Carlos Daniel Reichel fala sobre Spike Lee: "Eu entrava no escritório como um fã, mas saia como aluno e colega profissional, o importante era entender como ele me ajudaria com o roteiro"
Carlos Daniel Reichel fala sobre Spike Lee: "Eu entrava no escritório como um fã, mas saia como aluno e colega profissional, o importante era entender como ele me ajudaria com o roteiro" | Foto: Divulgação



A arte milenar de contar boas histórias, atividade desenvolvida pelos roteiristas no meio cinematográfico, tornou-se imprescindível no mundo contemporâneo dominado por produções audiovisuais que englobam filmes, séries, games, propagandas e documentários, entre outros gêneros. Neste final de semana, o catarinense Carlos Daniel Reichel - um dos mais promissores profissionais do setor - está na cidade para compartilhar com os londrinenses suas experiências na área, incluindo a convivência com nomes consagrados do cinema como o lendário cineasta Spike Lee.

Reichel foi convidado pelos curadores do 19º Festival Kinoarte de Cinema – que termina neste fim de semana - para ministrar a oficina "Storytelling: Drama e Roteiro de Cinema", programada para a noite da última sexta-feira (24) e a manhã deste sábado (25). Entre os tópicos do evento, o roteirista vai abordar não só a arte de contar histórias (storytelling, em inglês), como também conceitos consagrados do drama e da escrita para cinema e televisão.

O catarinense cursou mestrado em escrita dramática na New York University, uma das mais conceituadas instituições do planeta, onde desenvolveu projetos sob supervisão de Annie Baker, Walter Bernstein e Spike Lee. Reichel co-escreveu e dirigiu os curtas "Quinta Coluna" e "Garoto VHS", ambos exibidos e premiados em festivais dentro e fora do Brasil. Escreveu e dirigiu o documentário "Vale Tombado", sobre o tombamento histórico dos bairros Rio da Luz e Texto Alto, em Santa Catarina, além de assinar a adaptação cinematográfica do livro infantil "A Flauta Mágica" e os roteiros do projeto documental "Jaraguá do Sul 2026". Atualmente prepara seu primeiro longa de ficção, cujo projeto foi vencedor do Edital Catarinense de Cinema.

Em entrevista à FOLHA, o catarinense falou sobre o atual cenário cinematográfico nacional.

Qual a importância do roteirista nas produções audiovisuais?
A importância é grande. Quanto melhor for o drama no papel, menos problema você terá na hora de rodar. Cinema, narrativas dramáticas, buscam contar histórias e atrair a atenção do espectador através de conflito, jornadas e personagens. Ou seja, quanto mais atenção você investe na criação das páginas, melhor para o espectador depois.

Como você avalia o mercado nacional em relação a estes profissionais?
O mercado audiovisual brasileiro nos últimos anos vem notando a importância do roteirista e há um consenso da necessidade de se investir em dramaturgia. Canais a cabo e serviços de streaming, investem pesado em produções seriadas, o que sempre é bom para quem escreve, significando emprego e possibilidade de melhorar como roteirista.

O que é imprescindível para desenvolver um bom roteiro?
Eu acredito muito no poder emocional de uma narrativa, sempre miro nesse detalhe. A ideia, o famoso "e se" algo acontecesse, ou um bom personagem também ajudam, claro. Contudo, no final do dia, sempre me pergunto qual a ressonância emocional do que vi, tanto para o bem como para o mal, histórias com finais felizes ou menos felizes. Particularmente acredito que o cinema é o melhor espelho que existe, você conta uma história, diverte, às vezes faz chorar, mas acaba mirando mesmo no público, onde ele se reconhece e entende algo novo. A regra número um continua sendo "não ser chato", mas se com isso você consegue ainda mover alguma emoção, acho perfeito.


Como foi sua experiência com Spike Lee e outros cineastas consagrados?
Meu contato com o professor Spike Lee foi importante por vários fatores, talvez o maior pela desmistificação do profissional e da imagem de diretor famoso que ele carrega. Eu entrava no escritório como um fã, mas saia como um aluno e colega profissional, onde o importante era entender como ele me ajudaria com o meu roteiro. Ele, apesar de filmes politicamente engajados, estava sempre de olho na jornada emocional dos personagens, em começos e finais. Um dia ele disse que meu roteiro tinha muitos furos e apontou algumas soluções, principalmente por entender e pesquisar muito sobre o Brasil e gostar muito do nosso país. Tive contato também com o grande Walter Bernstein, que aos 95 anos foi meu professor de roteiro. O Walter trabalhou com grandes estrelas, de Sidney Lumet a Woody Allen e, apesar da idade, tinha uma das mentes mais curiosas e afiadas que já vi. Outra professora importante foi a Annie Baker, vencedora do Prêmio Pulitzer e grande autora de teatro. O contato profissional com grandes nomes foi importante e um lembrete de que no final do dia todos somos escritores e queremos passar nossa história pra frente, tendo que conviver com os mesmos prazeres e incertezas.

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