Assunção Zagalo, 27 anos, trabalha há seis anos com restauração e conservação de azulejos. Trabalho delicado e que exige muita concentração. Tem nas mãos e à vista peças historicamente valiosas. Todas com alto valor no mercado das artes. Algumas nem preço têm. Imposível comercializá-las. Assunção Zagalo é portuguesa e, no país onde saudosimo é sinônimo e adjetivo para caracterizar as pessoas, seu trabalho é reconhecido e respeitado.
Em Londrina há 20 dias para visitar amigos e no Brasil pela primeira vez, Assunção explica que os primeiros ensaios do que viriam a ser os azulejos de hoje começaram no século XII nos países árabes, predominantemente Turquia, Espanha, Inglaterra e Portugal. Só que aquelas peças não eram esmaltadas. Isso começou a acontecer a partir do século XVI, na Turquia. Em Portugal, as primeiras olarias datam do final do século XVI, e vem deste século a Técnica da Majólica, que é a pintura sobre vidrado estanífero (de estanho). Essa é a técnica usada até hoje, mas o estanho foi substituído por materiais mais baratos, como o silicato de zircônio.
A grande produção de azulejos portugueses aconteceu no final do século XVII e no XVIII. Na primeira fase eram essencialmente coloridos, por influência dos objetos trazidos da Índia e, no século XVIII, por influência das porcelanas chinesas, azuis e brancas. Quanto à produção em larga escala, que teve seu estouro a partir de 1735, o que se pode dizer é que azulejos eram, e continuam sendo, um revestimento barato, se comparado com madeira ou pedra. Hoje em dia, os portugueses continuam produzindo bastante, mas reproduções dos séculos XVII e XVIII, poucas pessoas podem ter.
Classificação Os desenhos dos azulejos portugueses são classificados em três tipos: Padrão : repetição de desenhos geométricos (séc. XVII e XVIII), ornamentais : flores, caracóis e vasos (séc. XVI e XVIII) e figurativos : pessoas e animais (séc. XVII e XVIII). No século XVIII aparecem dois tipos de desenhos peculiares. São a figura de Convite e Trompe L’oeil (enganar o olho). Este último eram desenhos feitos quando era necessário ter uma compensação arquitetônica. Os desenhos funcionavam como ilusão de ótica. Por exemplo, pintavam-se janelas e portas para dar a ilusão de existirem de verdade. As Figuras de Convite eram desenhos em tamanho natural de pessoas, que eram colocados à entrada das casas. Uma maneira polida e poética de convidar as pessoas a entrarem e dizer que eram bem-vindas. Talvez venha daí a vontade de ficar ou voltar que muitos estrangeiros sentem ao visitar o país.
Assunção aproveitou sua estadia em Londrina para trocar experiências com artistas plásticos da cidade. Deles recebeu informações e, da sua parte, mostrou como se faz um azulejo. Basicamente em três fases: com a argila, preparam-se os quadrados (chacotas); depois essas peças são cobertas com vidrato em pó e, por último, pintadas e cozidas. O que mais impressionou Assunção foi a qualidade da argila da região e a possibilidade de cozer as peças em fornos à lenha, pois em Portugal usa-se forno elétrico. ‘‘Com esse material em mãos, mais a criatividade e capacidade de adaptação que esses profissionais daqui têm, é possível fazer trabalhos muito bons. Essas pessoas mostraram ter sensibilidade ao uso do material’’.

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