A arte mais perto de todos
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de agosto de 1998
Silvana Leão 
ReproduçãoVaidade: obra de Guita Lerner em bronze com pátina marrom manufaturada em sérieTer uma obra de arte em casa, infelizmente, é para poucos. Se a peça for única, então, o grupo de privilegiados fica ainda mais restrito. Daí a solução encontrada por grande parte dos artistas, como forma de difundir a arte entre o maior número possível de pessoas: os trabalhos em série. Ou múltiplos, como são mais conhecidos.
E para quem ainda reluta em pendurar na parede uma gravura ou decorar a casa com uma escultura que tem outras semelhantes espalhadas pelo mundo, aí vai um recado de quem entende do assunto: trata-se de obras de arte sim, a diferença é que são mais acessíveis.
Para Ana Maria Barreto, proprietária da galeria Bahiarte, em Londrina, o valor artístico desses trabalhos é inquestionável. Ao contrário das reproduções, que são feitas por máquinas e não têm valor nenhum, as obras de tiragem limitada são criações originais do artista. O importante é a qualidade destes trabalhos.
Cesar Augusto/Agência FolhaAldemir Martins, um dos consagrados artistas brasileiros que trabalham com múltiplos: divertimentoEla lembra que o sonho de muitos pintores é que suas criações não fiquem restritas a uma elite, daí a opção pela serigrafia ou litogravura, que permitem a obtenção de vários exemplares de uma mesma obra. Ana Barreto cita o exemplo de Picasso, que depois de ter conquistado fama e fortuna, construía casas em diversas partes do mundo e trabalhava incessantemente para enchê-las de gravuras, com a única intenção de divulgar sua arte.
Segundo a marchande, há casos em que a gravura é um estudo de um quadro que o artista vai fazer ou já fez. No mundo inteiro os artistas plásticos fazem gravuras, diz. No Brasil, entre os nomes mais famosos estão Manabu Mabe, Caribé, Aldemir Martins, Iberê Camargo, Cícero Dias, Sérgio Telles, Inimá de Paula e Mena Barreto.
Em se tratando de esculturas, os múltiplos também ganharam a preferência de nomes consagrados. A Galeria Skultura de São Paulo, que está há 22 anos no mercado, seleciona anualmente algumas obras de artistas famosos manufaturadas em série para vender através de catálogo, em condições facilitadas. Uma das proprietárias da galeria, Clara Pascowitch, concorda que o fato de serem múltiplos não diminui o valor artístico destes trabalhos.
Ela esclarece que pelas normas vigentes no meio artístico, um escultor pode fazer até seis peças semelhantes que elas continuam sendo consideradas únicas. Acima de 10, passam a ser múltiplos. Mas para serem múltiplos, os trabalhos devem ser assinados e numerados. Se não, são considerados fundição simples, esclarece.
Clara lembra que as obras feitas em série nunca são exatamente idênticas, porque sempre são finalizadas uma a uma pelo próprio artista. No momento a Skultura está comercializando por catálogo múltiplos de Claudio Tozzi, Guita Lerner, Margarita Farré e Yutaka Toyota. Cada peça sai por R$ 450,00 e comprando as quatro dá para parcelar em até 12 vezes.
Para o cearense Aldemir Martins, o múltiplo pode ser considerado um divertimento para o artista: Porque a gente é assim, enquanto descansa carrega pedra..., brinca. Aldemir, que entre uma e outra tela faz gravuras e esculturas em metal, acha que as obras produzidas em série têm duas finalidades. A principal é a divulgação do trabalho, já que o boca-a-boca neste caso é muito maior. Em segundo vem a sobrevivência do artista: os múltiplos, por serem mais acessíveis, aumentam significativamente as possibilidades de comercialização.


