Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Amílcar de Castro é um dos maiores nomes do que se convencionou chamar de neoconcretismo nas artes do Brasil. Partindo do desenho, Castro desenvolve elementos que ganham a terceira dimensão em esculturas, numa tendência mais voltada para a forma do que o personalismo e seus conteúdos psicológicos.
Foi justamente para estabelecer o diálogo com um grupo de jovens artistas criado em Londrina que o escultor foi convidado a participar da exposição ‘‘A Poética do Risco’’, que será aberta hoje às 20h30 na Sala José Antonio Teodoro, localizada na Secretaria de Cultura de Londrina.
O evento reúne trabalhos de Consuelo Francis, Edna Dias, Fernando Augusto, Lélia Ferreira, Maria Seko e Wanda Coutinho, além do próprio Amílcar de Castro. O grupo londrinense surgiu após uma série de cursos realizados por Fernando Augusto, professor de desenho e pintura da Universidade Estadual de Londrina e doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.
Em reuniões quinzenais, os artistas realizam várias discussões sobre arte, buscam o desenvolvimento do olhar artístico e conversam sobre suas próprias obras, entre outras atividades. ‘‘Nesta exposição está sendo assumida uma posição de diálogo com a arte brasileira e de participação neste universo. A presença da obra de Amílcar de Castro vem para redefinir o nosso gosto e fazer-nos pensar sobre o que podemos fazer, o que está sendo feito e o que queremos fazer’’, comenta Fernando Augusto.
Esses trabalhos vêm sendo desenvolvidos há cerca de quatro anos. Durante esse período, as exposições individuais não ganharam incentivos. Ao contrário, Augusto apóia os salões - mesmo sabendo de suas possíveis falhas - por propiciarem outras referências. ‘‘O salão é ainda hoje uma das maneiras pela qual os artistas jovens começam a mostrar o seu trabalho e tecer uma carreira artística’’, comenta o professor.
‘‘Foi um encontro espontâneo, não houve uma preocupação de reunir. A partir da experiência com os cursos dele, nós pensamos em continuar o que começamos, que eu chamo de educação do olhar’’, afirma Lélia Ferreira.
Quando o grupo julgou que podia levantar uma proposta de exposição, pensou em como fazê-la: ‘‘Queríamos uma forma que costurasse com essa nossa interação de aprender e dialogar com outros artistas’’. Amílcar de Castro é objeto de estudo de doutorado de Fernando Augusto, e o movimento neoconcretista é comentado com frequência nas reuniões.
Mas, apesar de ser um referencial importante, a obra do escultor demonstra mais diferenças do que afinidades com os outros trabalhos que compõem a exposição. ‘‘É um diálogo de uma proposta de convivência com um artista que a gente respeita muito. Mas não temos obras atreladas às dele. Podemos falar também nas diferenças, que são maiores do que as afinidades. É um diálogo feito também por distanciamento’’, explica Fernando Augusto.
O professor revela que o artista mineiro usa a geometria como ideal de precisão e, neste aspecto, permanece distante do grupo. ‘‘Essa precisão se dobra e permite a não-precisão. É aí que nos aproximamos dele, no momento em que indefinição e definição têm valores iguais’’, completa.
A maioria das obras que fazem parte da exposição têm o papel como suporte, com exceção dos trabalhos de Lélia Ferreira - que utiliza uma espécie de tecido sintético feito em polipropileno - e do próprio Amílcar de Castro.
Tanto preparo está gerando uma grande expectativa entre os expositores: ‘‘Estou bastante ansiosa, é a primeira vez que estou numa coletiva’’, comenta Wanda Coutinho. O sentimento é compartilhado por Edna Dias: ‘‘Há uma grande expectativa de que tudo dê certo, penso em como as pessoas vão receber’’.
O resultado é a prática de um raciocínio sobre os trabalhos apresentados. ‘‘Eles marcam a posição de ser artista’’, revela Augusto. Dessa forma, ‘‘A Poética do Risco’’ é um tema que remete ao sentido de arriscar-se, além de fazer referência ao próprio traço.
• --A Poética do Risco. Exposição com trabalhos de Amílcar de Castro, Consuelo Francis, Edna Dias, Fernando Augusto, Lélia Ferreira, Maria Seko e Wanda Coutinho. De hoje até dia 27 de agosto, na Sala José Antonio Teodoro (Praça 1º de Maio, 110), em Londrina. Patrocínios: Sercomtel, Secretaria de Cultura e Prefeitura de Londrina. Apoios: Associação Médica de Londrina e Crystal Palace Hotel.Grupo de artistas plásticos criado em Londrina abre hoje a exposição ‘‘A Poética do Risco’’, que traz também trabalhos de Amílcar de Castro
ReproduçãoFernando Augusto trabalha com as dobras do tempo usando o papel como suporteReproduçãoLélia Ferreira equilibra dobras e tensões usando um tipo de tecido sintético com transparênciasReproduçãoConsuelo Francis utiliza técnica original: sumo de limão e fogo sobre papelReproduçãoA obra de Amílcar de Castro faz parte do diálogo pretendido pelos organizadores da exposiçãoReproduçãoEdna Dias utiliza betume e óleo em suporte transparente

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