A arte fantástica nordestina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de agosto de 2002
Francelino França<br> Reportagem Local 
As linhas modernistas do Museu de Arte de Londrina abrigam a partir de hoje uma exposição do mais conceituado gravurista do nordeste, o pernambucano J. Borges. ''O Real e o Fantástico de J. Borges, o gravador do Nordeste'' traz 80 xilogravuras que retratam alguns aspectos do trabalho de J. Borges, como a cidade de Bezerros (na região do agreste de Pernambuco), a imagética cultura pernambucana, as saborosas frutas nordestinas e gravuras ligadas ao fantástico. As imagens são acompanhadas de textos da poética popular de domínio público.
A exposição pode ser considerada representativa da obra de Borges, do ponto de vista do cronista social, como da estética de traços precisos e refinados, em que são alternados o monocromático e o colorido. ''Do ponto de vista técnico, J. Borges trabalha com a cor ou a ausência de cor. Ele não trabalha com tonalidades'', avalia o curador da exposição, Danilo Coelho Alves de Souza.
A gravura ''A Chegada da Prostituta no Céu'' representa o cordel best-seller do artista que atingiu o patamar de 40 mil exemplares vendidos. Dentre os trabalhos que o público londrinense vai conhecer estão os mais recentes como ''A Cavalgada da Pedra do Reino'', inspirada na obra de Ariano Suassuna, o descobridor de J. Borges. Em 1972, Suassuna conheceu os traços de Borges e divulgou-o como sendo o maior gravador popular do nordeste, exatamente num momento em que o escritor pernambucano ganhava projeção nacional com o Movimento Armorial. Desde esse período, as gravuras e cordéis do J. Borges ganharam o Brasil, mas principalmente Europa e Estados Unidos.
Além de incontáveis discípulos, J. Borges conta com a ajuda de marchands em vários países. Recentemente, o jornal The New York Times dedicou extensa reportagem retrospectiva sobre seu trabalho. Uma das últimas façanhas do xilogravurista foi a inclusão da figura ''A Vida na Floresta'' no calendário da United Nations Framework Convention on Climat Change (UNFCC), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU).
''Essa exposição em Londrina mostra a força do imaginário medieval no nordeste, ou seja, a ligação do imaginário do homem atual com o medieval'', avalia o curador. Para ele, isso referenda o imenso interesse dos europeus pela arte popular do nordeste. ''A arte nordestina é uma confluência de opostos, por isso não pode ser rotulada'', prossegue Danilo Coelho Alves de Souza.
José Francisco Borges nome de batismo do artista pernambucano tem 66 anos, e escreveu o primeiro cordel ''O Encontro dos Vaqueiros no Sertão de Petrolina'', em 1964. Iniciou sua incursão pela xilogravura no fim dos anos 60. Como tantos outros talentos nordestinos, ocupou os bancos da escola por apenas 10 meses. J. Borges não usa formão. Ele prefere um canivete para retirar da imburana o taco (matriz) da xilogravura. Ele desenvolveu um mecanismo próprio de entintar a matriz criando uma espécie de carrinho que imprime a imagem. A xilogravura pode ser considerada a arte da inversão e o artista necessariamente pensa invertido as imagens talhadas na matriz.
J. Borges vem para Londrina na abertura da 7 Festa Nordestina, no dia 28 de agosto. Nos dias 28 a 30 de agosto, ele ministra oficina de xilogravura na cidade.
Serviço: ''O Real e o Fantástico de J. Borges'', exposição de 80 trabalhos em xilogravuras, cordéis, ferramentas e matrizes de madeira. Abertura hoje, às 20h30, no Museu de Arte de Londrina, rua Sergipe, 640. A exposição prossegue até o dia 8 de setembro.


