Ele pegou 30 anos de cadeia. Em cela separada, Garibaldo, vivia tão só quanto um livro sobre o criado-mudo de um analfabeto. O único ser a freqüentar sua cela era uma barata que vez ou outra aparecia para remexer os restos de comida que sobravam. Passado um longo período, Garibaldo que fora preso por seqüestrar uma melancia e praticar atos obcenos com a mesma em banheiro público, começou a afeiçoar-se à baratinha, a quem apelidou de Anastácia.
  Ficaram íntimos, amigos de verdade. Garibaldo, que fez três anos de advocacia, ensinou à Anastácia, balé, aula de sapateado, bater palminhas, dar piroetas, fazer sim ou não com a cabeça, tudo. Digo, quase tudo. Só faltava Anastácia falar. Seu amor pela baratinha era tão forte que de duas em duas semanas ele envernizava as asas da pequena. Sonhava ficar rico e quando saísse da prisão levaria Anastácia a um programa televisivo e ambos seriam um sucesso. Tinha até um slogam:
  ’’Anastácia, a Barata que é um Barato’’.
  Por fim chegou o grande dia. Garibaldo tornou-se um homem livre. Frente à prisão, respirou fundo, olhou o céu, seus olhos estranharam o ardume do sol, mas tudo bem. A liberdade em fim chegara. Estava um calor de mais de trinta graus. Com uns troquinhos que lhe deram, separou alguns e seguiu em busca de uma loira gelada. Chegando lá, sentou-se, pediu uma estupidamente gelada e deu-se a conversar.
  Comentou sobre seu sofrimento mas, que não fôra em vão, pois tinha ele o segredo para o sucesso. Orgulhosamente, retirou de uma caixinha Anastácia e colocou-a sobre o balcão...
Ouviu-se apenas, um grito e uma chinelada.
SÉRGIO TADEU FURLAN é comediante em Arapongas e autor dos livros de contos de humor ‘‘A Vaca que Miava’’ e ‘‘Mamãe Heavy Metal’’

mockup