Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Normalmente os pais ensinam seus filhos a não arrotar, reprimir os espirros, não enfiar o dedo no nariz, limpar a boca com o guardanapo durante as refeições e muitas outra regras de comportamento social. Se algum filho indaga o motivo destas regras, a resposta fatal é simples: ‘‘porque é feio’’.
Na realidade estas regras de comportamento possuem uma origem. Elas foram inventada pela nobreza francesa do século 19. Um dos objetivos era eliminar qualquer sinal que lembrasse a animalidade do homem. Um homem ‘‘civilizado’’ não poderia ter nenhum traço que revelasse que pertencia ao reino animal, precisava distanciar-se, ser único. Nesta época floresceram os manuais de boa conduta que ditavam o comportamento ideal, desde o modo como utilizar os talheres até a maneira de cumprimentar o próximo em situações distintas.
Durante o século 19 a França era a grande ‘‘criadora de moda’’ da Europa, e estes costumes foram copiados pelas cortes de outros países. Portugal não ficou de fora, adotou as etiquetas francesas com sede. O cônego J. I. Roquette teve importante papel neste sentido. Autor de várias obras de boas maneiras, desejava levar seu País à civilidade. Sua obra mais conhecida ‘‘Código do bom-tom ou Regras da civilidade e de bem viver no século XIX’’, cruzou fronteiras e foi calorosamente adotada pela nobreza do Brasil imperial como livro de cabeceira.
Publicado originalmente em Portugal em 1845, o livro de Roquette, ‘‘Código do bom-tom’’, um documento histórico, acaba de ser relançado pela Editora Companhia das Letras dentro da coleção Retratos do Brasil. Organizado pela antropóloga Liliam Moritz Schwarcz, a obra dita minuciosamente as normas para o bom comportamento em jantares, visitas, festas, cerimônias religiosas, bailes, nas viagens, como tratar os criados, etc.
Utilizando uma forma ficcional para ensinar boas maneiras, Roquette veste a personagem de um pai ensinando seus filhos a se comportarem como gente civilizada. Nas palavras de Liliam, que assina a introdução do livro, ‘‘junto com a civilidade vinha, portanto, o aumento do embaraço e da vergonha sob a forma de refinamento ou como civilização’’.
Os manuais franceses do século 19 destacavam as regras de higiene como símbolo da civilidade. Aconselhavam a evacuação diária, banhos de quinze em quinze dias - ou pelo menos uma vez por mês - e a toca de roupa de baixo quando suja ou suada. Em solo brasileiro, a regra de banho caiu. Os índios brasileiros tinham um hábito que dominou a regra de banho uma vez por mês: o banho diário - ou vários banhos ao dia.
‘‘Código do bom-tom ou Regras da civilidade e de bem viver no século XIX’’ de J. I. Roquette, organização de Liliam Moritz Schwarcz, Editora Companhia das Letras, Coleção Retratos do Brasil, 400 páginas, R$ 20,50/Livraria Rosa do Povo (fone 321-5691).

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