Curitiba - Não é uma exposição comum. Você vai poder tocar, ouvir, sentir e ver muito além do que uma mostra convencional permite. Convenções aliás, é o único termo que fica fora da mostra ‘‘Fluxus na Alemanha 1962 - 1994 - Uma longa história com muitos nós’’. A exposição, que apresenta cerca de 300 obras de artistas do movimento fluxista entre a década de 60 e 90, mescla obras originais, a maioria feita com materiais inusitados, como fezes e chocolate, e instalações feitas com sucata e até música, que podem ser escutada pelo visitante por meio de fones de ouvidos. Reproduções de cartazes, registros documentais e vídeos também integram a exposição, que abre a temporada brasileira na capital paranaense.
  Fluxus chega a Curitiba por meio de uma parceria entre o Museu Oscar Niemeyer e o Instituto Goethe. No Brasil, a mostra será apresentada apenas em Curitiba e São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake. Depois disso, acontece em Buenos Aires, antes de retornar para a Europa. O acervo pertence ao instituto alemão IFA, que está custeando a vinda da mostra à América Latina. Os valores dessa transição não foram divulgados, mas a Folha apurou que só o transporte das obras entre Curitiba e São Paulo custará cerca de R$ 20 mil.
  É até pouco para o que representa a obra dos artistas para a história da arte mundial. A mostra exibe tanto trabalhos originais de artistas do Fluxus como de seus amigos. São obras dos alemães Joseph Beuys (artista plástico), Henning Christiansen (pintor e músico); Wolf Vostell (artista plastico) John Cage (músico americano); George Maciunas (músico lituanês); Nam June Paik e Takako Saito, para citar os mais conhecidos.
  A mostra também apresenta impressos, arquivo fotográficos e uma documentação cinematográfica rara, como o ‘‘Flux-Filme’’, de George Maciunas, que registra projetos, concertos, festivais, performances e happenings dos artistas. Além de peças radiofônicas obtidas pelo trabalho conjunto com a emissora de rádio alemã, Westdeutscher Rundfunk (WDR), que produziu as obras. A seleção do material que integra a exposição foi feita pela curadora alemã Gabriele Knapstein e organizada pelo Instituto de Relações Culturais com o Exterior da Alemanha (Ifa).
  O público vai poder conferir, por exemplo, um ‘‘Solo Para Violino’’, de Nam June Paik, que mostra apenas a silhueta de um violino desenhado a caneta na pauta musical. Ou ainda a obra ‘‘Mozart Mix’’, de John Cage, construída em uma maleta de madeira que comporta, entre outros objetos, quatro toca-fitas, fitas com músicas e a inscrição ‘‘Music with out horizon soundscape that never stops’’. Alguns ‘‘enigmas’’ chamam a atenção do público, como a obra ‘‘Schreibmaschinengedicht’’ (‘‘Poema para máquina de escrever’’), de Tomas Schmit. Para ler o poema, o leitor deve decifrar os números inscritos - referentes às respectivas letras das palavras, no teclado desenhado.
  Um instrumento feito de sucata em que o espectador pode tocar ou quadros que podem ser tocados e desmontados também chama a atenção, assim como uma sutil pedra dentro de uma caixa, com uma inscrição com algo parecido com ‘‘não jogamos mais pedras nos outros’’, numa tradução literal do inglês para o português. ‘‘Todas as obras são importantes porque o movimento Fluxus foi muito importante para as artes plásticas, para a música e para a história da arte em geral’’, considera a diretora do Instituto Goethe em Curitiba Claudia Rmmelt Jahnel.
  Ela analisa: ‘‘O movimento é de difícil definição. Fluxus não é um movimento estático, é flutuante, versátil. Os artistas fluxistas trabalham a interdisciplinaridade. O Fluxus é contra as instituições e se opõe aos ideais burgueses de arte. É contra o quadrado e acontece fora dos museus e espaços pré-definidos’’. Para ela, o movimento Fluxus foi responsável pela mudança de paradigma da arte mundial. ‘‘Era uma época em que o campo era muito fecundo para artes e permitia uma pesquisa livre da realidade. A mostra que veio ao Brasil representa isso’’, conclui.
  Entre todo o acervo exposto ela indica um olhar mais atento às obras de George Maciunas. O empresário e artista lituanês foi o responsável pelo movimento, que começou a tomar forma em 1962, quando ocorreu o primeiro festival Fluxus, no Museu Municipal de Wiesbaden, na Alemanha. Maciunas foi o primeiro a conceber uma série de concertos com o título Fluxus (Festivais Internacionais de Música Novíssima).
  Em quatro finais de semana, representantes de diversas manifestações artísticas se apresentaram em Wiesbaden com peças de música performática e happenings, eventos e composições de música concreta, além de audições de antigas fitas de rolo e exibição de filmes. A princípio, o conceito Fluxus, foi concebido por Maciunas como título para uma revista internacional de arte e serviu de estímulo para o organizador. A partir daí, Fluxus serviu como descrição de concertos, eventos e manifestos. Já a revista, nunca foi publicada. O resultado dessa longa viagem cultural, porém, pode ser conferido em Curitiba, na primeira vez que a mostra chega ao Brasil.

SERVIÇO:

- Fluxus na Alemanha 1962-1994 - Uma longa história com muitos nós, no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999). De terça a domingo, das 10 às 18 horas. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00.

mockup