A arte revolucionária de Reidy está em exposição e livro
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 22 (AE) - O arquiteto Affonso Eduardo Reidy foi um dos responsáveis pelo perfil urbano do Rio de Janeiro. Ele é autor dos projetos do Museu de Arte Moderna (MAM) carioca, do Aterro do Flamengo e do conjunto habitacional do Pedregulho, uma referência internacional da arquitetura e do urbanismo brasileiros, e agora tema de exposição no museu que projetou (mas não viu pronto) e de um livro resumindo suas obras e suas idéias. A mostra fica no Rio até meados de maio. Já o livro, organizado por Nabil Bonduki, faz parte da série Arquitetos Brasileiros, da Editora Blau, de Portugal, e do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi. O lançamento será amanhã (23), no Rio, no mesmo MAM.
Reidy foi um dos poucos profissionais brasileiros de sua área que conseguiram pôr em prática suas idéias e fazer seus projetos, por mais revolucionários que fossem. Desde 1929, quando ainda era estudante da Academia Nacional de Belas Artes, se tornou estagiário de Alfred Agache, o arquiteto francês que transformou o então Distrito Federal numa Paris tropical, até meados de 1964, quando morreu, poucos dias depois de visitar as obras do MAM. Reidy influiu na vida do Rio de Janeiro, traçando uma cidade que ele julgava ideal e que dava mais importância ao espaço público do que ao privado.
Fiel a suas idéias, projetou poucas obras particulares, embora fosse obrigado a fazê-lo como aluno de arquitetura, num tempo em que a função desse profissional era construir casas para a burguesia. "Ainda na faculdade, Reidy leu textos de Le Corbusier e viu que o ensino da academia não era o que queria para depois de graduado", conta Bonduki, que faz também a curadoria da exposição.
"Mas ele foi alertado pelos professores de que teria de fazer aquele tipo de arquitetura para se formar e seu trabalho de fim de curso, que está na mostra e no livro, é a casa de milionário idealizado, como se usava na época."
A virada que Reidy desejava ocorreu em 34, quando ele, recém-formado, foi projetar uma escola num subúrbio carioca e conheceu a engenheira Carmem Portinho, então chefe do Departamento de Obras da prefeitura. Os dois se apaixonaram e viveram juntos até a morte dele, estendendo a parceria à vida profissional. Ele projetava e ela administrava a obra. "A participação de Carmem foi fundamental para realizar o que ele idealizava", lembra Bonduki. "Além disso, ela era socialista e feminista e influenciou seu modo de pensar a cidade, a arquitetura e o urbanismo em função do social e liberando a mulher para as atividades profissionais."
Lúcio Costa - O projeto da sede do Ministério da Educação e Saúde (hoje Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio) foi outro momento importante da carreira, ainda nos anos 30. O trabalho vencedor no concurso estatal era acadêmico e o ministro Capanema, empenhado na renovação da arquitetura brasileira, convidou Lúcio Costa para criar novo projeto. Costa chamou os profissionais que haviam apresentado sugestões orientadas pela arquitetura moderna (além de Reidy, Oscar Niemeyer, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Carlos Leão) e chamou Le Corbusier como consultor. Foi uma revolução no centro da cidade e nos conceitos de repartição pública.
Só mais tarde, após a 2.ª Guerra, Reidy projetou sua obra-prima, o Conjunto Residencial Pedregulho, em São Cristóvão, próximo ao Morro do Tuiuti. "Aqui, ele conseguiu concretizar a idéia de que uma habitação nunca é um espaço unitário, mas comum a várias famílias", lembra Bonduki. "Reidy se preocupou não só com o espaço onde as pessoas iam morar, mas também com o local em que viveriam, a escola para as crianças, o comércio local e áreas de lazer, que até então nunca haviam constado de nenhum projeto arquitetônico."
A forma serpenteada no Pedregulho seria repetida no Conjunto Residencial da Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio, respeitando, mais um vez, a encosta. A obra de destaque seguinte seria o Museu de Arte Moderna e a urbanização do Aterro do Flamengo, já nos anos 60. O aterro existia desde os anos 30, quando o Morro de Santo Antônio, do centro, foi desmontado e a terra jogada na baía. Os projetos para a área eram os mais variados. Havia quem quisesse zona residencial, outros pensavam em edifícios ou encher a área de vias expressas, mas Reidy insistiu em transformá-la numa imensa área de lazer, depois arborizada por Burle Marx.
Projeto - Bonduki lembra que o projeto do Aterro era antigo, havia sido engavetado pela prefeitura e só foi adiante por insistência de Lota Macedo Soares, que assumiu a Secretaria de Obras e Urbanismo e o convenceu a retomar o trabalho. "Ela chegou mesmo a convidá-lo para um fim de semana em Petrópolis (região serrana do Estado) e, quando ele chegou lá, encontrou o projeto espalhado pela sala de Lota", conta Bonduki. "Ele deu um jeito de atendê-la, sem voltar a ser funcionário da prefeitura."
A herança de Reidy está nas obras que ele realizou e no próprio conceito que une arquitetura e urbanismo numa atividade só. "A funcionalidade e a preocupação social estão em toda a sua obra, no que ele conseguiu realizar e no que ficou no papel", comenta Bonduki. Entre esses últimos está a urbanização do centro da cidade, que previa residências e prédios altos, cercados por grandes áreas livres. "No segundo momento, ele junta a funcionalidade à questão da estética e o melhor exemplo dessa fase é o MAM, que se integra à paisagem da Baía de Guanabara, sem agredi-la nem escondê-la."


