Na área das artes visuais, artistas estão buscando espaços não-convencionais para apresentar seus trabalhos. O assunto foi tratado na mesa-redonda ''Outros Espaços de Arte'', realizada esta semana durante a 8 Semana de Arte de Londrina. Participaram da discussão os artistas Ana Paula Cohen, de São Paulo; Regina Mélin, de Florianópolis; Mabe Bethônico, de Belo Horizonte, e, como mediador, Paulo Reis, de Curitiba.
Os artistas apresentaram experiências diferentes de outros espaços de arte. Regina Mélin, por exemplo, falou dos artistas catarinenses que buscam utilizar espaços públicos criando, ao mesmo tempo, a noção de acervo. Ana Paula Cohen apresentou a revista ''Pulgar'' como novo espaço de apresentação de trabalhos. Outros dois artistas, que não participaram da mesa, mas também desenvolvem projetos nesse sentido, são Helmut Batista (RJ) com sua galeria portátil e Ricardo Pimenta (RJ) com a Galeria do Poste.
A mineira Mabe Bethônico trouxe a Londrina sua experiência de criar uma estrutura de museu virtual. Através de recortes de imagens de jornal, a artista plástica construiu o trabalho ''Mabe Bethônico e o Colecionador'', que tem como objetivo questionar as estruturas e o sistema de aquisição, exibição e conservação museológicos. O trabalho aborda questões ligadas à discussão sobre acervo, como a coleção, o colecionador e o colecionismo.
Desenvolvido de 1996 a 2000, durante doutorado da artista em Artes Visuais no Royal College of Arte, em Londres, o trabalho resultou em exposições e ganhou o espaço da internet, no site http://homepage.mac.com/mabebethonico. Na tentativa de tratar o objeto como espectadora e não como autora, Mabe Bethônico criou um personagem fictício, que é co-autor e dá título à obra: O Colecionador.
A artista explica que o personagem faz uma coleção diária de jornais à procura de um universo de imagens relacionadas a quatro temas principais: destruição, corrosão, construção e flores. ''À medida que tem várias imagens, ele as divide em 12 caixas (ou arquivos) já organizadas'', comenta. No site, é possível visitar a exposição conhecendo os arquivos do Colecionador. Os subtítulos distribuídos nas caixas também contêm outras categorias classificadas e distribuídas em pastas, denominadas ensaios.
O site traz alguns fragmentos de textos do Colecionador que falam do conteúdo da obra: ''Percorro o jornal à procura de imagens de casas em construção. Seleciono e recorto figuras formando grupos que são reunidos em envelopes transparentes. Vejo a casa em camadas de tijolos, cimento, gesso, massa, areia, vidro, metal, papelão. Numa segunda leitura recorto casas vítimas de desastres de diferentes naturezas. (...) Observo as casas sendo destruídas em camadas, de maneira semelhante com que foram construídas (...). A coleção constrói a história da casa, contaminada por destruição, subtração; ela cataloga ameaças, notando sua exposição e fragilidade''.
Segundo Mabe Bethônico, o trabalho se relaciona com a literatura, principalmente pela proposta de construção de um personagem, e também aborda a questão da memória. ''Não é a elaboração de um objeto, mas um pensar sobre esse personagem que elabora as coisas. O que me interessa é a possibilidade de me movimentar ao redor do trabalho, vendo as coisas de vários ângulos''.
Desde janeiro, o Colecionador reside no Museu de Arte da Pampulha (MG). Mabe Bethônico diz que seu personagem foi se tornando cada vez mais autônomo, a partir do momento em que a hemeroteca do museu passou a colecionar as imagens. ''O acervo é aberto ao público, que pode escolher de um universo as imagens que quer ver. O fato de ele estar no Museu Pampulha consolidou a figura do personagem, que ganha vida própria com a manutenção e com o contato com o público''.
Mabe Bethônico, que também é professora de desenho da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisadora do CNPQ, vem desenvolvendo outro projeto, intitulado Museu MUSEU. Estruturado em CD-Rom e ainda não disponibilizado na internet, o projeto é uma instituição ficcional nascida do desejo de criação de um espaço no qual a autoria pessoal possa atuar sob uma assinatura institucional. ''O Museu MUSEU cuida do acervo do Colecionador e de outras criações e acervos externos. A princípio, o projeto será um espaço de reflexão e registro de acervo, que possibilita a interação com atividades externas. Acredito que o Museu MUSEU é uma tentativa de criar um espaço que receba e divulgue obras, que sirva como pólo de atuação'', comenta.
O projeto é formado por Mabe Bethônico (curadoria e acervo), Jalver Bethônico (concepção sonora e design), Dário de Moura (tecnologia, design e foto), Jônio Bethônico (design gráfico da página e navegação).

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