O calendário guarda uma data especial no ano para cada santo, mas nas mãos do santeiro, Flávio Batista, de Siqueira Campos (90 quilômetros ao sul de Jacarezinho), todo dia é de devoção à arte de transformar madeira em imagens, que mais tarde ornamentarão os altares.
  Aos 36 anos, o rapaz conta que começou a entalhar madeira por acaso, com apenas sete anos de idade. ‘‘Queria fazer um aviãozinho para brincar porque meus pais não podiam comprar o brinquedo. O pessoal gostou e começou a pedir que fizesse outras peças’’, relembra.
  ‘‘Hoje, faço qualquer coisa que pedirem’’, diz o santeiro, que além das imagens também entalha animais.
  Rodeado pelas lendas de Bom Jesus da Cana Verde, padroeiro do município de 17.311 habitantes, que recebe milhares de turistas para festa realizada no dia 6 de agosto, no santuário construído em 1970, Batista gosta de entalhar réplicas da imagem.
  Como a obra original, o Bom Jesus que nasce das mãos calejadas do artista é de cedro. Ninguém sabe ao certo quem esculpiu a imagem original, que está sendo restaurada para a festa do padroeiro deste ano.
  Alguns acreditam que um escravo fugitivo teria entalhado Bom Jesus em troca do perdão do seu sinhô. Outros insistem na versão de que seria obra de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, ou de algum de seus discípulos.
  Pesquisas dão conta que a imagem teria vindo ao Paraná de Minas Gerais ou São Paulo entre 1870 e 1880.
  Fato é que Flávio busca nas matas da região de Siqueira Campos restos de madeira, como capichingui e timburi, que são transformadas em imagens de Bom Jesus, Nossa Senhora Aparecida, Padre Cícero, entre outras.
  ‘‘A madeira dessa Nossa Senhora Aparecida, que estou terminando, foi encontrada num rio’’, conta o entalhador, que trabalha de maneira precária, com uma pequena faca ou machadinha, não dispondo de material adequado para o ofício, que aprendeu sozinho.
  Para pintar as peças, que incluem réplicas de animais e aves, Flávio usa todo tipo de tinta. ‘‘Às vezes, eu uso tinta óleo, de carro ou de tecido. Também misturo as tintas e já usei até carvão para pintar as peças’’, afirma o entalhador.

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