A arte de viver do circo
Companhia Tangará desenvolve projeto que oferece bolsas para alunos de baixa renda e abre inscrições para uma oficina de circo para mulheres
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 2020
Companhia Tangará desenvolve projeto que oferece bolsas para alunos de baixa renda e abre inscrições para uma oficina de circo para mulheres
Laís Taine - Grupo Folha 
Malabares, acrobacias, contorcionismos. Os admiradores das artes circenses puderam assistir ao treino aberto da companhia de circo Tangará, realizado na tarde de domingo (23), no Aterro do Lago Igapó. A proposta é divulgar as atividades da companhia e promover integração entre a população e a arte circense da cidade com a participação de alunos bolsistas de projeto social desenvolvido pelo grupo.
A companhia existe há 13 anos, mas foi no ano anterior que conseguiu seu próprio espaço, no Barracão Tangará (leste). “A gente sempre quis ter a nossa sede e tinha essa necessidade depois de tantos anos dependendo da cessão de espaços de centros sociais”, menciona Pedro Queisada, coordenador da companhia. No mesmo ano, conquistaram também o patrocínio da Havan, por meio do Profice (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura).
O recurso possibilita custear o aluguel do barracão durante 12 meses, comprar alguns materiais e ainda destinar 10 bolsas para integrantes da companhia. “É um projeto de manutenção do grupo para que tenhamos melhor desempenho. Em contrapartida, nós faremos 20 apresentações gratuitas: 10 no Barracão e 10 nas escolas”, revela.
Uma profissão
O grupo também promove aulas de artes circenses e faz shows e eventos dentro e fora da cidade, mostrando a possibilidade de sonhar com a profissão. “Somos uma empresa com CNPJ. De 13 pessoas atuando hoje, 8 trabalham em eventos e são remunerados com cachê. Em alta temporada, movimentamos 80 empregos indiretamente, entre transporte, costureiras, fornecedores, segurança. O circo abrange muitas pessoas”, argumenta.
Apaixonado pelo trabalho, Queisada quer provar que é possível que mais pessoas vivam dessa arte. “Adolescentes de regiões carentes têm pressão muito grande para que trabalhem nos anos finais do colégio e os pais não veem o circo como opção de trabalho, não é visto como profissão, mas a gente quer mostrar o quanto o circo tem seu potencial”, defende.
Para que isso aconteça, ele acredita que as empresas precisam olhar com mais cuidado para os serviços oferecidos na cidade, salientando que a arte tem se modernizado. Além de espetáculos, existem frentes de trabalho que vão desde terapia a modalidade esportiva. “Hoje o circo entrou nesse conceito de saúde e bem-estar e de fato é uma atividade incrível, que trabalha disciplina, concentração, movimenta o corpo e não exige que a pessoa seja atleta e magra, existem muitas formas de a pessoa se encaixar. O circo é para qualquer pessoa”, aponta.

O coordenador acredita no crescimento das artes circenses, mas enquanto isso não acontece, ajuda pessoas a sonharem com a atividade que ele afirma ter potencial. Com as bolsas, deseja que os jovens sonhem com a profissão e que sejam felizes com essa escolha, como ele é. “Eu mesmo não me vejo fazendo outra coisa”, sorri.
Artista circense com orgulho
Gleisson Rodrigo Mesquita de Melo, 20, conheceu as artes circenses quando criança no projeto do Centro Social Marista Irmãos Acácio, na zona norte. A intenção do centro era trazer atividades gratuitas para crianças de baixa renda, mas Melo gostou tanto, que continuou a participar de oficinas na área mesmo quando atingiu a idade máxima coberta pelo projeto.
“Com 13 anos eu fui para outra oficina gratuita na região e depois fiz o curso técnico em artes circenses”, conta. Nesse período, já conhecia as apresentações do grupo de circo do qual ele faz parte hoje. “Naquela época eu já tinha na minha cabeça que queria fazer parte do grupo”, conta. A intenção seria levar a atividade como uma profissão.
Hoje faz 5 anos que Melo faz parte do grupo, mas diz que não é fácil se manter na atividade. “Trabalhar com arte não é fácil, a gente tem que se virar. Já fiz entregas, fui servente de pedreiro, garçom, pintor e já fui trabalhar no sinal também”, aponta. A última experiência ele carrega como aprendizado. “Quando estava precisando, meu último recurso era isso. Queimar a cabeça no sol. Algumas pessoas são receptivas, outras não, um ou outro abaixava o vidro do carro e falava: ‘vai trabalhar, vagabundo!’”, conta.
Hoje, o jovem recebe uma bolsa no grupo Tangará e dá aulas de circo em uma escola em Ibiporã, com isso, consegue viver só do que ele mais ama. “Hoje eu vivo da arte circense e fico orgulhoso disso. Não é nem pelo dinheiro, mas pelo o que eu faço, vejo sorriso na cara das pessoas” aponta. Apesar de ter conquistado, sabe que não é a realidade para muitos. “Ainda é difícil bancar uma casa trabalhando com arte”, lamenta.
Para ele é preciso que as pessoas se atentem mais para as artes e vejam com outros olhos, de que é possível empregar, movimentar a economia, dar trabalho e renda ao mesmo tempo em que se leva cultura à população. “É levar alegria, sorriso para as outras pessoas. É bonito ver criança e adulto com acesso à cultura, porque quando eu era pequeno não tinha isso”, compara.
Malabarismos para seguir o sonho
Pegar um ônibus no patrimônio Selva (sul), chegar antes das 8h no Barracão Tangará (leste), treinar a manhã toda e voltar para o sítio onde vive com a mãe e o padrasto. Movido pela paixão por circo, Danilo Dias, 19, faz esse trajeto todos os dias na esperança de se tornar um profissional na área.
Atualmente, recebe bolsa em um projeto de artes circenses para que continue praticando a atividade em que se descobriu há anos. “Conheci as artes circenses quando era criança em um projeto social no ‘Cincão’ (norte), onde eu morava. A minha irmã foi a primeira a fazer. Ela fazia contorcionismo e eu achava aquilo muito massa”, recorda com sorriso no rosto. E iniciou na mesma atividade e alimentou o desejo de seguir a profissão.
Caçula de cinco filhos de mãe solteira, a ordem regular era que quando terminasse o colégio já deveria estar empregado, mas ninguém considerava o circo como uma possibilidade de atividade remunerada. Morando com um dos irmãos, precisou buscar outras formas de renda. "Eu fui durante um período trabalhar em uma estufa de tomate para ajudar nas despesas. Tive que sair do curso e mesmo assim tivemos que entregar a casa. Meu irmão foi morar com a nossa irmã mais velha e eu com uma tia”, conta.
A mãe havia mudado para o Patrimônio Selva (sul), mas era a principal incentivadora. “Ela sempre disse que se era o que eu amava, para continuar tentando, que iria dar tudo certo”. Foi para a casa dela que ele voltou, largando definitivamente o curso gratuito, até surgir a oportunidade como bolsista no Barracão.
A proposta é se tornar um profissional. “Espero continuar aqui e ajudar a minha mãe, ela é a pessoa que mais me incentiva. Quando tem evento e eu recebo cachê, ajudo ela, compro alguma coisa”, afirma. O caminho para o sonho. “É o que eu quero e o que eu gosto de fazer.”
Oficina para mulheres
O Barracão Tangará Arte e Cultura de Londrina também está com as inscrições abertas para Oficina de Circo para Mulheres, que será realizada no dia 14 de março (sábado), a partir das 14h. A inscrição custa R$ 10,00 e pode ser feita através do WhatsApp: (43) 3354-5454. O Barracão Tangará fica na Rua Augusto Severo, 544. A iniciativa é uma homenagem ao Dia da Mulher.


