A Bahia, singular e plural, recupera sua música
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terça-feira, 07 de dezembro de 1999
Por Mauro Dias 
São Paulo, 07 (AE) - A equipe do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb) viajou 52 mil quilômetros, visitou mais de uma centena de vilas e povoados em 50 municípios baianos, no ano passado. Registrou, som e imagem, em 270 horas de gravação, 187 manifestações culturais.
Em agosto, a televisão educativa de lá começou a exibir o resultado, editado numa série de programas. E foram lançados os dois primeiros CDs do projeto "Bahia Singular e Plural". Outros quatro CDs virão. O logotipo do projeto é uma burrinha, desenhada por Carybé.
O dicionário Aurélio define burrinha: "Figura do bumba-meu-boi; armação de madeira, semelhante a uma alimária, que o brincante põe em volta da cintura, de modo que parece montado nela." Mas a burrinha, na Bahia, ao contrário de todos os outros Estados, não está presa ao bumba-meu-boi; aparece nas festas diversas do interior - sozinha, acompanhada de outros bichos de brincadeira, dançando ao som de pandeiros, sanfonas, instrumentos de sopro, violões - e puxando o cordão do povo.
Espontaneidade - O responsável pelos CDs é o músico e etnomusicólogo Fred Dantas. "Essas gravações partem do pressuposto de que existe um vasto mundo a ser revelado, no tempo em que uma cultura globalizada chega aos mais diversos rincões, com o efeito, já demonstrado, de silenciar as culturas nativas", constata ele. "É com essa terrível sensação de documentar mundos permanentemente ameaçados que procuramos direcionar as gravações, para que fossem as mais espontâneas possíveis", acrescenta. Assim, tudo foi gravado ao vivo, sem cortes, correções, acréscimos, supressões.
O som que se ouve nos discos é rústico, é belíssimo, é rico. Ternos de ciganas, burrinhas, reis de moças, negros fugidos, sambas rurais, reisados, congadas, danças guerreiras, marujadas. "Gente que se reúne em casas de fazenda, capelas e quintais, que partilha o trabalho comunitário ou as festas, profanas e religiosas, e também divide o anonimato de sua arte com parentes, amigos e vizinhos", diz o texto que apresenta o projeto. Aqueles anônimos são os astros do disco, com sua arte "singela e vigorosa, criativa e de uma alegria contagiante", como observa Paolo Marconi, diretor do Irdeb.
O título do projeto explica-se assim: singular, porque trata do individual; plural, porque respeita particularidades. O mais importante é que as raízes da cultura baiana estão ativas, vivas, e o conjunto de discos (e vídeos) permite o acesso à riqueza. Trabalha, ao revelá-las, por sua preservação.
O projeto gráfico dos discos é primoroso, com edição de arte de Enéas Guerra e Valéria Pergentino, textos de Fred Dantas
ilustrações de Enéas Guerra, fotos e partituras. Cada disco vem encartado num libreto de 44 páginas e traz mapa dos municípios onde foram registradas as respectivas manifestações folclóricas. O primeiro CD foi gravado em Santa Brígida, bem ao norte do Estado, na vizinhança de Alagoas, Italmar, Conceição do Coité, Serrinha, Irará, Santo Amaro, Caupe, Salvador, Mucugê, Caetité e Urandi, na fronteira de Minas. O segundo disco foi registrado em Santa Brígida, Serrinha, Barra do Pojuca, Camaçari, Parafuso, Maragojipe, Santo Amaro, Caupe, Andaraí, novamente em Caetité e Urandi.
Partituras - "Impossível seria apresentar as gravações sem um registro em partitura, sem o interesse que têm como documento e orientação para jovens músicos", escreve Fred Dantas, num texto também encartado no disco. Fixam-se, no entanto, apenas a linha melódica principal, o andamento e a tonalidade original, mas sem acompanhamento, variações, número de repetições dos temas.
Para que se tenha idéia da dimensão didática do disco-livro, é conveniente transcrever um texto qualquer de apresentação de faixa - por exemplo, a que abre o segundo volume da coleção, "Reis do Deus Menino, pelos Reis de Egídio", gravada na Associação Beneficente dos Garimpeiros de Andaraí: "Ao contrário de outras cidades da Chapada Diamantina ligadas ao Ciclo do Diamante - culturalmente fechadas em torno de si mesmas, a exemplo da vizinha Mucugê -, Andaraí é ligada culturalmente a Ruy Barbosa e Piritiba: terras de vaquejada, chula e piega, músicas feitas no mesmo estilo do Reis do Menino Jesus, com duplas de cantadores acompanhadas de viola, pandeiro e pequeno tambor. O reisado, em Andaraí, formado por homens com chapéus adornados com fitas, descrito por Spix e Martius, tem no Reis de Egídio um solitário representante."
Prossegue o texto: "A equipe (do projeto) identificou oito grupos de reis extintos na cidade, com destaque para o Reis de Maria Mabaça, cujos integrantes, todos negros, praticavam uma dança adrede ensaiada a que chamavam bater no baú, onde a muié sambatiava, depois voava em você e aparava nos peito, segurava no cangote e batia as viria. O Reis de Egídio Martins de Souza dá continuidade ao trabalho do veterano João Gameleira que, em 1937, herdou a tradição de seu pai, o Gameleiro Véi." Seguem-se os nomes do cantores e músicos (quase todos com mais de 70 anos), a letra da música e a partitura.
Histórias - Como se vê, a coleção não é apenas o registro de uma expressão, mas sua história - a história da Trezena de Santo Antônio, de Barra do Pojuca, Camaçari, do Mineiro Pau, de Santa Brígida, da Banda Cabaçal Choque de Luz, de Boanerges Chaves, do Reis do Alto do Cristo, da Burrinha de Valentim, do Bumba-meu-boi de Parafuso, do Reis dos Cablocos, de Miguelzinho Repentista, de Serrinha, do Reisado do Guará, com seus Reis de Porta, Samba de Porta, Chegada do Guará, Samba do Guará.
E também do Grupo da Lavagem de São Bartolomeu, do Reis de São José, do Terno de Ciganas de Caetité, do Reis Estrela da Guia de Urandi, de Armandinho Sanfoneiro, do Lindro Amor - um peditório que se faz, em Irará, pelas festas de Nossa Senhora da Purificação, de São Cosme e São Damião -, do Nego Fugido de Acupe, do Rei de Moças de Conceição do Caité, de Zé Santana e seu Tamborete Furado, da Orquestra de Berimbaus do Terreiro Ilé Axé Apó Afonjá, de Valdemar Valdivino, do Grupo do Macutum Zê Zê
de Mucugê, do Grupo da Lavagem de Nossa Senhora da Purificação, de Antônio Queiróz, do Reis Istrela Incantada, do Samba Brasileiro de Cassimiro. Do Brasil de fato, cara que não aparece no retrato oficial. O telefone do Irdeb é (071) 339-1111.


