A ARTE RESGATANDO A AUTO-ESTIMA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de maio de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Domingo é dia de visita para os internos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Dia de rever os filhos e demais familiares. Nesta semana, um grupo de detentos proporcionou uma atividade diferente para os visitantes foi apresentado o resultado de uma oficina de palhaços coordenada, durante cinco dias, pela companhia paulista Parlapatões, Patifes & Paspalhões. A oficina Palhaços na Penitenciária foi desenvolvida dentro da programação dos Projetos de Maio, do Festival Internacional de Londrina.
Aos poucos, os familiares foram chegando e se aconchegando pelos cantos do pátio. As crianças logo se agruparam em volta do local determinado para a apresentação. Atrás de um pequeno biombo, 12 internos se preparavam para mostrar ao público as novidades que aprenderam. Repartindo o pouco tempo que têm para matar a saudade dos filhos e esposas, eles invadiram o picadeiro improvisado com cara, roupa e pinta de palhaço.
Sob o comando de um capitão do exército, a performance dos detentos arrancou gargalhadas das crianças. Os adultos foram chegando, como quem não quer nada, para também assistir aos números de malabarismos, piruetas, cambalhotas e palhaçadas. Aqui estão os palhaços mais animados da PEL, anunciou o comandante. Ao finalizar a performance, o grupo acenou e agradeceu ao público. Essa é uma forma de a gente mostrar o que aprende dentro do sistema. Estamos presos, mas a nossa mente está aberta para aprender coisas boas, disse Valdecir Santana, o comandante.
Fim do espetáculo. Hora de voltar à rotina? Ainda não! O grupo estava ansioso pela segunda apresentação, para os visitantes que só chegariam mais tarde. Do alto do muro de segurança, os Parlapatões se despediram dos alunos. Eles, lá de baixo, acenavam e gritavam para Hugo, Raul e Alexandre, agradecendo a força no trabalho. A hora de ir embora é a mais triste, comentou Raul Barreto. Você se desprende do tempo e do espaço na medida em que está desenvolvendo a atividade. E quando volta ao mundo real... Isso faz parte. A realidade é assim, acrescentou Hugo Possolo.
Ao todo, 22 detentos se inscreveram e 12 foram selecionados para a oficina. O bom comportamento foi um dos requisitos básicos para a escolha.
No dia seguinte à apresentação (ontem), seis dos detentos puderam conversar com a imprensa, falar da experiência e das expectativas. Joel, Jonas, Fernando, César, Aparecido e Valdecir já não tinham as caras pintadas de palhaço, mas ainda guardavam toda a empolgação. Já não eram mais Mineirinho, Pelezinho e Quase Nada, os donos do picadeiro. Voltaram a batalhar seu espaço como internos comuns da PEL.
Contente e safisfeito com a oficina, o grupo sentiu-se compensado com trabalho. Estou feliz por ter participado deste projeto. Não sabia que eu tinha talento para tirar sorrisos de uma criança. Esperamos ter novas oportunidades com esta, se não for aqui, talvez na rua, comenta Joel Silva Ferreira, 41, que já cumpriu três dos 17 anos de pena.
Para Fernando Aparecido Silveira, 21, condenado a 11 anos e quatro meses de reclusão, a experiência mudou sua maneira de pensar e ver as coisas. É importante mostrar para as pessoas lá fora que aqui não tem somente coisas ruins. Temos os dois lados. E a gente pode escolher, acredita.
O detento Aparecido Cardoso, 46, condenado a oito anos e meio por tentativa de furto e assalto está prestes a ganhar a liberdade. Quando falaram desse curso de teatro, eu entrei e acabei aprendendo coisas diferentes. Eles mostraram que a gente pode participar e ter a chance de conviver de novo em sociedade.
Este grupo de detentos já desenvolvia atividades recreativas dentro da penitenciária. Valdecir Santana, 33, conta que é professor de teatro e capoeira, além de tocar violão, bateria e contrabaixo. Há cinco anos ele agiliza várias atividades com fantoches e música para divertir as crianças nos dias de visita.
Outro artista da PEL é o jovem César Alves Pereira, 20 anos que, há oito meses, é o palhaço Mineirinho da PEL. Ensaiamos coisas novas com os Parlapatões nesses quatro dias. Hoje tenho coragem de ir ao Calçadão e me apresentar para o público, afirma.
Prontos para dar continuidade ao projeto, os detentos dizem que ainda precisam conquistar algumas coisas e fazem solicitações à direção da PEL. Precisamos, por exemplo, de microfones, captador de som e novas roupas de palhaço, diz Valdecir. Também podemos receber doações.
Os detentos também gostariam que as regras penitenciárias fossem alteradas, no que diz respeito à remissão de pena. É que as atividades recreativas não contam pontos como as outras oficinas, consideradas canteiros de trabalho. Sou da oficina de artesanto e saio três vezes por semana para a recreação, mas não ganho ponto na remissão da pena.
As lições aprendidas na oficina dos Parlapatões foram muitas, na opinião dos detentos. Jonas Batista da Silva, 33, resume: Aprendi a ter um pouco mais de liberdade. Eles (Parlapatões) nos trouxeram incentivo e segurança para observarmos um futuro com mais confiança, como cidadãos normais.


