A arte é a mais louca das mulheres. Se dá nas praças e nos teatros, se dá nos circos, se dá como um alvo para o atirador de facas. A arte é uma bailarina descalça, sem pudor de exibir a intimidade, os vãos dos dedos, as longas pernas que nos fazem saltar de continente em continente. A arte usa as máscaras da dramaturgia, finge sentimentos, expõe emoções, retira as vísceras da platéia.
A mim interessa o corpo e a alma da arte, não sua moral. A mim interessa sua beleza, seus olhos de Madame Butterfly, a feminilidade da sua Casa de Bonecas, os figurinos de black-tie, seus strip-teases. Me interessa, sobretudo, sua velocidade, mesmo quando leva nossos desejos num bonde e trafega na Broadway e no Piccadilly Circus, na Opéra Bastille e na Praça Roosevelt, na Avenida Corrientes e nas ruas sujas de Havana.
A arte é a maravilha que nos leva a uma viagem intimista, quando as luzes se apagam e a vida ganha contornos de irrealidade, enquanto sonhamos os sonhos de Fellini. A arte são páginas da literatura com direito ao avesso da história, porque a arte é nossa memória.
Se todas as pessoas fizessem pactos com a arte, a vida teria um colorido extra, seria uma colagem lúdica. Num poema de Fernando Pessoa seu heterônimo se deita na relva para ver as nuvens e seus próprios pensamentos. Porque assim, invertidos, os pensamentos descem e assentam na mente, como as emoções. Por causa deste poema me transformei numa pastora e encontrei uma ovelha no céu. Ela tinha olhos redondos e uma pequena orelha. Num dado momento, seu focinho azulou e lá se foi minha ovelha, para nunca mais, porque existem artes que só cabem no instante, que nos fazem sonhar de olhos abertos, fotografar com palavras, para que as coisas não fujam para o reino da linguagem sem replay.
A arte é a sutileza das gravuras da China, o esplendor de Matisse, a convulsão de Dalí. É a tristeza de Billie Hollyday e o arrebatamento lírico de Jessie Norman. Plumas e pássaros na garganta.
A arte me abstrai e encanta, em linguagens que me deixam em transe como pitonisa que vê o futuro nas ruínas gregas. Cassandra ensandecida em Tróia, antevendo o trágico, saltimbanco nas festas de Roma, revivendo o mágico, bacante que se apaixonou por Dionísio.
Paisagem vasta, a arte, a arte me arrasta, como a mais louca das mulheres dançando nos cabarés, misturando as línguas, oferecendo amor a qualquer
preço, fazendo sexo para recriar o mundo.

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