Dorico da SilvaKizo Kimura: ‘‘Quando eu morrer, minhas netas e bisnetas vão dar valor ao que fiz’’A agulha aos poucos vai realçando os detalhes. As mãos firmes de Kizo Kimura trabalham com a máquina de bordar como se fosse um pincel. A linha vai se transformando em cascos de cavalo, galhos de árvores, paisagens, enfim, sugere movimentos e domina a luz. Em cerca de 60 horas de trabalho - o tempo varia conforme o tamanho - o quadro está pronto.
Kizo Kimura optou pelo bordado em uma situação de emergência. Morava em São Paulo, em 1968, quando foi atropelado. Com as duas pernas quebradas e uma recuperação difícil, Kimura voltou ao Norte do Paraná para viver com a mulher Tsuruko e os filhos, depois de perder tudo o que tinha na capital paulista.
Com o pouco dinheiro que sobrou, ele adquiriu uma máquina de costura de um coreano que vendia bordados. O sujeito estava vendendo tudo para ir para os Estados Unidos e Kimura resolveu investir no negócio. Mas o problema era manusear a máquina.
‘‘Ele chegou e mostrou rapidamente como funcionava. A linha tem que passar por 16 lugares para a máquina bordar, e isso ele não explicou direito’’, comenta Kimura. Foi aí que começou o teste de paciência. Depois de inúmeras tentativas, quase uma noite inteira, Kimura descobriu por onde passava a linha.
O começo Para sobreviver fez colchas e almofadas. Ao tentar copiar uma figura com a máquina de bordar, descobriu um novo caminho. Dali para a frente transformaria o bordado em quadros, uma arte que, segundo ele, não possui outros mestres. ‘‘Estive em Ibitinga, a capital do bordado no Brasil, e ninguém sabia fazer o que eu faço’’, comenta. Kizo Kimura tinha 63 anos quando começou a bordar. Hoje, com 85, se recusa a parar. ‘‘É uma luta para vencer meus próprios limites, e eu estou conseguindo. Pretendo fazer algo que seja útil para a nossa sociedade, mesmo que minha contribuição seja pequena’’.
Kizo Kimura nasceu em Hiroshima, no Japão, e veio para o Brasil em 1930 como filho de imigrante. Trabalhou quatro anos na lavoura e entrou como aprendiz em uma oficina mecânica. Durante 40 anos foi mecânico de automóveis. O pai comprou terras no Norte do Paraná, mas Kimura ficou em São Paulo exercendo a profissão.
‘‘Trabalhei anos com automóvel para ser atropelado por um. O acidente foi um castigo, na mocidade eu era muito egoísta’’, confessa Kimura, revelando que casou com Tsuruko e teve quatro filhos. Durante essa época, a família viveu em Assaí. Mas então Kimura resolveu abandonar a família para viver novamente em São Paulo. Lá passou 20 anos, até ocorrer o acidente.
Agora o artista japonês resolveu montar sua quinta exposição - a última foi em 1991 - em Londrina, cidade onde mora desde 1972. A mostra será aberta amanhã às 20h30 e reúne cerca de 20 trabalhos na Associação Comercial e Industrial.
Detalhes A técnica desenvolvida por Kizo Kimura é trabalhosa e detalhista. Para desenhar um cavalo, por exemplo, ele utilizou cerca de dez linhas diferentes. ‘‘O quadro é resultado de muito esforço e paciência. A gente tem que usar essa força para o bem dos outros, é por isso que estou fazendo esta exposição. Não é para ganhar dinheiro. Quando eu morrer, minhas netas e bisnetas vão dar valor ao que fiz’’, ressalta.
Embora já tenha trabalhado com vários tecidos, o favorito do artista é o tergal. Com o original à frente - pode ser foto, desenho ou pintura -, Kimura transforma o que vê em bordado, geralmente aumentando as proporções. Lúcido e bem informado, o artista ressalta a todo instante a necessidade de colaborar com o desenvolvimento social. Em sua casa guarda 40 quadros. Não vende nenhum, mas faz doações a quem admira seu trabalho. Não mede esforços para continuar bordando. E se considera um exemplo de que os idosos têm muito o que mostrar.
•Exposição de quadros de Kizo Kimura - Inauguração amanhã, às 20h30, na Associação Comercial e Industrial de Londrina (Rua Minas Gerais, 297, 1º andar). Fica aberta ao público até o final do mês.

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