A arte de enfrentar a guerra
Promover a troca de experiências e conectar as pessoas por meio da arte, no sentido mais profundo, é objetivo do projeto Conexus, coletivo de arte contemporânea nômade que viaja pelo mundo com artistas desenvolvendo programas educacionais com parceiros locais. Com curadoria da gaúcha Sheila Zago, que também é a idealizadora, recentemente, o Conexus levou o grafiteiro curitibano Rimon Guimarães e o paulista Zéh Palito, que formam a dupla Cosmic Boys, à nova empreitada. Há pouco mais de um mês, o projeto desembarcou no Líbano, onde ficou por duas semanas pintando escolas, alojamentos e desenvolvendo oficinas de arte para crianças e adolescentes em campos de refugiados na província de Beqaa. De lá, seguiu para a Síria, com o apoio da Embaixada Brasileira em Damascus, para fazer parte de uma residência artística na galeria Mustafa Ali. Dentro da proposta, também realizaram pinturas, colaboraram com artistas locais e ministraram oficinas.
Um desafio e tanto em nome da arte, já que estatísticas de entidades internacionais apontam que, desde 2011, a guerra na Síria já tirou a vida de mais de 400 mil pessoas, além de tirar de casa mais de 11 milhões de pessoas e gerar o número alarmante de 5 milhões de refugiados. Diante desses números, como o projeto poderia auxiliar ou minimizar o impacto na população? Sheila diz que em um momento de forte fluxo de imigração devido a conflitos internacionais, as pessoas procuram oportunidades para sobreviver, lugares para viver, esperar ou começar uma nova vida. "Muitos acabam vivendo em condições não ideais entre campos de refugiados e assentamentos, onde a educação não é facilmente acessada e as crianças e adolescentes muitas vezes deixam de estudar. As aulas de arte são, também, ferramentas terapêuticas àqueles que têm sofrido tanto nos últimos anos."
Portanto, ela defende a escolha da arte contemporânea e programas educacionais como ferramenta principal do projeto. "A palavra-chave é acessibilidade. Assim, o Conexus tenta levar arte em diversos formatos para o maior número de pessoas possível, seja em galerias, mostras, oficinas e arte de rua." O projeto já passou por diversos países como Índia, além de colaboração na Itália, Inglaterra e Qatar, realizados e idealizados em parceria com outros curadores e espaços de arte. A seleção dos artistas que participam, por sua vez, varia conforme o público que vai recebê-lo. "Trabalho com artistas mais conceituais e também com criadores que possuem obras de interpretação mais acessível. No caso de projetos educativos com crianças e adolescentes, por exemplo, é interessante trazer obras ou atividades mais desafiadoras, em paralelo com trabalhos mais familiares, para manter a atenção deles e trazer algo novo ao mesmo tempo", detalha.
EXPERIÊNCIA
A dupla Cosmic Boys, que realiza esse tipo de trabalho em regiões periféricas do Brasil e já esteve em Londrina, aceitou o desafio e já acumula histórias na bagagem. "É incrível como, mesmo com todas as dificuldades e conflitos, as pessoas ainda sorriem. Além disso, o convívio social, a humildade, compaixão são características fortes. Aprendi a amar mais e percebi que a vida é delicada", diz Rimon Guimarães. O outro integrante, Zéh Palito, comenta que participar do projeto foi um passo importante para a dupla. "Diferentemente de outros países, adquirimos mais experiência e até aprendemos a ser mais rápidos na prática. Estar em um país em guerra e pintar com um guarda segurando um fuzil ao seu lado é difícil de descrever." Sobre os riscos reais, a curadora, que acompanha a dupla, diz focar no trabalho e encarar as adversidades. "É claro que não é confortável ouvir barulhos de explosões dia e noite, como foi o caso da Síria, mas meu desejo de realizar o projeto foi maior do que o medo de passar esse período por lá."
Desejo que, além de agregar à vida pessoal, traz uma experiência de trabalho significativa por acontecer em locais de outras culturas. "O ritmo de trabalho é diferente, os códigos sociais mudam, a língua pode dificultar a comunicação. Mas, no final, é sempre uma realização incrível e o intercâmbio artístico-cultural é riquíssimo." A escolha dos países, de acordo com ela, são variáveis. "Por vezes é o caso de contatos e possíveis parceiros locais, outras vezes é por um desejo pessoal de realizar um projeto em um país específico. A produção se dá com a colaboração de projetos e artistas locais, apoio de embaixadas e de pessoas que acreditam no projeto", resume.
Como é realizado de forma voluntária, o projeto depende de doações para cobrir despesas com transporte, alojamento, alimentação e materiais para o desenvolvimento das ações. As doações podem ser feitas pelo site www.generosity.com. O grupo vai recompensar os doadores com obras especiais. Mais informações pelo e-mail [email protected] ou na página oficial do Conexus no Facebook.





