Se a mito judaico-cristão que narra o nascimento do homem pelas mãos de Deus fosse recontado sob a ótica do novo romance de José Saramago, algumas alterações seriam inevitáveis. No trabalho da criação de Adão, em vez de barro, o Criador utilizaria material plástico. Em vez do sopro divino nas narinas, utilizaria um compressor de ar. Não expulsaria Adão e Eva do Paraíso, mas de um Shopping Center.
Após receber Nobel de Literatura de 1998, o escritor português afirmava que apesar de todos os louros, o prêmio tinha seus inconvenientes. Cumprindo uma interminável maratona de palestras, entrevistas, cerimônias e homenagens, ele não tinha mais tempo para escrever.
Passada a tempestade do Nobel, começou colocar em prática o projeto de seu novo livro, ‘‘A Caverna’’, que acaba de ser lançado simultaneamente no Brasil e em Portugal. A obra é uma prova substancial de que a fama conquistada com o Nobel não alterou em nada a literatura de José Saramago. O romance é uma verdadeira pedrada na testa do mundo contemporâneo que passou a confundir a imagem da realidade com a realidade propriamente dita.
Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, a obra narra a história de Cipriano Algor, um oleiro viúvo de 64 anos que se dedica à fabricação artesanal de peças de louça. Aprendeu o ofício de seu pai, que aprendeu com seu avô, mantendo assim a tradição. Residindo num pequeno povoado próximo de uma grande cidade, vende toda sua produção para um gigantesco shopping center.
Homem simples e humilde, Cipriano realiza semanalmente suas entregas. Seu drama tem início quando numa dessas entregas, recebe o comunicado de que o shopping não comprará mais sua produção de louças. O motivo é simples: novos objetos de plásticos chegaram ao mercado e os consumidores estão preferindo esses produtos, mais resistentes e baratos.
Cipriano, após dedicar toda sua vida à fabricação de peças de barro, vê, de um dia para o outro, seu ofício torna-se obsoleto, seu trabalho desprezado. Com a ajuda da filha e do genro, começa a procurar uma saída para a nova conjuntura, mas, a cada tentativa, as esperanças vão sendo afogadas em impossibilidades.
Em ‘‘A Caverna’’ José Saramago coloca em prática uma das características marcantes de sua literatura, a conversão da fábula e da parábola em narrativa romanceada. O livro encerra o que o escritor chama de ‘‘trilogia involuntária’’ composta por outras perturbadoras obras, ‘‘Ensaio Sobre a Cegueira’’ (Companhia das Letras, 1995) e ‘‘Todos os Nomes’’ (Companhia das Letras, 1997). O âmago da trilogia, pode ser descrito, utilizando a próprias palavras do autor, como ‘‘a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam’’.
A visão de Saramago é claramente ideológica: mostrar às pessoas, ao leitor, coisas que estão passando desapercebidas do homem atual, aquele homem enlouquecido pela velocidade do poder, pelo sede de resultados imediatos, pela exclusão social, pela aparente comodidade de uma nova cultura, etc. Princípios que já estão gravados no homem comum sem que tenha consciência da dimensão da realidade dos fatos.
A essência de ‘‘A Caverna’’ está presente no próprio título, uma alusão direta à imagem da caverna do filósofo grego Platão (428 - 348 a.C.) O mito da caverna foi criado por Platão para exemplificar alegoricamente seus princípios filosóficos sobre o conhecimento. Em ‘‘República’’ (Livro VII) apresenta a imagem de uma caverna isolada do mundo externo por um muro. Uma pequena fresta permite que a luz entre.
No interior da caverna, desde o nascimento, geração após geração, reside um povo acorrentado, com cabeça voltada para a parede do fundo. Desprovido da possibilidade de conhecer a luz do sol, o mundo exterior. Pela fresta da entrada, filetes de claridade chegam ao interior projetando sombras de pessoas e objetos, que trafegam no mundo exterior, nas paredes. A população julga que as sombras que vêem projetadas são as próprias coisas externas.
Certo dia, um dos prisioneiros da caverna consegue fugir e, saindo do lugar fica praticamente cego pelo excesso de luz. Lentamente consegue perceber que as sombras não eram as pessoas e as coisas, eram apenas imagens, projeções da realidade. Extasiado, volta para ao interior da caverna para avisar seu povo de sua descoberta. O fato é que ninguém acredita em suas palavras.
‘‘A Caverna’’ não faz uso de forma completa do mito, apenas alegórica. O personagem Cipriano Algor, vivendo fora de um grande centro comercial, é o primeiro a perceber que as pessoas desse centro passaram a viver em função das imagens da realidade, grande parte profundamente distantes da própria realidade.
Mas, atordoado por essa consciência, ao contrário de Platão, Cipriano não procura alertar o povo que vive na caverna/centro comercial. Sabe que ninguém lhe dará ouvidos. Sua opção é abandonar tudo, sair pelo mundo na procura de alguma coisa que não sabe exatamente o que é. O papel de alertar os habitantes do mundo das sombras é conferido ao narrador de ‘‘A Caverna’’ e, claro, ao próprio José Saramago.
O ‘‘shopping/centro comercial’’ do romance é uma clara extensão de ‘‘O Castelo’’ de Franz Kafka (1883 - 1924). E por incrível que pareça, o personagem que, pela sua sutileza, torna-se revelador na história não é um ser humano, mas um animal. Um cachorro perdido que aparece na casa de Cipriano. Adotado pela família, recebe o nome de Achado. Aquele que vem dizer, sem palavras, que é necessário fugir do passado e ter medo do futuro.
Aos 78 anos de idade, José Saramago é um dos grandes escritores em atividade que mantêm um coerente trabalho estilístico. Mesmo fazendo uso de uma postura ideológica, coloca a literatura em primeiro lugar. Sua narrativa repleta de diálogos internos e o peculiar uso da vírgula, faz com que seu texto tenha um precioso sabor. Um artesão capaz de colocar forma e conteúdo equilibrados na balança.
‘‘A Caverna’’ de José Saramago, Editora Companhia das Letras, 352 páginas, R$ 31,00.

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