A avareza, segundo Dorfman
A avareza, segundo Dorfman
Escritor faz os ricos mais poderosos do que já sãoIncumbido de escrever sobre o pecado da avareza, Ariel Dorfman faz penitência do mundo em Terapia (Editora Objetiva, R$ 19 reais), sexto volume da coleção Plenos Pecados. Nenhuma surpresa, na verdade. Basta dar uma olhada nas obras precedentes do autor, em especial seu maior sucesso, que data da década de 70, Como Ler o Pato Donald, um libelo contra o imperialismo americano, algo bem ao gosto das esquerdas da época. Não é, portanto, à toa que Dorfman escolheu, dentre os pecados capitais, aquele de relação mais próxima com o dinheiro. Somente a avareza lhe daria poder para fazer um retrato do empresário globalizado.
Terapia conta a história de Graham Blake, um rico empresário que tem tudo para ser feliz. Blake, porém, está passando por um momento de crise, e se submete a um tratamento misterioso em uma clínica comandada pelo Dr. Tolgate, cuja ambição é ter seu nome junto à nova síndrome que diz ter descoberto. A Síndrome de Tolgate afeta apenas homens ricos e poderosos. Seu tratamento consiste basicamente em fazê-los mais poderosos do que já são, a tal ponto de poderem controlar qualquer ação da vida alheia. Segundo o Dr. Tolgate, só a ausência de limites pode mostrar ao empresário sua condição humana e, em última análise, sua inerente bondade. É assim que Graham Blake, enclausurado na clínica, começa seu tratamento. Ele é o senhor de uma família que trabalha para uma de suas empresas. No centro desta família está Roxanna, por quem invariavelmente Blake se apaixona.
Sim, a história é extremamente parecida com o filme Truman Show: o Show da Vida, estrelado por Jim Carrey. Sim, também é muito parecido com Vidas em Jogo, com Michael Douglas e Sean Penn. Nada original, portanto, nesta terapia de Dorfman para entreter o leitor.
Apesar da falta de originalidade, é inegável o talento de Dorfman em manter o leitor atento à trama. Sua linguagem é fácil e flui como um filme caseiro, que se vê mais por obstinação involuntária de se chegar ao final. Como aqueles mistérios insolúveis de Agatha Christie, tomadas as devidas proporções.
Graham Blake possui algumas peculiaridades dignas de citação. Ele é o dono de uma empresa especial, a Terra Limpa S.A., que fabrica uma série de produtos que visam somente o bem-estar da população mundial e que está vivendo uma grave crise financeira devido à falência das bolsas asiáticas. Os dramas de Blake são despedir ou não seus empregados, mudar a fábrica para o México ou para a Tailândia ou mantê-la nos Estados Unidos, equacionar sua vida emocional de acordo com as ações da empresa e finalmente encontrar uma explicação ética para seu desejo insaciável por lucro.
Vale notar, ainda, o uso de excertos da Divina Comédia, de Dante, como epígrafes, o que só se explica como exercício de pedantismo. Não contente em explorar um só pecado, Dorfman tenta aglutiná-los todos em torno da avareza, que, certamente, considera o mais importante. Há algo de rancoroso e mal-educado em se dividir o livro em sete capítulos que correspondem, obviamente, aos setes pecados capitais. Como se Dorfman duvidasse da capacidade de seus colegas escritores em abordar os temas que lhes foram propostos.
Ariel Dorfman, ao construir um personagem tão real e tão cheio de representações consolidadas como lugar-comum do capitalista avarento, perdeu a oportunidade de explorar um tema constante na sociedade moderna, que é o apego ao dinheiro de forma extremada. Escreveu, em Terapia, um panfleto mal disfarçado de suas idéias antigas, antiimperialistas. Os empresários de sua imaginação fumam charuto acesos com nota de cem dólares.
Nada seria mais óbvio num livro óbvio.





