Ana Miranda: "Tudo é um processo de reconstrução, porque o autor não inventa nem as palavras"
Ana Miranda: "Tudo é um processo de reconstrução, porque o autor não inventa nem as palavras" | Foto: Fotos: Gustavo Carneiro



É num povoado de jangadeiros e pescadores de Prainha de Nossa Senhora dos Navegantes, no município de Aquiraz (situado a 30 quilômetros de Fortaleza), que a escritora Ana Miranda vive atualmente, de frente para o mar. "Dizem que todo cearense sai e que todo cearense volta", conta, sobre o retorno há dez anos à cidade natal e às origens. Lá, morou até os 4 anos de idade, depois foi "arrancada" para Brasília. Seguiu ainda para o Rio de Janeiro, onde passou grande parte da vida e São Paulo, uma cidade de muitas ofertas culturais, "mas massacrante", em suas palavras. "Havia uma necessidade interior muito forte de voltar. A sensação é de que se não voltasse, eu morria. Talvez tenha sido um chamado marítimo, porque eu sempre vivi perto do mar, mas estava longe nos últimos anos." Ana, que veio a Londrina recentemente para o Festival Literário Londrix, no qual deu palestra na última quarta-feira (23), conversou com a FOLHA.

A casa em que vive, descreve ela, é uma pequena chácara com nove coqueiros e outras tantas árvores de frutas das quais come diretamente do pé, local em que divide o tempo entre o silêncio, a amplidão e a contemplação. "Não dá vontade de escrever. Quero ir à praia, tomar água de coco, ficar admirando a natureza. Mas me ajuda, sim, pois o mundo está todo ali, ao alcance dos meus olhos. Minha casa tem uma pilar de madeira, formando uma quina, que parece uma proa de um navio. Sinto que o Brasil todo está atrás de mim", confessa, aos risos – tom que permeou a conversa leve e agradável que humaniza a imagem da premiada escritora -, sobre o cenário propício para a inspiração e o processo criativo idealizado por dezenas de pessoas. A distância do caos da cidade grande e o recolhimento, então, trouxeram, além das frutas frescas e da brisa do mar, mais tempo para si, mais tempo para sua obra.

Obra cuja lista é longa: 29 títulos acompanhados de outras dezenas de prêmios importantes, incluindo o desejado Jabuti. Logo no primeiro romance, "Boca do Inferno", a escritora alcançou um fenômeno como revelação. "Fiquei muito assustada e não imaginava que aconteceria. Ficava dizendo a mim mesma: Isso aí não é nada, não significa nada, ainda tenho toda uma vida de trabalho pela frente." Pés no chão e cabeça nos sonhos, no mundo onírico, é autora de vários sucessos. A maioria deles, romances, traduzidos em vários países. Em sua obra, a literatura brasileira e os autores são muitos mais que personagens; a obra que produziram é matéria-prima. Mas, ainda que sejam livros ficcionais, existe uma base de realidade histórica que é respeitada, transformada em elemento da narrativa. As ilustrações, de sua autoria, complementam com a linguagem visual.

Imagem ilustrativa da imagem A arte de viajar com as palavras



INTERTEXTUALIDADE
Ana Miranda, portanto, "brincou" com as palavras - deles e as próprias - e criou outro universo para autores como Gregório de Matos, Clarice Lispector, Gonçalves Dias, José de Alencar. "É um processo de intertextualidade com esses personagens que são dos meus livros. A obra deles está ali, ela constrói, inclusive, os diálogos. Eu faço um trabalho de montagem com as próprias palavras deles. Para mim, foi um processo difícil de adaptar. Estava 'roubando' as palavras deles mas, ao mesmo tempo, se não usasse as palavras, estaria traindo-os, porque eles disseram aquilo. Fui descobrindo que a intertextualidade é uma grande tradição na literatura e está presente na minha literatura. Tudo é um processo de reconstrução, porque o autor não inventa nem as palavras."

E o conhecimento profundo da obra de cada um trouxe uma relação tão íntima e próxima que se perpetua durante todos esses anos. "Eles se tornaram meus amigos, meus ex-maridos. Me perguntam se eu fui amante do Gregório de Matos. Digo que fui. E do Padre Antonio Vieira? Não, do padre, não. Ele foi um santo", ri, mais uma vez. Ana também deu voz às personagens e à temática feminina, muitos anos antes do termo empoderamento ganhar força nesse século. Seu mais recente trabalho, a biografia "Xica da Silva - Cinderela Negra", lançada há poucos dias, traz o canto dos escravos que nos transporta para o Brasil do século 18; uma realidade de fidalgos, de cantos africanos e rezas católicas reconstroem a vida dessa personagem da história brasileira. "As mulheres são seres maravilhosos. Xica mostra o poder feminino, deixa de ser escrava para ser rainha de si mesma."

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