A ARTE DE ESCULPIR PELÍCULAS
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de novembro de 2001
Rodrigo Souza Grota<br>De Londrina 
Ela é uma das melhores diretoras de arte do País. Possivelmente a melhor. Reúne em sua filmografia trabalhos com os nossos melhores cineastas - Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e Luiz Fernando Carvalho. Está em Londrina há cerca de cinco meses pesquisando a história da região norte do Paraná. Já sabe quem é? Yurika Yamasaki, diretora de arte de ''Gaijin 2'', filme que será rodado em Londrina e região entre fevereiro e abril do ano que vem.
Certamente o leitor está confuso. Que faz uma diretora de arte durante a produção de um filme? A resposta não é simples, mas digamos que ela é responsável pela ''cara'' do filme, o que implica uma supervisão no que se refere ao figurino dos personagens, coerência histórica, cenografia e locações. É a diretora de arte que sugere ao fotógrafo qual locação possibilitará melhores enquadramentos, é ela que determina como os personagens irão se vestir e como devem interagir com o cenário.
Esses elementos passam desapercebidos para maioria dos espectadores, mas como poderíamos assimilar o pudor dos personagens de ''Os Maias'' sem considerar suas vestimentas; o obscurantismo moral em que se angustia André (Selton Mello), em ''Lavoura Arcaica'', ignorando o quarto escuro e seco em que passa a maior parte de seu lamento; a casa ''arrumada como pode'' do casal Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri em ''Eles Não Usam Black-Tie''? São elementos essenciais para a compreensão dos personagens, e é Yurika quem dá essa coerência às obras de que participa.
Curiosamente, ela deu seu primeiro passo no universo da sétima arte sem nunca ter visto uma câmera. ''Fazia faculdade de educação artística e artes plásticas na FAAP, em São Paulo, e minha irmã Tizuka me convidou para trabalhar no filme 'Tenda dos Milagres', de Nelson Pereira dos Santos''. O ano era 1976, e Yurika tinha apenas 24 anos. No entanto, ela trancou o curso que fazia e desde então nunca mais se distanciou do ofício cinematográfico.
Dois anos depois, participou daquele que é o filme mais profético e polêmico de Glauber, ''Idade da Terra''. Qual a diferença entre dois de nossos mestres, Nelson e Glauber? ''O set de Nelson é bem mais organizado, tranquilo. Sabíamos o que iria ser filmado e tudo transcorria de maneira ordenada. Com o Glauber era tudo muito imprevisível. Ele criava incessantemente e era difícil para a equipe acompanhar tamanha explosão criativa''.
No ano seguinte, Yurika trabalhou com a irmã Tizuka, dois anos e meio mais velha. Fizeram o que é provavelmente o melhor trabalho de Tizuka, ''Gaijin - Caminhos da Liberdade''. Imediatamente seu trabalho foi reconhecido - melhor cenografia no 8º Festival de Gramado (RS) e melhor direção de arte na avaliação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Em 1980, Yurika elaborou os figurinos e ajudou a construir o story board (desenhos de produção) para ''Eles Não Usam Black-Tie'', obra-prima que Leon Hirzsman adaptou de peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri. Em 81, dois projetos - ''Rio Babilônia'', de Neville de Almeida, e ''Os Vagabundos Trapalhões'', filme que inicia uma longa colaboração com o quarteto liderado por Renato Aragão.
Surge então em 1982 mais uma parceria com a irmã Tizuka, ''Parahyba Mulher Macho'', produção que rendeu a Yurika dois prêmios: o de melhor cenografia e figurino na avaliação da APCA e o de melhor cenografia no Festival de Brasília. No mesmo ano, ela também é reconhecida por ''Rio Babilônia'', levando um kikito pela cenografia no 11º Festival de Gramado.
Nessa época era criada a Ponto Filmes, uma produtora cinematográfica dirigida por Tizuka, Lael Rodrigues e Cacá Diniz. Aliás, Cacá, produtor de ''Gaijin 2'', é casado com Yurika até hoje. Os dois mantêm duas produtoras no Rio de Janeiro, a Ponto Filmes e a CPC, produtora responsável por ''Gaijin - Caminhos da Liberdade''.
Nesses últimas duas décadas, Yurika acabou participando de muitas produções. Só com os Trapalhões e a apresentadora de TV Xuxa ela trabalhou em nove filmes: ''Os Fantasmas Trapalhões'' (87), ''Super Xuxa Contra o Baixo Astral'' (88), ''Os Heróis Trapalhões'' (88), ''O Casamentos dos Trapalhões'' (88), ''A Princesa Xuxa e os Trapalhões'' (89), ''Os Trapalhões na Terra dos Monstros'' (89), ''Lua de Cristal'' (90), ''Xuxa Requebra'' (99) e ''O Trapalhão e a Lua Azul'' (99). Mas também se manteve em trabalhos com baixo orçamento, como ''Bete Balanço'' (83), de Lael Rodrigues; ''Por Incrível Que Pareça'' (83), do italiano Humberto Molo; ''Patriamada'' (84), de Tizuka; ''Rock Estrela'' (85), de Lael; ''Sexo Frágil'' (86), de Jessel Buss; ''Leila Diniz'' (87), de Luís Carlos Lacerda. Em 84, participou da gravação de um videoclipe com Jimmy Cligg.
O leitor deve estar pensando - essa mulher trabalhou muito! Mas além do cinema, Yurika tem ainda um trabalho notável em teledramaturgia, sempre na TV Globo. Novelas fez duas, ''O Rei do Gado'' (96), dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e ''Esplendor'' (2000), conduzida por Wolf Maia e Maurício Farias. Minisséries também fez duas - ''Hilda Furacão'' (97) e ''Os Maias'' (2001).
Seu último trabalho em cinema foi ''Lavoura Arcaica'', primorosa adaptação que Luiz Fernando Carvalho fez do romance homônimo de Raduan Nassar. Yurika conheceu o diretor há alguns anos quando trabalhou em um episódio da Terça Nobre, da Globo, uma adaptação de ''A Farsa da Boa Preguiça'', de Ariano Suassuna. Firmaram-se então três parcerias, todas muito sólidas. Ela não viu ainda a montagem final de ''Lavoura...'', mas sabe que Luiz Fernando é perfeccionista, e que o visual deve ter ficado deslumbrante.
Alguma diferença entre elaborar a direção de arte para cinema ou para a TV? Não muita, diz Yurika, ''ocorre mais quando se muda o formato da película''. E quanto às influências? Yurika segue alguma linha estética? ''Não. Acredito que cada trabalho exige uma reflexão e por isso gosto de criar coisas diferentes''.
Em cenas presenciadas pela reportagem, pôde se constatar a relação de Yurika com a produção do filme. Em alguns momentos, ela tem de resolver questões práticas, o que geralmente o público não imagina que um diretor de arte também faça: ''Eu acho que o artista tem de produzir também, não é só ficar olhando, tem de resolver os problemas. Pois assim ele consegue entender melhor a sua proposta e depois convence melhor o produtor de sua idéia'', afirma.


