A ARTE DE ESCREVER IMAGENS
Grafite. Uma forma de expressão artística ou um ato de vandalismo? A natureza ilícita de se apropriar de propriedade alhelia retira do grafite sua vertente plástica?
Há alguns anos, boa parte da população encarava os grafiteiros como meros marginais. Não que o estigma tenha desaparecido, mas a arte do grafite já se diferencia claramente da simples pichação. Nos EUA, essa visão errônea já está sendo desfeita, a começar pela denominação dos desenhos, chamados de Aerosol-Art (arte dos aerossóis). Em São Paulo e em Brasília, muitas pessoas contratam grafiteiros para fazer desenhos coloridos nas paredes externas de suas residências e lojas.
Essa diferenciação ainda não é bem clara em Londrina, e o preconceito induz à imediata associação com o vandalismo e o crime. Os grafiteiros Maurício Vieira (o Racional), Cláudson (Kenji), DJ Jesus e Allisson Vieira encaram isso no dia-a-dia: Há muita gente que confunde ainda, lamenta Racional, writer há sete anos. Racional conta que no início fazia pichação mesmo, só depois foi constatar que poderia ser uma arte: Eu já desenhava e tinha vontade de fazer arte. Então comecei a fazer grafite. Até com bombinha de matar mosquito eu fazia.
Para se fazer grafite, alguns materiais são fundamentais: latinhas de spray (que custam em média R$ 7,00); aerógrafo, uma caneta usada com compressor (entre R$ 250 a R$ 500); pincéis (para os detalhes), máscaras e muita vontade, já que poucos conseguem sobreviver unicamente do grafite: Agora estamos fazendo alguns grafites comerciais, mas na maioria das vezes se faz por prazer mesmo relata Kenji.
O método é o mesmo de um pintor, assegura Racional: Às vezes você tem uma imagem na cabeça mas ainda não visualiza perfeitamente. Daí surge na hora, o que denota um processo intuitivo. As tags (assinaturas) também são estilizadas, chegando a interagir com o desenho. O tempo para realizar um grafite depende do writer, mas dura em média de duas a seis horas.
Allisson acredita que o grafite está restrito à temática da periferia: Só tem armas, drogas, violência. E também propõe novo suporte aos desenhos: Poderíamos grafitar em painéis, o que permitiria exposições em vários lugares. Apesar do grafite ter nascido nas ruas, ter uma natureza essencialmente de protesto (nos anos 60, com as pichações contra a ditadura, descobriu-se que o muro também era um meio de expressão), ele acha que o novo suporte traria um público maior aos desenhos: Você não precisaria andar a cidade inteira para encontrar um grafite. Integrante do projeto Batuque na Caixa, que em breve irá se apresentar no Pelourinho em Salvador, Allisson está criando um método para ensinar grafite: Tenho uma teoria de que o grafite antes de tudo é um cartoon. Se você ensinar o cartoon para as crianças, depois só resta ensinar as técnicas do grafite. Ele já está praticando seus conceitos nas aulas que oferece na Guarda-Mirim, na Epesmel, no Meprov e nos conjuntos Avelino Viera e João Turquino.
Falta lugar para desenhar, reclama Allisson, já que alguns policiais ainda perseguem os grafiteiros. Para eles, a solução seria construir um centro comunitário onde todos pudessem se expressar: Tem monte de gente fazendo RAP, dançando Break, e querendo ensinar isso. Se tivesse um centro, muitos se afastariam das drogas prevê Racional, um dos grafiteiros mais respeitados na cidade.





