Os editores da revista ‘‘Arte & Informação’’ (Editora Ar de Paris, R$ 6,00), que está com sua primeira edição nas bancas, sabem que terão um árduo trabalho para se firmar no mercado editorial brasileiro, uma das áreas mais atingidas pelo sucateamento da cultura no país. No editorial do primeiro número, escrito em forma de manifesto, eles sintetizam em uma frase os inúmeros alertas que ouviram de jornalistas, artistas e de gente ligada ao mercado de arte quando estes ficavam sabendo do lançamento de uma publicação dedicada exclusivamente às artes plásticas: ‘‘Revista de arte não dá dinheiro e o brasileiro não lê este tipo de publicação’’.
Mais do que uma resposta aos pessimistas, o modo debochado e mordaz do editorial foi a forma de deixar claro que eles sabem muito bem em que terreno estão pisando. A posição privilegiada que o público interessado em arte ocupa nos índices sociais do país – com alta escolaridade e renda idem – é inversa proporcionalmente ao número de publicações dedicadas ao tema. A afirmação de que ‘‘revista de arte no Brasil não dá certo’’ é uma daquelas ‘‘verdades’’ surgidas sabe-se lá de onde e que se instalam feito carrapato à concepção editorial das editoras.
O resultado sempre foi a total ausência de publicações dedicadas exclusivamente à arte. ‘‘Arte & Informação’’ chega para a ser a única nas bancas, após um duro jejum desde o fechamento de ‘‘Galeria’’, editada entre 1986 e 1992 em São Paulo. A revista tinha um conselho consultivo de peso. Lá estava o publicitário Zaragoza; Fábio Magalhães, político ligado à área cultura e que foi presidente do Masp; o marchand Marcantonio Villaça, falecido neste ano, galerista que causou polêmicas no mercado de arte brasileiro, também emprestava seu nome e prestígio a revista.
A extinta ‘‘Galeria’’ dividia o mercado com a revista ‘‘Guia das Artes’’, editada também na capital paulista. Tinham em comum a instabilidade e a dificuldade de serem encontradas. Morreram quase ao mesmo tempo – ‘‘Guia das Artes’’ aguentou até 1994. ‘‘Galeria’’ fez uma breve aparição em dezembro de 1997, mas o que parecia uma bem-vinda ressurreição teve a duração de apenas um número.
A circulação de ‘‘Arte & Informação’’ já é uma vantagem sobre essas duas. A revista tem tiragem de 40 mil exemplares, o que possibilitou sua distribuição para todo o país. Seu conteúdo editorial também pretende fugir da extrema especialização das experiências editoriais anteriores. A meta é atingir até as pessoas que não são ligadas diretamente ao conhecimento da arte, mas que tem a curiosidade de ler matérias interessantes sobre o assunto.
Além dos sinais de perigo, seus editores também encontraram pela frente estímulo e manifestações de alegria pelo surgimento, enfim, de uma publicação dedicada a um mercado totalmente desguarnecido de material de leitura periódico. Aliás, as expectativas positivas foram maiores do que as negativas, apesar de estas serem bem fortes em função do histórico de vida nada animador das revistas anteriores. O poeta Ferreira Gullar foi um dos que aderiram com entusiasmo ao projeto.
Gullar, além de escritor respeitadíssimo – alguns críticos o consideram o maior poeta brasileiro vivo –, é um profundo conhecedor de arte, tendo até livros publicados sobre o tema. Em ‘‘Arte & Informação’’, assume o papel de crítico de arte. Neste primeiro número ele assina um esclarecedor artigo, no qual aborda o cubismo, com uma análise sobre a história e o significado do movimento criado na França do início do século por Pablo Picasso e Georges Braque.
A revista pretende trazer em cada edição um texto, como esse de Gullar, sobre uma fase da história da arte moderna. O expressionismo alemão, o fauvismo, o futurismo, o expressionismo, a nossa semana de arte moderna, os acontecimentos que mudaram a visão artística da humanidade serão analisados e ilustrados com reproduções das obras marcantes de cada fase.
A definição do projeto editorial, expressado no editorial-manifesto é a de uma revista que atenda as necessidades das pessoas que vivem o cotidiano da arte – pintores, escultores, marchands, galeristas, críticos – porém sem esquecer o apreciador de arte que não tem ligações profissionais com o mercado. Para isso, serão sempre destacadas as conexões entre a arte e pessoas que aparentemente nada tem a ver com uma tela pintada a óleo.
O humorista Chico Anysio, a modelo Bruna Lombardi, o novelista Gilberto Braga, o ator Jonas Bloch e o cantor e compositor Lobão, são exemplos de apaixonados por arte que estão nesta edição, que fica nas bancas até o final de junho. Além disso, todo mês será publicado um roteiro do circuito de exposições de arte no Brasil.
‘‘Arte & Informação’’ chega mostrando que tem fôlego para a tarefa mais trabalhosa do dificultoso mercado de arte brasileiro: fazer uma revista de arte.

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