Curitiba - Em 1920, o artista alemão Otto Dix, então recém-saído de sua primeira experiência na guerra, decidiu mudar o estilo de suas obras. A mudança não aconteceu por acaso. Ele deixava para trás as cores do expressionismo para assumir os traços fortes e pictórios que o transformaram em um dos artistas mais importante do século 20. Dix definiu assim essa sua providencial passagem: ''Eu disse para mim mesmo: a vida nem é tão colorida assim; é muito mais sombria, mais tranquila nos tons, muito mais simples. Quis mostrar as coisas como elas realmente são''.
O caso é que ''as coisas'' reveladas pela ótica de Dix nos mostra uma realidade nua, muitas vezes pretensiosamente triste, mas curiosamente bela. Parte dessa ótica poderá ser vista a partir dessa quinta-feira, em Curitiba, na exposição ''Otto Dix - Gravura Crítica (1920-1924) e A Guerra - ciclo de águas-fortes''.
A exposição é organizada em parceria com o Instituto de Relações Culturais com o Exterior de Stuttgart, na Alemanha, o Instituto Goethe e a Secretaria de Estado da Cultura. São 86 obras que mostram o panorama que o artista vivenciou durante a Primeira Guerra Mundial, experiência que influenciou fortemente as suas obras.
Dix nasceu em 1891, filho de um fundidor de ferro. Sua inclinação para pintura apareceu cedo, influenciado por um primo pintor. Mas foi bem mais tarde que ele teve a primeira chance de estudar arte. Aos 18 anos ele ganhou uma bolsa que lhe rendeu quatro anos de estudos na Escola de Artes e Ofícios de Dresden. Cinco anos mais tarde, porém, Dix foi convocado para fazer parte da artilharia e teve que interromper bruscamente seus estudos e partir para a guerra. Mas mesmo em plena atividade no front, entre 1915 e 1917, ele fez cerca de 600 desenhos, que retratavam desde soldados mutilados até os confrontos em campos de batalha na Bélgica, França e Rússia.
Essa coletânea de desenhos, que consistiam em sua maioria em esboços e instantâneos de situações, foi organizada por Karl Nierendorf em 1924, em Berlim. A série, que apresenta esboços quase sempre desenhados nos modelos cubistas e futuristas recebeu o título ''A Guerra''. A outra coletânea da mostra,''Gravura Crítica 1920 - 1924'', também acompanha a influência do artista nos anos no campo de batalha, mas traz perspectivas diferentes, onde pode se notar a mudança nos peculiares traços de Dix.
Nessa segunda parte da exposição, ele retrata mulheres de operários, prostitutas, indigentes e toda a espécie de grupos marginais que se tornam a partir de então, tema dominante em sua obra. No belo catálogo da exposição (em alemão, mas que acompanha encarte com textos traduzidos), Eugen Keuerleber relata o comentário do próprio Dix a respeito da predileção pelos retratos de uma realidade à margem da sociedade.
''Pois é, disse Dix, há também prazer em torno do grotesco: como todas as coisas são dialéticas nesse mundo. Como as oposições surgem lado a lado. Aqui, o solene se aproxima do cômico. Não, para mim foi um prazer constatar que a vida é assim, que é isso que conta, que nem tudo é doce como o mel ou maravilhosamente belo. Quando necessário, pode-se ver as pessoas em formato grande e também em formato bem miúdo, até em forma de gado. Isso faz parte da completude das disposições do ser humano.''
Dix, que morreu em julho de 1969, construiu suas obras a partir dessa diletância. Desses paradoxos com toques irônicos que podem ser observados até setembro nas brancas paredes da Casa Andrade Muricy, por enquanto o único local capaz de abrigar uma exposição com essa proporção histórica. Pelo menos até que o Novo Museu, cujas obras estão a todo vapor no Centro Cívico, seja inaugurado em Curitiba.
Serviço:
Obras de Otto Dix, na Casa Andrade Muricy (Al. Dr. Muricy, 915, em Curitiba). Abertura nesta quinta-feira, às 19 horas. Até o dia 1º de setembro.

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