A arte também é transgênica
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de março de 2002
Agência Estado 
O Critical Art Ensemble, grupo de artistas de várias especialidades, prepara uma exposição de estranhas obras de arte, inspiradas em experiências transgênicas. Imagine o que de mais inovador a mente humana poderia trazer para o mundo das artes? Prepare-se para o susto, pois a resposta é o... transgênico, ou seja, o resultado do cruzamento de genes de dois organismos vivos.
É o caso de Alba, uma jovem coelha que pertence ao premiadíssimo artista plástico brasileiro Eduardo Kac, criador da holopoesia, hoje professor de Arte Eletrônica, em Chicago. Alba, produto de uma experiência de geneticistas franceses, carrega o genes de uma água-viva do Oceano Pacífico. Sob a luz de raios ultravioletas o animalzinho fica fluorescente. É a partir de estranhos modelos como Alba, que o Critical Art Ensemble, um grupo norte-americano de artistas da computação, fotografia, cinema e escultura, que se dedica a explorar a ligação entre arte e tecnologia, prepara a Gene(sis) - A Arte Contemporânea Explora o Genoma Humano, exposição que será inaugurada no próximo dia 5 de abril, para uma seleta platéia, na Universidade de Washington. No dia seguinte, a Gene(sis) estará na Henry Art Gallery e será aberta ao público.
O Critical Art, que provoca polêmica desde que começou a pregar o seu Culto a uma Nova Eva (que objetiva banir da cultura ocidental o mito bíblico da Criação), promete uma surpresa. O grupo pretende fornecer meios para qualquer um levar para casa, numa garrafa, como lembrança, transgênicos sintetizados que têm produzido algumas espetaculares experiências , a exemplo da bactéria e.coli, presente na flora intestinal.
Só que há um porém: a inusitada vernissage precisa obter o aval do NIH - Instituto Nacional de Saúde norte-americano, que vê a iniciativa como muito perigosa, em especial se a e.coli, responsável por doenças do aparelho urinário, cair nas mãos do público. A probabilidade de a bactéria provocar danos a alguém é mínima. Ela geralmente morre quando exposta ao ar. Mas nunca se sabe o que irá de fato ocorrer, e, por essa razão, o NIH ainda não se pronunciou a respeito, explica o dr. Michael Antee, supervisor do Comitê de Saúde da Universidade de Washington.
Steven Kurtz, um dos fundadores do Critical Art, confessa que está frustrado com a campanha que vem sendo feita para proteger o público de uma bactéria, a seu ver, inofensiva. Mas entende a posição dos cientistas, uma vez que, ano passado, a ELF (Frente de Libertação da Terra), uma ONG que luta pela preservação ambiental, incendiou um laboratório agrícola, em protesto às experiências transgênicas com o álamo, árvore ornamental muito popular nos Estados Unidos.
Mas o tempo voa e Robin Held, curador da Gene(sis), mostra-se aflito. Ele diz que os cientistas estão pisando em ovos porque muitas pessoas ainda acham que os termos inofensivo e transgênico não combinam. Se o NIH não aprovar a exposição, seremos ridicularizados, lamenta-se Held.
Os protestos de Held para que o NIH apresse sua decisão tem sido inútil. O dr. Maynard Olson, diretor do Instituto, estuda detalhadamente todas as consequências danosas que a Gene(sis) pode gerar. Olson lembra que é muito difícil mudar idéias tradicionais de segurança quando se trata de uma tecnologia nova. Só depois de muito tempo, passamos a acreditar que as redes elétricas são seguras, o que não ocorre, no momento, com cruzamentos do DNA, ele esclarece.
Sem dar muita bola para a controvérsia sobre o souvenir transgênico, os artistas que irão participar da mostra, com fotos, esculturas, vídeos e filmes, que associam a arte ao genoma humano, continuam a exercitar sua criatividade.
Além de Eduardo Kac, o dono do coelhinho fluorescente, que vai mostrar sua biotelemática - a vida integrada ao mundo digital -, a Gene(sis) terá o brilho de Daniel Lee, um chinês que vive em Nova York. Ele levará para a Henry Art Gallery uma série de fotos que revelam, com base na revolução genética e sob influencia da mitologia budista, segundo a qual espíritos de animais encarnam em seres humanos, como será o seu povo no futuro: homens e mulheres com rostos dos animais que compõem o zodíaco chinês.
Certamente, a fotógrafa Catherine Wagner chocará os espectadores com sua viagem pelos laboratórios do projeto Genoma. Uma de suas fotos mostra tubos de ensaio e caixetas contendo tecidos humanos que abrigam genes da aids, mal de Alzheimer, e de cânceres do cólon e da mama.
A preocupação da artista holandesa Margi Geerlinks é a velhice. Seu sonho está reproduzido em fotos de mulheres (uma delas clone da outra), que procuram apagar os sinais da idade avançada. As personagens são membros de sua família que ela gostaria que fossem jovens de novo.
O programador visual Larry Miller apresentará suas licenças para clonagem. Uma delas permite que seja feito um clone de sua mulher, a partir de informações genéticas suas e de sua mãe. Em outra, mais espantosa ainda, vários artistas de fama internacional transferem seus genes para Miller. O processo é o seguinte: Miller faz uma foto do doador, colhe uma amostra de seus cabelos, dentes ou pedaços de unha, e pede que ele assine um documento, como prova da transação.
Roz Chast e seus companheiros do Creative Times, clube de arte popular, em Nova York, estará exibindo uma coleção de copos que tem o título de DNAid, com mensagens brincalhonas, relativas ao DNA.
Todos eles estão otimistas em relação sucesso da Gene(sis), graças ao respaldo do dr. Eric Lander, renomado geneticista do Whitehead Center, Centro de Pesquisa do Genoma, do MIT - Instituto Tecnológico de Massachussets. O significado final do genoma humano será determinado não somente pelos cientistas mas pelo que será revelado na arena da arte e da cultura, ele profetiza.


