Ao morrer em 1986, o escritor argentino Jorge Luis Borges já havia organizado suas obras completas. Reuniu seus textos em três volumes, acompanhando a ordem cronológica em que foram escritos e publicados. Seguindo princípios íntimos, recusou alguns escritos que considerava fracos e desnecessários – parte deles fruto da inexperiência juvenil.
Como desejo de defunto é desejo morto, contrariando a vontade de Borges, anos mais tarde um quarto volume foi anexado às suas obras completas. A responsável pelo volume foi a detentora dos direitos autorais e viúva do escritor, Maria Kodama.
Apelidada pela imprensa de ‘‘Yoko Ono da Argentina’’, Maria Kodama foi secretária particular de Borges por dez anos. Em abril de 1986, tornou-se sua esposa através de uma cerimônia no Paraguai. Quase três meses depois, em 14 de junho, o escritor seria enterrado na Suíça.
Além dos textos publicados por Kodama, parece existir vários inéditos borgeanos espalhados pelo mundo. Livros que acabam de ser lançados mostram que a produção do escritor ainda oferece surpresas. A Editora Companhia das Letras está publicando ‘‘Esse Ofício do Verso’’, que reúne seis palestras sobre literatura proferidas em inglês por Borges na Universidade de Harvard entre 1967 e 1968. Os registos em áudio foram encontrados recentemente nos porões da instituição e resgatados pelo professor Malin-Andrei Mihailescu.
Por sua vez, a Editora Iluminuras está lançando ‘‘Borges em / e / sobre Cinema’’, de autoria do escritor e cineasta argentino Edgardo Cozarinski. O livro apresenta, em vários níveis, a relação de Jorge Luis Borges com o cinema. Traz seus textos publicados na revista ‘‘Sur’’, entre 1931 e 1944, onde comentava os filmes a que assistia em Buenos Aires. Também traz a descrição de todos os filmes baseados em seus contos, além de apresentar a sinopse de seus dois únicos roteiros, criados em parceria com o amigo Bioy Casares, e filmados por Hugo Santiago.
Embora ‘‘Borges em / e / sobre Cinema’’ seja um livro completo em sua temática, ‘‘Esse Ofício do Verso’’ merece maior atenção. Trata-se de uma obra que revela a beleza da literatura através dos olhos do escritor. A paixão pelas letras, a elegância da oralidade e a maneira com ele aborda a literatura são os pontos altos das conferências: ‘‘Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.’’
A beleza de ‘‘Esse Ofício do Verso’’ é semelhante a de ‘‘Siete Noches’’,
livro que reúne sete palestras proferidas em 1977, no Teatro Coliseo de Buenos Aires. Falando sobre temas como a cegueira, a Divina Comédia, o pesadelo, As Mil e Uma Noites, a poesia, a cabala e o budismo, ele oferece uma dimensão apaixonada pelas coisas que constroem a literatura e, consequentemente, a vida humana. ‘‘Siete Noches’’ (Sete Noites) foi publicado no Brasil em 1983 pela Editora Max Limond e republicada dentro das ‘‘Obras Completas - Volume III’’ de Borges lançada pela Editora Globo no ano passado.
No mês passado, a Editora Emecê lançou na Argentina outro livro com inéditos do escritor . Com o título ‘‘Borges Professor’’, a obra reproduz 25 aulas ministradas por Borges, entre 1956 e 1966, sobre literatura inglesa. Mas o que está balançando os ossos do falecido é outro lançamento ‘‘Borges: la Posesión Póstuma’’ (Borges: a Possessão Póstuma) publicado recentemente em seu país. Escrito pelo jornalista Juan Gasparini, o livro enfoca a polêmica relação do escritor com Maria Kodama. O autor deixa entender que o casamento, realizado no Paraguai através de uma procuração, foi um verdadeiro golpe do baú. Para se casar a noiva teria mentido sua idade, aproveitando-se do velhinho. Uma novela que reserva outros capítulos.
Apesar do exagerado enaltecimento da figura do escritor pelo senso comum, Jorge Luis Borges (1899 - 1986), em sua palestra confessional ‘‘O Credo de um Poeta’’, sugere que só os leitores são felizes: ‘‘Muitas coisas aconteceram comigo, como a todo homem. Tirei prazer de muitas coisas – de nadar, de escrever, de contemplar um nascer do sol ou crepúsculo, de estar apaixonado e assim por diante. Mas, de algum modo, o fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia. Porém acho que a felicidade de um leitor está além da de um escritor, pois o leitor não precisa experimentar aflição nem ansiedade: seu negócio é simplesmente a felicidade.’’
A partir dessa ótica, pode-se afirmar que o leitor é o mais feliz dos escritores. Isso porque um livro fechado é um livro morto, ‘‘um objeto físico num mundo de objetos físicos’’. O sentido da literatura (se ela tiver um sentido) está na leitura. Mãos à obra.
•‘‘Esse Ofício do Verso’’ de Jorge Luis Borges, Editora Companhia das Letras, organização de Calin-Andrei Mihailescu, tradução de José Marcos Macedo, impresso em papel reciclado, 160 páginas, R$ 20,00.
•‘‘Borges em / e / sobre Cinema’’ de Edgardo Cozarinsky, Editora Iluminuras, tradução de Laura Janina Hosiasson, prefácio de Adolfo Bioy Casares, 160 páginas, R$ 28,00.

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