Um mundo que inesperadamente entra em parafuso devido a uma misteriosa pandemia. Quando ele volta à superfície, o mundo não é mais o mesmo, retornou à violenta barbárie de um passado longínquo.

A narrativa de “O Riso dos Ratos” rebobina o futuro ao mesmo tempo em que rebobina o passado. O caos mental do protagonista se confunde com o caos do passado e o caos de uma projeção de futuro. O discernimento entre acontecimento e delírio, entre realidade e obsessão, assume a forma de um nevoeiro onde só o tempo presente torna-se o único alimento de sobrevivência.

Autor de romances como “Não Há Nada Lá” (2001), “Do Fundo do Poço se Vê a Lua” (2010), “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” (2013), “Noite Dentro da Noite” (2017) e “A Morte e o Meteoro” (2019), Joca Reiners Terron vem desenvolvendo uma literatura rizomática onde os caminhos da narrativa seguem de bifurcações sobre bifurcações para novas bifurcações em direção a um possível infinito sempre interrompido.

“O Riso dos Ratos” oferece vários ângulos e possibilidades de leituras. Pode ser encarado como a queda da civilização e a ascensão da barbárie nas sociedades atuais.

Ou a projeção da realidade quando o sistema judiciário não representa mais o conceito de justiça. Ou uma narrativa sobre a esperança impossível de um pai em proteger a própria filha dos males mundo.

Ou a viagem mental de um sujeito diante da incapacidade de vingança contra o mal que considera abraçar aquilo que considera mais querido. Ou a leitura mais palpável: o atormentado delírio de um pai diante da cruel percepção de que ele representa a barbárie e a própria filha, como esperança incomensurável, representa a civilização.

A seguir, Terron fala sobre seu novo romance.

Em “O Riso dos Ratos”, um belo dia o mundo sai do eixo após a população ser abatida por misteriosa febre. A pandemia da Covid-19 exerceu influência sobre a escrita do livro?

Não totalmente, pois comecei a trabalhar numa primeira versão do livro em 2012. A versão que prevaleceu foi escrita à mão em dois cadernos a partir de 2019. Depois, em 2020, transcrevi e reescrevi o livro, durante a pandemia, que não o influenciou diretamente, já que ele encena a ideia de um apocalipse íntimo, ocorrido com um homem tão obcecado por um problema a ponto de não perceber que o mundo desmoronou ao seu redor. A narrativa não se detém sobre a febre porque o protagonista não sabe muito sobre ela.

O romance representa um tempo presente onde a barbárie superou a civilização e venceu todas as disputas. Esse tempo é o mesmo do mundo que vivemos em 2021?

É curioso que os personagens se encontrem aprisionados pelo torvelinho do presente, uma imagem recorrente no livro, mas a história é toda narrada no pretérito. A extinção do futuro causa uma estagnação em nossa perspectiva: sem o futuro, só resta o passado como possibilidade. Assim, a memória ganha a força de um consolo. Nós precisamos trabalhar com novas perspectivas de futuro com urgência, mas não foi nesse livro que isso aconteceu.

Há uma frase que permeia o romance: “Um só ato de violência causa uma reação em cadeia, fazendo a sociedade retroceder à barbárie.” O que ela significa?

Significa isso mesmo o que a frase diz, que os atos de violência têm de ser condenados, que a justiça deve prevalecer. As tais instituições devem funcionar, senão corremos o risco de retrocedermos como sociedade a estágios dos quais dificilmente voltaremos a evoluir. A barbárie monopoliza os noticiários e as timelines, vivemos um momento insuportável, dominado pelo horror, pela tragédia sanitária e por atentados à democracia.

“O Riso dos Ratos” apresenta um país que retrocede ao ponto de retomar a prática de escravidão humana. Você enxerga o futuro do Brasil como um grande retrocesso civilizatório?

Sou um escritor de ficção, meus livros no máximo podem servir como alegorias da realidade e um alerta. Por ora, o Brasil, como os personagens do romance o encaram, um país sem nome e sem rumo, não passa de um gigante atolado na lama do presente, sem nenhum futuro. De eterna promessa, passamos a ser uma jura de morte para o mundo, um laboratório de criação de vírus a céu aberto. Como toda literatura que se preze, o livro é uma metáfora de nosso país e de nosso tempo.

Em “O Riso dos Ratos”, nem personagens nem leitores respiram momentos de paz. O caos e a tormenta ocupam toda a narrativa. Mas no final aparece luz em uma frase: “Não escolhi ser vítima, mas posso escolher não ser o carrasco.” Você acredita que há alguma esperança transformadora no atual mundo dos homens?

Sim, existe esperança, esperança infinita. Mas não para nós, os brasileiros.

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Serviço:

“O Riso dos Ratos”

Autor – Joca Reiners Terron

Editora – Todavia

Páginas – 208

Quanto – R$ 62,90 (papel) e R$ 39,90 (e-book)

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