São Paulo, 20 (AE) - Antes, o problema do pintor Eduardo Sued era romper com a superfície da tela. Hoje, seu problema é cair fora da pintura, fugir da ordem mondrianesca para criar uma outra ordem, nem que para isso tenha de recorrer à mais cruel das cores, o cinza. Cruel e autista, segundo Sued, considerado pelos mais respeitados críticos o maior pintor vivo do Brasil. Nenhum pintor é digno desse nome se não enfrentou o cinza - no caso, o prateado, como uma tela de vocação verticalizante que, por precaução, foi afastada da sala principal da exposição que o artista abre amanhã (21), na Galeria São Paulo, onde mostra 25 novos trabalhos produzidos entre 1997 e este ano.
A tela prateada não foi rejeitada. Ao contrário. Sued aproxima-se dela, instalada num corredor estreito, como alguém se aproxima de um autista: sabendo que tem poucas chances de arrumar um interlocutor. Sued ouve as cores. É verdade. Afinal, não se pode duvidar de alguém cujo nome é Deus lido ao contrário. Como Kubrick, que aconselhava fechar bem os olhos para enxergar a realidade, Sued, o homem do anagrama divino, recomenda que se feche bem os olhos para pintar. Se você não ouvir nada, desista. Não é um pintor. O teste prático pode ser feito na própria galeria, tentando articular as cores de sua instalação "Monk", feita em homenagem ao pianista e compositor de jazz Thelonious Monk.
Neto de seu amigo Tom Jobim e filho de Elizabeth Jobim, também artista plástica, o pequeno André ficou com a tarefa de organizar a série "Monk", jogo aleatório de sarrafos prateados com bases pintadas em cores berrantes. Sued abandonou o ateliê com o crítico Paulo Sérgio Duarte e, quando voltou, André, que tem 6 anos, havia isolado o sarrafo de cedro amarelo da série "Monk" de réguas, provavelmente pelo barulho provocado pela cor. "Ele foi o verdadeiro curador da série", brinca Sued. Se o amarelo faz barulho, o cinza, como se sabe, é uma cor surda. Rothko morreu por ela. Ou pior: matou-se em 1970, no auge de uma crise de depressão e alcoolismo, após pintar uma série de telas cinzentas.
A cor, que em Rothko era sinônimo de expansão, havia chegado à retração total, provocado seu trágico enclausuramento. Essa aproximação com Rothko não revela, porém, uma afinidade. Sued está mais próximo da ordem de Mondrian, que ousou compor um ritmo ao dividir verticalmente o espaço da tela. Como nas telas do holandês, não há ícones na pintura de Sued, mas o artista recusa o papel de guardião do construtivismo. É resistente ao dogma do neoplasticismo. "Minha paleta não é ortodoxa e lembro que procurei as cores vibrantes quando meu pai morreu", conta Sued, filho de imigrantes sírios que passou a infância vendendo botões no armarinho da família em Ipanema. Hoje, reconhece, está mais para o tom baixo de Morandi do que para a alegria de Matisse. E olha, assustado, para as telas de tendência verticalizante, em que predominam o negro e o preto.
A distinção é necessária porque, segundo Sued, o negro é profundo e infinito, enquanto o preto é raso, sem profundidade. Preto e cinza, para ele, são campos vazios, "nadas". Em algumas telas é possível verificar pequenas perfurações. Sued explica que a razão de sua existência é a descontinuidade no espaço, como se este se curvasse em torno dos pequenos pontos que rompem com a superfície da pintura. "Cria-se uma brutalidade como em Dubuffet", observa, referindo-se à recusa do pintor francês à idéia do sublime na arte. Essa descontinuidade pode ser vista também como a admissão de um fracasso. Pintar, para ele, é tarefa de Sísifo. Já destruiu telas para colocar as cores numa sequência ordenadora e admite que a sua é uma obra inconclusa - como se a conclusão de uma pintura fosse a indicação de um fracasso, segundo o crítico Rodrigo Naves. Uma aluna de outro crítico, Ronaldo Brito, chama esse fenômeno de "angústia da incompletude". Ele, que já fez análise junguiana, experimentou ácido lisérgico para pesquisar as cores e hoje resiste a uma doença que já lhe extirpou um dos pulmões, acha graça nessa história de "incompletude". A aluna de Brito tem razão. "Existe realmente essa angústia", admite. "Faço e desfaço e ainda sinto que falta algo no que ela chamou de expressionismo às avessas".
A doença, um maldito câncer provocado talvez pelos 50 anos de convívio com as tintas, não lhe tirou o humor e a disposição. Aos 74 anos, ele não tem a mesma energia do jovem surfista que vendeu seu primeiro trabalho ao padrastro de Jobim, mas está cheio de idéias na cabeça. "A doença trouxe com ela uma necessidade de revisão, uma maior brutalidade", conta, revelando que, após sair da terapia intensiva, achou sua pintura "inconsistente". Mas alerta: a verticalização de suas telas recentes não é gótica e nem tem o sentido de elevação. Suas cores não preparam uma estrutura para o céu nem deixam o espectador acomodado: o seu não é um mundo de transparências ou de aparências. É um mundo de telas reais. Serviço - Eduardo Sued. De segunda a sexta, das 10 às 20 horas; sábado das 10 às 19 horas. Galeria São Paulo. Rua Estados Unidos
1.456, tel. 852-8855. Até 11/11.

mockup