Imagem ilustrativa da imagem A arte em xeque na rua
| Foto: Marcos Zanutto
Carão, do coletivo CapStyle Crew,está terminando um novo grafite na Avenida Celso Garcia Cid, em Londrina: "O objetivo maior é levar a arte adiante para que todos possam ver e, também, se enxergar nela"



Uma das primeiras ações do novo prefeito, João Doria, em seu mandato na cidade de São Paulo, na primeira quinzena de janeiro deste ano, chamou a atenção e levantou uma discussão no Brasil inteiro sobre arte de rua. Grande parte dos grafites (ou graffitis) da Avenida 23 de Maio, no centro da cidade, foram apagados com uma tinta cinza, como medida do projeto "Cidade Linda". Em declaração, o prefeito disse que os grafites seriam mantidos apenas em espaços definidos e "adequados" pela Secretaria Municipal de Cultura e que os demais, "envelhecidos" ou "mutilados por pichadores", seriam pintados. A decisão, segundo ele, visa dificultar uma conexão com os pichadores que, em sua visão, não são artistas, mas agressores. O documentário "Cidade Cinza", lançado em 2013, retrata outra ocorrência no mesmo local, em 2008.



Apesar de Londrina ter uma quantidade bem menor de grafites espalhados pela cidade, em dezembro de 2014 ocorreu uma situação semelhante. O artista londrinense Tadeu Roberto de Lima Jr., mais conhecido como Carão, teve um grafite de sua autoria apagado do muro do Bosque Central pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) pouquíssimo tempo depois de ser produzido. A imagem trazia uma mulher negra com olhar triste e olho roxo e, ao lado, a mensagem "Não à violência contra a mulher". Essa ação ocorreu nove meses depois do mesmo artista ter tido uma outra obra, a imagem do piloto Ayrton Senna, classificada como propaganda de um estacionamento particular, dentro da lei 10.966/ 2010, popularmente chamada de "Cidade Limpa", sob pena de multa diária ao proprietário caso não apagasse.

À época, a CMTU informou que a pintura dos muros fazia parte do processo de revitalização e padronização do bosque e de outros espaços públicos. Já com relação à imagem do Ayrton Senna, a alegação foi contestada e, como estava em propriedade privada, não foi apagada. Os ocorridos, no entanto, motivaram a inclusão do grafite na lei municipal 12.230/2014, que regulamenta as apresentações de artistas de rua em logradouros públicos, prevendo também o grafite como atividade cultural. Neste caso específico, regras foram estabelecidas tais como: solicitação junto ao órgão com descrição de local, dia e motivos para grafitar em edificações públicas, e que a arte não contenha elementos promocionais ou publicitários alusivos a comércios circundados. Já a pichação continua sendo considerada crime.

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| Foto: Fotos: Ricardo Chicarelli
Festa para os olhos: em Londrina, há grafites coletivos em espaços como o Anfiteatro do Zerão, e trabalhos individuais como "O Poderoso Chefão", de Huggo Rocha, que surpreende os transeuntes nas imediações da rua Pio XII com a Hugo Cabral
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VISÃO DO ARTISTA
Grafiteiro há 17 anos, Carão é figura conhecida na cidade com vários trabalhos espalhados pelas regiões. Junto com os artistas Napa e Huggo Rocha, cada um com seu estilo de traço, fundou o coletivo CapStyle Crew, uma espécie de assinatura para promover Londrina e a Zona Norte, onde cresceram. "Eu gosto de grafitar com autorização, seja em local público ou privado. Se o dono não deixar, não faço. Mas acontece de não conseguir identificar o proprietário e o local estar abandonado, fechado ou degradado. Não tenho patrocínio ou retorno financeiro. Então, nesses casos, o objetivo maior é levar a arte adiante para que todos possam ver e, também, se enxergar nela. Como toda arte de rua, o grafite está exposto à ação do tempo e a intervenção de terceiros é inevitável. Por isso, não tenho esse tipo de apego se a obra já cumpriu seu propósito", diz ele, que aborda a temática racial, sobretudo a cultura negra, na maioria de seus trabalhos que já chegaram a países como França e Venezuela.

Com relação à pichação, o artista acredita seja mais polêmico por sua característica transgressora na medida em que, geralmente, é feito em locais não autorizados. "O grafite, hoje, é mais aceito porque tem cores, dá outro aspecto para os locais. No caso da pichação e suas modalidades, muitos consideram vandalismo. Mas não deixa de ser uma forma de expressão; um 'soco' na cara da sociedade que tem a mente fechada para outras formas de arte. Essa questão, porém, é muito particular. Para mim, é muito mais agressivo, por exemplo, um outdoor gigante ou uma placa luminosa enorme de uma lanchonete que uma pichação. E há pessoas que não se incomodam com isso e ainda acham arte. O meu trabalho, inclusive, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado vandalismo para que não gosta, como já aconteceu."

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