A história de Eunício Manuel da Silva é parecida com a de muitos nordestinos que são obrigados a migrar em busca de sobrevivência. A falta de trabalho em Palmares, Pernambuco, obrigou o rapaz a abandonar o sonho de ser jogador de futebol e fincar os pés na realidade. Fez as malas e foi para Recife trabalhar como pedreiro.
Ajudou a levantar muitos prédios. Ganhou o dinheiro suado, até que lhe negaram pagamento pelo seu trabalho. Eunício fez as malas novamente e resolveu vir para o Paraná. Como tinha parente em Londrina, decidiu tentar a sorte.
Já não era mais o Maurício Ceará, nome fictício de quando jogava em um time de segunda divisão em Palmares. Já não tinha identidade, não tinha os vários amigos. Era apenas mais um migrante que fazia bicos. Foi assim durante um ano. Quando ficou sabendo que estavam recrutando homens para erguer um prédio no Conjunto Parigot de Souza 3, a Usina do Conhecimento, correu até lá com sua carteira de trabalho.
Ajudou a construir o prédio e virou o Pernambuco, apelido que ganhou dos companheiros. De pedreiro passou a guarda noturno da Usina do Conhecimento. Do sonho de ser jogador de futebol restou apenas uma doce lembrança. Para não cochilar nas noites de vigília, começou a desenhar em caixa de papelão.
Para a artista plástica e jornalista Regina Menezes, a iniciativa do Pernambuco remete a todos os que estão insatisfeitos em sua rotina de trabalho, ‘‘paralisados em seu próprio estado de incômodo’’. ‘‘Aliás, esse é o árduo dilema do homem contemporâneo, que, de tão pressionado e exigido, acaba desintegrado de si e de suas imensas possibilidades de criação e realização’’, reflete a artista plástica. ‘‘Ponto para Eunício, que conseguiu transcender ao que poderia ser uma rotina estafante de vigia noturno. Aproveitou a vigília para criar’’, diz Regina.
Pernambuco soube como escapar desta rotina sufocante e, enquanto vigia, faz brinquedos de sucata. Segundo Regina Menezes é prematuro dizer se o que ele faz é arte, mas ficou impressionada com as soluções que ele encontra para seus trabalhos, com diversidade de material e com seu potencial de criação. Para ela, ele tem futuro.
‘‘Ele pinta, molda, cola e esculpe um mundo de descobertas reais’’, afirma Regina Menezes. ‘‘Eunício esmera-se nos detalhes: as bonecas e sereias têm olhos e cabelos, os ônibus têm inclusive suporte para os assentos, as formigas parecem reais em suas patas de metal e corpo envernizado. A sucata passa por sua tradução pessoal e nem o durex é desprezado, vira vidro nas janelas de papelão.’’
O material que parece não servir para nada é transformado em maquetes de igrejas, com direito à luz interna, padre de argila; até mesmo uma miniatura da Usina do Conhecimento foi construída. As raízes pernambucanas também estão presentes na arte recém-descoberta. Em argila, Pernambuco faz cangaceiros, Lampião e Maria Bonita, jangadas. Em sua simplicidade, ele também faz arte com consciência social - em barro fez um homem morto vítima das drogas. Em papelão faz, além das maquetes, ônibus, caminhão. Em madeira e arame faz formigas e abelhas em colméias de verdade.
Sem a teoria da arte, Pernambuco experimenta os materiais. ‘‘O que não dá certo em papelão, pode dar certo em madeira, ou barro’’, explica. É o artista testando o material. Depois de ajudar a construir o prédio com suas mãos e guardá-lo, Pernambuco agora dá oficinas onde ensina para as crianças o que a pouco tempo descobriu que sabe fazer: brinquedos de sucata.
Por ironia do destino Pernambuco queria tirar o seu sustento dos pés - ser jogador de futebol - foi privado pela dureza da sua realidade, mas descobriu nas mãos, seu grande talento.

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