A arte de viver
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de janeiro de 1998
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Que ridículo!
Suicidar-se
por conta de
uma meleca
de nariz
A vida apresenta dificuldades em toda sua extensão existencial, do parto ao último suspiro. Tudo indica que o encontro de cada homem com essas dificuldades, e, se possível sua superação, contribui para uma respiração tranquila. Mas quando estas mesmas dificuldades encurralam as pessoas num beco sem saída aparente, o desespero da derrota joga-lhes numa caixa escura e a vontade de morrer aparece como solução imediata.
A temática do suicídio, mesmo sendo tabu, é vastíssima na literatura mundial. A morte como uma opção de desligamento, de eliminação de todos os problemas e dificuldade, o ponto final como escolha pessoal e intransferível. Aquilo que alguns apontam com fuga e covardia, aquilo que outros consideram como ato de coragem e lucidez.
Considerado um assunto adulto, delicado e perigoso, compreensível apenas para o mundo adulto, a temática da morte, e mais especificamente do suicídio, é rara nas obras destinada ao público infantil e infanto-juvenil.
O escritor alemão Patrick Suskind - autor do cultuado romance O Perfume - não deu muita atenção ao perigo e escreveu uma belíssima história enfocando o suícidio e a morte existencial para o leitor infanto-juvenil. A História do Senhor Sommer, publicado pela Editora Ática com ilustrações do desenhista Jean-Jacques Sempé, é contada em estilo autobiográfico com humor e ternura. Uma história que pode ser vista como parábola sobre a difícil arte de se tornar adulto.
A História do Senhor Sommer é narrada por um garoto de oito anos de idade que vive numa pequena cidade alemã no período do pós-guerra. Seu maior divertimento é subir em árvores. É o que sabe fazer de melhor, qualquer tipo de árvore de qualquer altura. Seu cotidiano é ir à escola, andar de bicicleta e passear pelos bosques das redondezas. Possui alguns problemas como ser desprezado pela menina que gosta na escola e morrer de medo de ultrapassar carros ou pessoas com sua bicicleta.
Em suas andanças, sempre encontra pelo caminho o estranho senhor Sommer, homem de poucas palavras, enigmático, estranho, solitário, excêntrico e, de certa forma, lunático. Um estranho velhinho que não faz outra coisa a não ser andar, andar e andar. Dificilmente dirige a palavra a alguém e quando tentavam puxar conversa, resmunga frases inteligíveis.
Era um homem em eterno movimento. Saía de casa antes do sol nascer e se punha a andar pelas estradas do vilarejo. Quando chegava ao final das estradas, dava meia volta e fazia o caminho de volta. De caminho em caminho, indo e voltando, percorria a região diariamente com pequenas pausas para o almoço que carregava na pequena mochila. Sempre em companhia de seu cajado, fazia sol ou chuva, frio ou calor, tempestades ou furacões, senhor Sommer andava incansavelmente. Com o tempo a cidade acabou-se acostumando com sua excêntrica presença. Os adultos não ficavam mais de cabelos em pé, as crianças se acostumaram com aquele vulto andando nos horários e locais mais improváveis.
O jovem narrador sentia-se intrigado com aquela figura. Senhor Sommer povoava seus pensamentos. Perguntava-se por que aquele homem agia daquela maneira. Sua suspeita era de que sofria de claustrofobia, por isso precisava ficar andando sem descanso.
Numa de suas aulas de piano, ministrada por uma velha ranzinza chamada senhorita Funkel, o garoto depara-se com uma situação limite. Entre os berros da professora percebe um pedaço de meleca exatamente sobre a tecla que precisava tocar: Eu olhei para o fá sustenido e empalideci. Na ponta da tecla estava colado um pedaço de meleca viscosa e fresca, mais ou menos do tamanho de uma unha, grosso feito um lápis, com aspecto de verme retorcido, luzidio e amarelo-esverdeado, obviamente procedente do nariz da Senhorita Funkel.
Ao tocar sua lição, fez de tudo para não utilizar a tecla suspeita, errando sucessivamente a música. A professora explode num acesso de raiva, expulsando aos gritos o garoto da aula. Deprimido e revoltado, sente todo o mundo conspirando contra ele, um mundo horrível repleto de pessoas horríveis. A idéia de dizer adeus a tudo, de se matar, pareceu-lhe reconfortante: Tão logo me ocorreu essa idéia, senti o coração mais leve. A idéia de que bastava despedir-me da vida - como se descreve simpaticamente esse acontecimento - para me livrar de uma só vez de todos os horrores e de todas as injustiças tinha algo de infinitamente reconfortante e libertador. Minhas lágrimas secaram. Os temores cessaram. Ainda havia uma esperança para mim.
Seu plano consistia-se em subir na árvore mais alta da região e se jogar lá de cima. Escolheu a árvore, subiu o mais alto que pôde e ficou pensando em seu velório com todos chorando consumidos pela culpa. Eis que nesse exato momento o senhor Sommer aparece sob a copa da árvore para realizar seu rápido almoço e continuar a caminhada. Apreciando, escondido, as ações do senhor Sommer do alto da árvore, o garoto sente um tremor na espinha: De repente, já não tinha a menor intenção de me atirar no abismo. Que ridículo! Já nem sabia como havia tido uma idéia tão idiota: suicidar-se por conta de uma meleca de nariz! E eu acabara de ver um homem que passava a vida inteira fugindo da morte.
Depois de alguns anos, com 15 anos de idade, o garoto vê o senhor Sommer pela última vez. Nesta dia é o velho que caminha para o suicídio e o garoto assiste em silêncio. Não pronuncia nenhuma palavra, não esboça nenhum gesto. Apenas fica remoendo a frase repetida inúmeras vezes pelo senhor Sommer quando importunado: Deixem-me em paz de uma vez por todas!...
Patrick Suskind coloca o sofrimento como fato concreto na vida de todas as pessoas e a superação deste sofrimento como busca infindável acompanhada de reflexão existencial. Em maior ou menos grau, cada um procura o modo que parece-lhe mais conveniente para eliminá-lo. A escolha de uma entre centenas de possibilidade apresenta-se como questão individual.
A História do Senhor Sommer de Patrick Suskind, Editora Ática, ilustrações de Jean-Jacques Sempé, tradução de Samuel Titan Jr., 70 páginas, R$ 15,00/Livraria Rosa do Povo.


