A arte que mora nas ruas de Nova Iorque ou Londrina

Artistas que desenvolvem projetos culturais destinados a pessoas em situação de rua abordam experiências vividas nos EUA e no Brasil

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

A pandemia agravou uma situação que já era bastante crítica: o aumento crescente no número de moradores de rua no Brasil. O problema que vem piorando a cada ano não é uma exclusividade nacional. De acordo com uma estimativa da ONU (Organização das Nações Unidas), atualmente existem mais de 800 milhões de sem-teto espalhados pelo mundo. Em alguns países, grupos de artistas têm se unido para levar teatro, música, dança, poesia e espetáculos circenses com o objetivo de alegrar, entreter e conscientizar desabrigados, que podem optar em participar das atividades na plateia ou no palco.  


Profissionais que desenvolvem projetos destinados a moradores de rua no Brasil, França, Estados Unidos e Argentina se reuniram para falar sobre suas experiências em um encontro virtual promovido na última quinta-feira pelo Ciclo – Circuito de Artes e Conceitos de Londrina. Representante da Comunity of Hope, o ator e diretor italiano Mario Biagini concedeu uma entrevista à FOLHA por e-mail na qual relatou algumas ações que foram desenvolvidas em Nova Iorque pelo Open Program (coletivo que reúne artistas do mundo inteiro) entre os anos 2014 e 2019. 




Ele comenta que nunca houve tantos nova-iorquinos sem-teto. Estima-se que na cidade que possui mais de 8,3 milhões de habitantes, cerca de 60.000 pessoas morem nas ruas. Biagini relata que o trabalho teatral com esse público teve início em 2014. "O Open Program trabalhou em Nova Iorque por muitos anos, especialmente no Bronx, onde interagimos criativamente com diferentes pessoas, grupos e comunidades. Criamos juntos eventos que resultaram em apresentações públicas, e o primeiro foi sobre encarceramento em massa nos EUA, que é um problema muito grande, especialmente para pessoas que não são brancas. Através de grupos de ativistas, igrejas e outras comunidades nós entramos em contato e colaboramos com tantas realidades americanas”, diz. 


O diretor comenta que a primeira constatação ao entrar em contato com os sem-teto foi de que os artistas envolvidos teriam que trabalhar com a mente aberta diante deles. “Pessoas que têm problemas de moradia muitas vezes têm que resolver muitos outros problemas e dúvidas, a cada hora, todos os dias. Por esses motivos não podíamos ter ensaios apenas em horários fixos, com um número fixo de pessoas. Todos os ensaios foram abertos a todos os que passaram por ali. Pessoas curiosas simplesmente entravam, muitas vezes, e depois voltavam", relata. 

Ações culturais no Open Program, em Nova Iorque
Ações culturais no Open Program, em Nova Iorque | Divulgação
 

Ex-pupilo do polonês Jerzy Grotowski , ícone do teatro experimental, e herdeiro de seu método, Biagini conta que descobriu uma maneira diferente de interagir com o que as pessoas do teatro chamam de público. “Muitos dos indivíduos que vieram não faziam parte do mundo “normal” do teatro, que é bastante pequeno e muitas vezes passivo. Eles eram, e são, pessoas com uma cultura real, isto é, com o conhecimento de como interagir com algo vivo. Aprendemos muito com eles e continuamos aprendendo - caso contrário, nos tornaríamos lindas “múmias culturais””, afirma.  


A experiência vivida fez com que o ator e diretor italiano revisse conceitos. “Estávamos todos os dias à disposição de todos que viessem: crianças, adolescentes, adultos, idosos. E cada uma dessas pessoas tinha muito a trazer - suas histórias e problemas, mas também seus talentos e dons, e o que chamo de competências culturais: a capacidade de reagir e se ajustar a outros seres humanos, ser capaz de articular seu comportamento em determinadas circunstâncias, que é o que os atores devem fazer”, ressalta. 


Apesar da potência cultural observada, Biagini afirma ser quase impossível mensurar os resultados dos trabalhos realizados até o ano passado. "Observei que haviam resultados muito concretos: uma performance incrível por um lado, mas também uma maneira de muitas pessoas encontrarem suas vozes, como dizemos no teatro, para descobrir seu valor aos olhos de toda uma comunidade, para sentir que eles poderiam tocar outros e, talvez, mudar algo no mundo ao seu redor”, conclui.  


 


A 'brisa' artística que sopra em Londrina  

Em Londrina, artistas trabalham no projeto Brisa com pessoas em situação de rua que querem trocar as drogas pela arte
Em Londrina, artistas trabalham no projeto Brisa com pessoas em situação de rua que querem trocar as drogas pela arte | Fábio Alcover/ Divulgação
 


Termo utilizado para se referir ao efeito produzido pela maconha, brisa foi o nome que escolhido pelos próprios moradores de rua de Londrina para batizar o projeto cultural destinado a eles. “Fizemos uma pesquisa e eles optaram por esse nome para demonstrar que estavam trocando os efeitos da droga pelos efeitos da arte”, resume o diretor de teatro Silvio Ribeiro, idealizador da iniciativa criada em 2018. 


O projeto Brisas promove saraus mensais em que são apresentados números de teatro, dança, poesia e circo. Desde o início do projeto já reunimos um público de aproximadamente duas mil pessoas nos saraus que são itinerantes. Já realizamos o evento na rodoviária, quando havia muitos moradores de rua lá, na Concha Acústica, praças e em outros locais da cidade”, esclarece. 


Ribeiro comenta que uma das grandes surpresas proporcionadas pelo Brisa foi a revelação de talentos escondidos na plateia. “Durante os saraus, tem um momento em que deixamos o microfone aberto para que todos que desejam possam se apresentar. É nessa hora que muitos deles acabam se entusiasmando e se apresentam cantando, tocando violão, recitando poesia ou até mesmo contando histórias e piadas”, lembra. 


Entre as atrações preferidas do público atendido pelo Brisa estão os números circenses. “Principalmente as apresentações de palhaçaria. Eles dão muitas risadas. É como se resgatassem a alegria de uma infância podada pela dureza que é viver nas ruas e não ter para onde voltar. Infelizmente, temos percebido que o desemprego e a miséria têm sido responsáveis pelo número cada vez maior de pessoas nessa situação não só em Londrina, mas no país inteiro”, diz 




Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), o Projeto Brisa está com inscrições abertas para artistas interessados em participar dos saraus que serão realizados em 2020.  As inscrições podem ser feitas na página do projeto no Facebook até o dia 27 de novembro.  

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