Desde que a gente começa a tentar entender o que é a arte, muitas dúvidas vão surgindo sem que - por momento algum - pareça que a angústia de perder-se, sem encontrar um ponto fixo, dê lugar a uma espécie de convicção capaz de afirmar que, é verdade, a definição de arte não se acomoda em um ponto fixo, mas é sempre indeterminada e complexa.
Falando sobre a continuidade ou não do núcleo histórico das bienais, em artigo recente, Helouise Costa, do jornal Folha de São Paulo, começa seu texto dizendo que ‘‘a identidade é uma construção que como tal é constantemente negociada e atualizada no cotidiano das práticas sociais’’. E isso também serve para pensarmos sobre o que vem a ser a arte hoje em dia, para nós, filhos de um processo histórico que justamente buscou abolir a própria história. Ou melhor, filhos de uma educação artística que buscou abolir obra e até mesmo o conceito de arte. Ao menos enquanto portadora de uma verdade que se encerrava, em última instância, em um objeto rotulado, definitivo e catalogado.
Se pensarmos a história e mesmo a arte como acontecimentos que se dão na medida em que a realidade vai se fazendo, então, em primeiro lugar, não teremos porque esperar apenas um conhecimento ilustrado dos fatos, nem de esperar pela arte como reflexão histórica, mas compreender os fatos como enunciados que se tornam redes de transmissões do pensamento e do conhecimento. Um posicionamento diante do mundo. Aqueles que se dizem contra o fim da história, ou o fim da arte, com o argumento de que isto seria a total alienação do saber à globalização e à prática da economia neoliberal, não conseguem compreender a importância dessa rede como possibilidade de atravessar tal massa informe de conceitos, sem deixar-se dominar pela reação a essa ideologia imposta mundialmente. Estar em oposição é situar-se ainda na relação com aquilo a que se deseja combater. O outro lado da moeda ainda é a moeda. Por isso que mesmo a certeza da incerteza é duvidosa. Isso não alivia nada, mas ao menos permite que nos movimentemos traçando nossos mapas.
Assim, o que difere a prática artística da normalidade cotidiana é a capacidade de transformar qualquer situação comum em algo capaz de fazer, apontar sentido. Já dizia o artista alemão Joseph Beuys, que ‘‘todo homem é um artista’’ e, de fato, todos nós somos potencialmente criadores, embora seja preciso pensar, também, se o artista é capaz de exercer seu trabalho dentro do cotidiano, sem que isso faça da realidade mais um ‘‘material de pesquisa’’ para a produção de objetos, de coisas para entupir o lixo do planeta. Nada pior e mais falso do que uma situação forçada a se transformar em algo que definitivamente ela não é. Ou então se assume de vez a representação, o que não é o nosso caso. E nem daquele outro, apaixonado por um pensamento que se esgota na própria realidade do objeto artístico, como se este fosse uma espécie de monumento sagrado a ser contemplado.
Arte tem que estar jorrando a todo instante sem que para isso seja necessário a concessão institucional, ou a garantia de um crítico, professor ou curador de obras que as avalize enquanto tal. Faz parte do processo viver essa indeterminação de que a arte pode ou não fazer sentido para quem quiser, aonde for. ‘‘Não há mentiras nem verdades ali, é só música urbana’’, já dizia Renato Russo na letra da canção.
[email protected]

mockup