As pinturas que em tempos passados eram limitadas às paredes das galerias de arte acabaram indo parar em espaços públicos, estações de metrô, bares e calçadas. O artista plástico José Belmiro dos Santos não levou seus quadros a nenhum desses lugares. Instalou-os na sala de visitas da Remanso - Moradia para Idosos, em Curitiba. A exposição, com o apropriado título ‘‘Interiores’’, reúne trabalhos feitos de traços e climas que sugerem quietudes.
‘‘É um espaço pouco típico, uma coisa interna’’, disse o artista sobre a escolha. A experiência de se abrir a atividades como uma exposição de arte começou ano passado e tem dado certo, comenta Iris Tuleski Tebet, psicóloga com especialidade em gerontologia, responsável pela casa. A abertura teve coquetel à base de sucos. Foi uma festa.
Porém, as novidades são passageiras para um mar de existências. Os quadros, que podem ser vistos pelo público às quintas-feiras e domingos, das 14 às 18h, até dia 22 de abril, aparentemente perderam a aura de algo novo para a quase totalidade das 12 mulheres que vivem ali. Transformaram-se numa espécie de utensílios, enfeites contribuindo com cores para o ambiente.
Às segundas-feiras tem um horário em que um grupo se reúne para contar histórias. As narrativas são paisagens de tempos vividos. ‘‘Elas contam suas vidas através de um tema proposto’’, explica Iris Tebet. Há leituras da Bíblia, acompanhadas de discussão sobre essas passagens. Quando o tempo ajuda, saem a passeios pelos parques, ao Jardim Botânico. Ir ao supermercado é uma aventura - o mundo mudou.
Um grupo esteve no bairro de Santa Felicidade visitando uma exposição de orquídeas. Ficaram encantadas e esse foi o assunto principal para contar aos visitantes, e mesmo entre elas quando dialogam. Dona Maria de Lourdes Rego, que em setembro completa 80 anos, nunca tinha ido a uma exposição destas. Ficou maravilhada.
Órfã desde menina, cuidou dos irmãos mais novos, em Belém do Pará. Casou-se com um militar aos 21 anos e passou a vida acompanhando o marido por diversas cidades brasileiras, para onde ele era transferido. ‘‘Conheço quase todo o Brasil’’, revela. Mas de todos os lugares por onde andou, Curitiba é ainda o melhor para morar. ‘‘Cidade limpa, bem estruturada. O Rio é muito bonito, mas é uma cidade suja. Eu não me adaptaria com aquilo’’, afirma. Único senão curitibano é o frio. Paciência.
Dona Maria de Lourdes lamenta a morte da natureza, o desvario entre as quatro estações. Hoje não se tem mais primavera, verão, outono e inverno como antigamente. O mundo não é mais organizado com seus frios e calores nas épocas determinadas. As flores não sabem o tempo certo de desabrochar. ‘‘Experiências com a bomba atômica estragam com a terra. O desmatamento vai acabar com o homem’’, avisa.
Depois de criar cinco filhos e ver nascer dois netos, que aniversariam no mesmo dia que ela, 20 de setembro, dona Maria de Lourdes resolveu que era hora de se recolher num lugar onde encontrasse pessoas de sua geração. ‘‘Hoje em dia a vida não dá espaço aos idosos’’, afirma com naturalidade, sem mágoa ou rancor.
No caminhar mais lento da casa ela encontrou movimento. ‘‘Aqui tem coisas necessárias para a gente: música, fisioterapia’’, enumera. Recolher-se foi uma decisão sua, contrária à vontade dos filhos. ‘‘Eu pensava que faltava alguma coisa na minha velhice. O que faltava é esta convivência’’.
Depois de toda uma vida costurando, cozinhando e passando chegou o tempo de dedicar-se às palavras cruzadas e à leitura, embora esqueça o nome dos autores. Música para dona Lourdes continua a ser a do passado. ‘‘Agora repetem 20, 30 vezes a mesma palavra. Não gosto. As antigas tinham letras mais profundas, verdadeiros poemas. Outra coisa: música é harmonia; as de agora gritam muito. Não acho isso bom’’.
Dona Nadir de Almeida mistura um pouco as lembranças, confunde as localidades que mapeiam sua juventude, mas não se esquece do dia em que sua irmã Carmen juntou uma porção de quadros e deu-os de presente. ‘‘Eram lindos’’, diz embevecida, em meio às obras de Belmiro Santos. ‘‘Sempre gostei de pintura’’.
Filha de fazendeiro, nasceu em Ponta Grossa, cidade que ela descreve como sendo ‘‘de muita subida’’. Pelas notícias que recebe sabe que a cidade cresceu, está bonita, muito diferente daquela de outros anos. No entanto foi em Rio Negro que a bela Nadir teve uma de suas grandes alegrias: ser coroada Miss Rio Negro.
Ainda hoje mantém traços da beleza que não se apagou com o ocaso. Quando indagada sobre o título de miss, abre-se num sorriso satisfeito. Mas, faceira, observa: ‘‘Decerto não tinha mocinha bonita’’. Brincadeira de quem sabe de si: dona Nadir conta com carinho de seus cabelos brancos que eram castanhos e bonitos.
Ponta Grossa sentiu-se honrada com a vitória de sua filha. Foi organizada uma festa no Clube Ponta-grossense. O casamento veio depois, realizado em Rio Negro.
‘‘O magistério é uma estrada iluminada, mas tem diversos focos sem iluminação. São as pessoas que não souberam escolher a carreira. Tem muita gente que não sabe’’. Aposentada há cerca de dez anos, segundo seus cálculos, dona Maria Guilhermina é uma mulher que dedicou sua vida ao ensino.
‘‘Tenho saudade das salas de aula’’, suspira. Quando diz isso, porém, está se referindo aos alunos que hoje estão chegando - ou já passaram - na casa dos 50. As crianças de décadas atrás tinham outro tipo de educação, havia regras e respeito a serem obedecidos. A permissividade dos dias atuais acabou com tudo.
O caos que existe hoje é consequência direta dos adultos que ‘‘sabem educar, mas não querem se dar ao trabalho’’. Aliás, também eles estão ‘‘meio perdidos’’. ‘‘Não vê o advogado que se matou?’, inquire, citando um episódio recente ocorrido em Curitiba. Este é somente um detalhe de seu olhar arguto sobre os acontecimentos.
Atualizada através dos telejornais, dona Maria Guilhermina gosta de televisão, mas não assiste a telenovelas. Justifica essa falta de interesse dizendo é reflexo das aulas noturnas. Não teve tempo para tomar gosto pelos folhetins eletrônicos.
A dedicação ao magistério resultou numa lista enorme de crianças que se tornaram adultos famosos. Quem seriam eles? ‘‘Se cito um e não cito outro vão criar caso. Então...’’, responde.
Dona Maria Guilhermina está com 86 anos e nos idos da mocidade conviveu com o ex-governador Ney Braga, na pacata e então distante cidade da Lapa. Ali a curitibana passou grande parte de sua vida. Não se lembra quanto tempo faz que não encontra o velho amigo, mas quando este lançou seu livro de memórias, dona Guilhermina recebeu dele um exemplar autografado.
‘‘Não fui ao lançamento porque não estava boa’’, comenta. Mas a amizade tem raízes profundas, alimentada por gerações: ‘‘O pai de Ney era sócio do meu marido. A gente se encontrava, mesmo depois que ele se tornou político’’, relembra.
‘‘Helena Kolody formou-se no Normal um ano antes que eu. Nunca trabalhamos juntas’’, conta a antiga professora. ‘‘Helena é uma verdadeira educadora. Ela sempre se expressou assim’’. Apesar de sua longa estrada ter sido marcada com o ensino, com os cheiros da sala de aula, giz, apagador, tintas e mata-borrão, o trecho de agora é outro - lidar com doença.
Dona Maria Guilhermina tem artrose, artrite, osteoporose. ‘‘As doenças não me dão sossego. É dor e mais dor’’, queixa-se. Encara com determinação os reveses, essa mesma determinação que a acompanhou todos estes anos. Nascida em Curitiba e criada na Lapa, poderia ter visto almas de outro mundo que assombram incautos moradores.
Dizem os lapianos que espíritos vagam perdidos por ali. ‘‘Nunca vi nada’’, afirma a professora. ‘‘Tinha uma casa onde minha sogra morou, que depois de sua morte dizem que ficou mal-assombrada. A família colocou à venda e ninguém queria comprar. Pessoa culta não tem disso, quem acredita é o pessoal mais simples. Não tenho medo de assombração’’.
Preparando para se recolher, ainda cedo, perto das seis horas da tarde, dona Maria Guilhermina manda um recado ao arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavalin: ‘‘Vai aí o meu abraço’’. E num gesto de afeto aponta para o criado mudo e pede ao repórter que leve um tablete de Bis. ‘‘São pedras que me atiram’’, diz, ousando uma brincadeira.
• Interiores - exposição de Belmiro Santos na Remanso - Moradia para Idosos, Rua Desembargador Costa Carvalho, 471, Bairro Batel, Curitiba. Visitação pública às quintas-feiras e domingos das 14h às 18h. Até dia 22 de abril.

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