A arte e business em Cannes
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A arte e business em Cannes
Com seriedade mas também com glamour, o festival mantém a justa fama de maior e mais importante do mundo
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
ReproduçãoA Eternidade e um Dia: nobre, refinado,
intenso, formalmente elegante
A
Palma de Ouro deste ano, afinal nas mãos do grego Theo Angelopoulos, premiou aquele que foi de fato o melhor da mostra competitiva. Obra transbordante de poesia e força filosófica, A Eternidade e um Dia só foi exibido na última jornada do concurso, trazendo certa emoção a um festival recheado de trabalhos muito interessantes, mas até então sem a marca diferencial, sem a exceção que um certame com o perfil de Cannes sempre autoriza esperar. Nobre, refinado, intenso, formalmente elegante, A Eternidade e Um Dia pode não acrescentar mais novidades à filmografia do diretor de Paisagem na Neblina e O Olhar de Ulisses, filmes muito próximos se observados pelo filtro da forma e do tema. Mas ao mergulhar fundo no dia decisivo de um poeta que está a caminho do hospital, certamente para morrer, o cineasta nos dá uma inesquecível e muito íntima lição especulativa sobre o homem-aprendiz e sua busca de identidade diante do mestre maior, o tempo. Sempre preferindo expor suas idéias através de imagens, e não pelo discurso oral, o resultado é o tempo como elemento concreto e personagem principal do filme. A Eternidade e Um Dia, por outro lado, propõe discutir a criação artística vista como uma quimera essencial, alguma coisa que se busca sem cessar e que não se encontra jamais.
ReproduçãoO Rio do Ouro, de Paulo Rocha: filme é quase uma obra-primaAgora já não há nenhuma dúvida de que o melhor filme entre os quase 300 projetados em todas as seções durante 12 dias do 51º Festival de Cannes chama-se Na Presença de um Palhaço, um certo filme-testamento assinado por um certo Ingmar Bergman. É uma grande legenda e foi outra vez uma imensa ausência. Ano passado, laureado com a Palma de Ouro especial do 50º Festival, ele não pôde ir a Cannes. Não quis, na verdade. Um gesto compreensivelmente blasé, diante de um evento que jamais o premiou à altura.
A dois meses de completar 80 anos, e escolhido como alvo de homenagens o ano todo em festivais internacionais, Bergman é um dos dois últimos mestres consumados do cinema ainda vivos - o outro é Akira Kurosawa. Felizmente contrariando remotas expectativas, ele quebrou seu voto de recolhimento na ilha de Faro, afastou-se por algum tempo dos afazeres teatrais e realizou um telefilme, bancado pelo canal sueco SVT Drama. Diante da tela, foi afastada a dúvida. Nada de filistrias de um cabotino, mas o último (?) grito de um criador que não sabe conviver muito bem com o silêncio. Na Presença de um Palhaço, programado para a seção Um Certain Regard, retoma o estilo e as obsessões do autor. Crônica crepuscular, esta última obra é uma magnífica parábola sobre a vida, a morte e o espetáculo, onde aparece recriada a magia original do teatro como forma suprema de vida e liberdade.
ReproduçãoNa Presença de um Palhaço, de Ingmar
Bergman: um dos melhores do FestivalO argumento é simples. Em 1925, Carl Akerblom, inventor e amador incondicional de Schubert, é internado numa clínica pisquiátrica de Uppsala depois de ter agredido sua noiva, Pauline. Na clínica ele fica amigo de um outro paciente, Oskar Vogler, professor aposentado. Abusados, os dois homens preparam um projeto: realizar o primeiro filme falado da história, exatamente sobre a vida amorosa de Schubert. Mas na premiSre, o filme é destruído por um incêndio. Neste relato desencantado, testamentário, o conjunto das fixações está de volta: vida e morte, a presença-ausência de Deus, a angústia do criador, a magia do teatro e cenas da vida conjugal. A vida se divide no teatro, o amor é uma pantomima tragicômica e a morte não é nada mais sério que um palhaço de branco. Pode-se reconhecer aqui o Bergman de Morangos Silvestres ou de Gritos e Sussurros. Mas o que importa mesmo é que o cineasta ainda conserva o mesmo brilho, a mesma agilidade mental para continuar empreendendo a busca existencial que o consome há tantos anos.
Cannes conheceu também dois momentos privilegiados do cinema que atualmente se faz em Portugal. Ambos fora de concurso, mas exibidos sempre para grande platéias. O nonagenário Manoel de Oliveira, como de hábito muito reverenciado em Cannes, mostrou Inquietude, um filme em três episódios entrelaçados que discute, com elegância e muita fluência, o desejo latente da imortalidade. O outro filme, quase uma obra-prima , é O Rio do Ouro, de Paulo Rocha, igualmente exibido em paralelo. Mistura de tragédia antiga e conto popular, é o relato de uma paixão funesta, de um drama opaco sobre a posse e o ciúme. O talento de Rocha foi capaz de associar, numa fórmula feliz, o realismo de um Jean Renoir , o pathos da tragédia grega e o canto mais aflito da alma popular. O Rio do Ouro, que conta com uma poderosa atuação de Lima Duarte, pode ser o convidado português para participar da mostra competitiva do 26º Festival de Cinema de Gramado, este ano previsto de 8 a 15 de agosto.
Longo, confuso, desarticulado. O Corazón Iluminado, nossa esperança em Cannes, nosso presumido grande impacto pós-Central do Brasil, parou de bater com meia hora de projeção. O grande problema do filme semi-autobiográfico de Babenco é o roteiro, a (in)disposição do material, a desarticulação da narrativa, que pedia, exigia quase, um grande, tradicional, inofensivo e via de regra eficiente flashback. Que não aparece jamais, ao contrário do que a sinopse divulgada no Festival fazia prever. Marcado pela reação da platéia - silêncio glacial temperado por muitas vaias -, no dia seguinte o cineasta ficou diante dos jornalistas em atitude francamente defensiva, quando não agressiva. Agora, de cabeça mais fria, não seria nada mal uma mexida generosa, tesoura em punho, e daí quem sabe, até acrescentar algum material que possa redirecionar um pouco as coisas.
O Festival de Cannes alcançou o status de que desfruta hoje graças à feliz combinação de fatores, fortemente balanceados. Durante duas semanas, o festival propriamente dito oferece cerca de 50, 60 filmes, entre todas as seções consideradas seleção oficial. Este, digamos, é o segmento-cabeça - a produção artística de todo o mundo, considerada mais ambiciosa do ponto de vista estético ou temático, é reunida e avaliada durante processo de julgamento rigoroso. Esses filmes, conforme a repercussão, voltam a seus países já com valores praticamente definidos. Comercialmente, filmes laureados em Cannes têm suas chances aumentadas no mercado internacional, mas nada que transforme seus realizadores em homens ricos.
O Mercado Internacional do Filme é uma grande bolsa de valores - e cada ano aumenta mais, em número de participantes, em estréias mundiais e em volume de dinheiro envolvido nas transações. Distribuidores e exibidores do mundo inteiro gravitam em torno de filmes prontos, filmes em processo de andamento, filmes em pré-produção e filmes que ainda são apenas uma idéia na cabeça de alguém e um grande pôster afixado no canteiro central do Boulevard de la Croisette. Só este ano, o MIF recebeu 4.255 profissionais representando 1.421 sociedades pertencentes a 71 países. A crescente expansão do Mercado pode ser largamente atribuída ao sucesso de sua atividade principal: a informação. Este ano, além do alentado Guia, foi pela primeira vez editado um CD-ROM.
E depois tem o layout da cidade, não tão bela quanto Veneza - que sedia o segundo maior festival - mas charmosa o suficiente para oferecer aquele ponto de equilíbrio entre trabalho e prazer, descontração e formalidade, arte e business. O nível cultural permanece alto, o que não impede que o MIF seja a cada ano ainda mais desenvolvido e incrementado.





