A aurora de vidas e formosuras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de maio de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
Albari RosaCena de A Aurora de Minha VidaO palco do Guairinha está há duas semanas com um cenário sem muitas invenções: uma sala de aula cujas cores - para olhos mais observadores - reproduzem as quatro da bandeira nacional. Hoje, um bando de escolares vai ocupar esse espaço e, durante um mês, todas as noites, eles estarão vivendo suas aventuras, trazendo à tona os primeiros preconceitos, tendo contato com o rosto da morte, descobrindo a saudade.
Num apanhado geral são estes os sentimentos mais marcantes de A Aurora da Minha Vida, a peça que ficará em cartaz por quatro semanas no Guairinha. Escrita por Naum Alves de Souza, ela já nasceu como um clássico do teatro brasileiro. Transformou-se em espetáculo oficial dos grupos amadores e nos seus 16 anos de existência teve duas montagens de peso: uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro.
As expectativas voltam-se agora para esta produção, muito especialmente porque a montagem traz a assinatura de Gabriel Villela, um dos profissionais mais respeitados da atualidade. Ele selecionou nove atores numa audição concorrida como há tempos não se via em Curitiba. Mantendo a tradição de inserir música nos espetáculos que dirige, buscou nos hinos escolares as ilustrações dos tempos da infância.
Carregado de paixões múltiplas - pelo Brasil, pelo seu povo e pelo teatro -, tem uma admiração muito particular pela bandeira nacional. Acho muito bonita, muito formosa, disse para a Folha 2, enquanto admirava a bandeira transparente colocada no fundo do palco. Espécie de mãe que em todas as noites estará a mirar seus filhos.
Os próximos projetos de Villela incluem Um Bonde Chamado Desejo, que terá Vera Fischer no papel de Blanche Dubois; e como diretor artístico do Teatro Glória (assume o posto dentro de alguns meses) fará os Autos Sacramentais, uma compilação de textos de Calderón de la Barca. Daí quero tirar umas férias, descansar um pouco, curtir as coisas, diz, antecipando um descanso que virá depois de oito anos de trabalho sem cessar.
Albari RosaGabriel Villela: ... essa é a única coisa que quero - emocionar a platéia, deixar o ator feliz por estar tocando nas emoções das pessoas
Que contornos você deu para a sua A Aurora da Minha Vida?
Gabriel Villela - Quando você fala em contornos, a primeira imagem que me vem é de um Brasil, uma alegoria enorme sobre as questões básicas que o Naum coloca na peça, que são tratadas em sala de aula desde a infância, no padrão de ensino ainda antigo, mas do qual todos nós fomos educados. Somos frutos desta educação.
Quer dizer que a peça vem a ser uma alegoria?
Gabriel Villela - É uma alegoria. O espetáculo acabou adquirindo contornos alegóricos sobre o ufanismo exagerado, mal trabalhado na cabeça dos estudantes, a eterna relação tirana de amor e ódio do professor com o aluno, a relação entre os alunos que Naum trabalha com maestria. Ele mistura tudo como cartas de baralho. Tem hora que o foco cai sobre a relação dos alunos entre si, e é tão bonito porque ele individualiza as pessoas.
Você sempre fala do texto de Naum Alves de Souza e da montagem que assistiu no Rio, com a Marieta Severo. Como está a sua Aurora?
Gabriel Villela - Ela está num jogo de emoção que transita pelo cômico, pelas questões mais dramáticas, como a morte do Quieto. É um instante de muita poesia, muita delicadeza, mas as crianças perdem um amigo. A morte dele é um grande contraponto para tudo isso; quando o Bobo vai internado também é um grande contraponto. Mas de resto é a farra. A farra, a relação atormentada, atribulada, conflituosa com a indisposição de uns com os professores, a devoção de outros com outros professores.
O que há de mais marcante neste trabalho?
Gabriel Villela - Para mim o que sinto de mais emocionante é ver que os atores parecem que foram feitos para aqueles personagens. Eu, particularmente, estou vendo que aqui tem muita gente boa, talentosa que está no começo da carreira, e que entra num trabalho assim querendo crescer, estudar, entender a mecânica de um diretor que não faz parte da vida deles. Não houve indisposição nenhuma, muito pelo contrário. Existe um fascínio, uma paixão, uma permuta mesmo porque na verdade eu também estou completamente mudado por eles.
O elenco comentou a afetividade que existe entre vocês, devido a sua forma de se relacionar com as pessoas. Para um trabalho render primeiro ele passa pela emoção?
Gabriel Villela - O teatro que eu faço, até pela própria influência do circo-teatro, tem esse poder de emoção. Pode-se gostar ou não gostar daquilo que criei, mas duvido que não emocione. Aliás essa é a única coisa que quero: emocionar a platéia, deixar o ator feliz por estar tocando nas emoções das pessoas.
Naturalmente esta versão da Aurora tem a sua marca. Que marca seria essa? Você assistindo à montagem o que veria como sendo unicamente seu?
Gabriel Vilella - Nada. Não sei quem eu sou direito. Só sei que tem uma coisa de brasilidade que habitualmente se diz impressa nos meus trabalhos. Talvez a Aurora seja meu espetáculo mais despudoradamente brasileiro. Essa coisa de você lidar com símbolos, com os ícones da nossa cultura, com as cores, com a cromaticidade brasileira - verde, amarelo, azul e branco - isso tudo está muito presente. Ele está com dado de humor, dado crítico, de ironia, de respeito. Então fico muito à vontade quando consigo chegar a um resultado onde, em última instância, em última análise estou falando do meu país, com os aparelhos e as instrumentações minhas que são interioranas, referências minhas que são brasileiras.
Nosso país é plástico?
Gabriel Villela - Ah, o nosso país é de uma fotogenia incrível. Aliás, na primeira cena essa plasticidade está trabalhada por causa de sua fotogenia. Esta exuberância, esta profusão e esta abundância que existe na natureza isso repassa para a gente. Não temos vocação para ser deprimido, um país tropical não nasceu para ser um país deprimido. Não merece um Fernando Collor de Mello. Merece outras coisas.
A bandeira brasileira representa essa exuberância?
Gabriel Villela - Acho a nossa bandeira lindíssima. Tanto é que ela é o elemento mais presente nesse espetáculo. Está do começo ao fim. Mais do que um elemento cênico, ela é um espelho de refração, de absorção. Ela é o nosso país. Não falo num nacionalismo napoleônico, militarizado, mas com orgulho. Tenho muito orgulho de ser brasileiro e a nossa bandeira acho muito bonita, muito formosa.
Nossa alma tem retângulo, losango?


