A artista Anna Bella Geiger expõe em SP
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de novembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 11 (AE) - A cartografia de Anna Bella Geiger pretende ser tão exata como o mapa-múndi depois do conflito dos Bálcãs. Em outras palavras, é uma cartografia deliberadamente inexata, porque só a derrubada de muros e fronteiras não garantiu ao homem um mundo livre do chauvinismo cultural e ideológico. A geografia de Anna Bella Geiger deveria ser a da consciência, mas os mapas mostram que o mundo não se expandiu. Ficou cada dia mais estreito e, dentro dessa estreiteza, uniformizado, aborrecidamente uniformizado. Há mais de duas décadas a artista carioca trabalha com mapas, que agora voltam a ser vistos em São Paulo, na Galeria Valu Oria.
Na Bienal de 1981, a artista mostrou mapas brasileiros que criavam uma relação gestáltica de ausência entre as formas. O público não reconhecia o mapa do Brasil nos trabalhos instalados nas sala, mas, inutilmente, tentava reconhecer territórios na lona colocada sobre a mesa - e eram apenas manchas registradas nessa lona. Alguns mapas camuflados estão na exposição da pintora em São Paulo, mas as questões que os novos trabalhos suscitam são de outra ordem.
Nos anos 70, Anna Bella Geiger queria discutir a hegemonia cultural. "Como a essência cartográfica é ideológica, comecei a estudar cartografia exaustivamente", conta. Anos depois, concluiu que, acima de tudo, não estava trabalhando com mapas, mas com paisagens. Isso modifica tudo. Ela descobriu que enquadrava o mundo como Vermeer. O pintor holandês via o mundo da janela de seu ateliê e esta definia não um ponto de vista, mas uma visão ideológica.
O diretor de um importante museu holandês, o Stedelijk, achou que as construções da pintora brasileira lembravam as de Vermeer e as divisões e subdivisões das telas de Anna Geiger passaram mesmo a enquadrar fragmentos das telas de holandês, como o tapete do estúdio do pintor no quadro pertencente à coleção do Rijksmusem de Amsterdã. "Nos anos 90 comecei a pensar exatamente nas divisões, nas partes que nunca se unem, mas não me interessava a questão da harmonia ou do equilíbrio de uma abstração já academizada", diz, justificando a presença na exposição de globos recortados e continentes dramaticamene separados pela história. Citações - Tanto as citações de Vermeer como as de Mondrian ou Tintoretto não são paródicas, garante a pintora. Ela, que teve uma iniciação realista nos anos 50, brinca que poderia ter sido uma boa falsificadora de Holbein (passou anos estudando e pintando réplicas do pintor alemão), mas abandonou a pintura durante 20 anos. Hoje, essa retomada com citações da história da arte não pretende mesmo ser anedótica, segundo a artista.
"De modo involuntário, fiz um trabalho paródico e alegórico nos anos 70, porque a situação política do País determinava esse comportamento", assume. Hoje, o que ela tem a dizer não depende mais de uma bula conceitual. Tenta uma síntese iconográfica, recorrendo eventualmente ao alfabeto hebraico quando a sintaxe pictórica é insuficiente. Como diz, essa cartografia é feita de aporias. "Cada parte do trabalho tem a ver com a verdade e aponta o trabalho ao lado como conclusão", observa. "Talvez eu explique demais", diz. "Mas é porque dou aulas há anos", conclui.


