Se você tentou, mas nunca conseguiu vencer as primeiras páginas de ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’, é hora de renovar o fôlego outra vez. Os sete livros originais que compõem a monumental obra de Marcel Proust (1871-1922) estão de volta às estantes, desta vez reunidos numa caixa de luxo com três volumes. A tradução é de Fernando Py e o lançamento da Ediouro.
O romance, como todo clássico, parece atravessar os séculos lembrado menos pela leitura prazerosa que proporcionou do que pela avalanche de citações que inspirou. Poucos se atrevem a mergulhar na prosa vertiginosa do autor, cuja passagem pelos 80 anos de morte será celebrada em novembro próximo. Sobretudo pela extensão caudalosa, a mais complexa narrativa em língua francesa virou artigo impenetrável, inclusive para leitores insaciáveis.
‘‘Não li, achei que era muito tempo perdido’’ – brinca Estélio Feldman, jornalista da Folha de Londrina e um dos mais ilustres devoradores de livros da cidade. A resistência à leitura, vale ressaltar, é anterior à própria publicação da obra. Consta que nem o célebre escritor André Gide deixou de torcer o nariz para seus manuscritos.
‘‘Talvez eu seja tapado, mas não posso compreender que um senhor precise de trinta páginas para escrever como se vira e revira na cama antes de pegar no sono’’ – resmungou Humblot, diretor das edições Ollemdorff, quando de sua recusa em editar o primeiro tomo em 1913. Na ocasião, Proust foi obrigado a pagar do próprio bolso a publicação de ‘‘No Caminho de Swann’’, dedicado à reconstituição da infância e adolescência do narrador-protagonista.
O volume traz o capítulo ‘‘O Amor de Swann’’, considerado o único episódio verdadeiramente autônomo de ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’, o que o fez ganhar uma adaptação cinematográfica em 1984, dirigida pelo alemão Volker Schondorff. A trama gira em torno do amor desvairado do intelectual diletante Charles Swann pela coquete Odette de Crécy. Muitos já o destacaram como o melhor estudo sobre o ciúme em toda a história da literatura.
As páginas mais célebres do primeiro volume, no entanto, saltaram do capítulo inicial reunindo as recordações minuciosas das visitas do herói à tia Leonie, os jantares festivos dos Verdurins, a aflição noturna à espera do beijo de despedida da mãe e especialmente a degustação da madeleine (biscoito em forma de concha) molhada no chá.
‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’ já foi definido como um exercício magnífico de memória, no qual uma lembrança puxaria outra. Ambientada na Belle Époque, a obra tornou-se canônica também pela escrita, um estilo que levou o escritor John Updike a afirmar numa entrevista que ‘‘ninguém escreveu em inglês tão bem quanto Proust em francês’’.
Além de ‘‘No Caminho de Swann’’, ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’ reúne os volumes ‘‘À Sombra das Moças em FLor’’, ‘‘Sodoma e Gomorra’’, ‘‘A Prisioneira’’, ‘‘A Fugitiva’’, ‘‘O Caminho de Guermantes’’ e ‘‘O Tempo Recuperado’’. Em vida, Proust só pode acompanhar até a publicação do quinto tomo.
Recluso, doente e sofrendo crises agudas de asma, morreu em 1922 com apenas 51 anos. A primeira tradução de Fernando Py foi lançada em 1995. Volta agora revisada.
Serviço: ‘‘Em Busca do Tempo Perdido’’. Caixa de luxo em três tomos reunindo os sete volumes da obra. 2.444 Páginas. Autor: Marcel Proust. Tradução: Fernando Py. Editora Ediouro. Preço: R$ 149,00.

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