A arte de descascar bananas com uma única mão
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Existem várias maneira de se ler um livro. Uma das mais interessante é não esperar nada dele, receber o que suas páginas oferecem, sem expectativas. As descobertas oriundas deste gesto passam a fazem parte da própria literatura, projeções que ultrapassam o limite das palavras gravadas no papel.
Outra maneira interessante de se ler um livro é ler primeiramente o livro e só depois ler orelha, prefácio, posfácio, reportagem, resenha e todo tipo de coisa dita sobre ele. Seria uma forma de entrar em contato com a obra sem nenhum manual de instrução, sem nenhuma expectativa criada a partir de um olhar alheio.
Mas algumas obras estão imunes a qualquer maneira de leitura, podem ser lidas de qualquer maneira sem perder seu impacto literário ou o prazer do texto. Uma dessas obra é Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca do escritor e jornalista curitibano (naturalizado) Manoel Carlos Karam. Lançado semana passada em São Paulo pela Editora Ciência do Acidente, o livro é composto de nove breves narrativas ficcionais. Não narram necessariamente histórias insólitas, mas histórias do próprio conteúdo narrativo. São textos maduros, originais, onde cada elemento ocupa seu devido lugar narrativas enxutas onde toda gordura possível foi queimada no processo de elaboração.
Ler os textos de Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca é como entrar numa padaria de pedir um pão sem pão com pão no meio e logo em seguida reformular o pedido: um pão com pão sem pão no meio. Algo como ensinar um criança a contar os dedos das mãos de olhos fechados e mãos amarradas. Ou mesmo, utilizando uma frase do próprio autor, descascar banana com uma única mão.
Seria difícil enquadrar as narrativas de Karam num gênero literário específico. A originalidade dos textos não passa por nenhum vanguardismo experimental, muito menos por uma tradição erudita. Pode-se encontrar elementos de criadores como Dalton Trevisan ou Gertrud Stein, mas o estilo do autor não permanece atrelado a eles, possui independência capaz de conferir frescor à linguagem.
Na apresentação da obra, o escritor Valêncio Xavier afirma que após ler Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca resolveu fazer algo que sempre teve vontade de fazer e nunca teve coragem: chutar as pombas que passeiam pelas calçadas atrapalhando seu caminho. Para ele, além de oferecer o prazer da leitura, o livro passa uma liberdade mental para o leitor pensar e fazer o que tem na cabeça, seja lá o que for. As palavras de Valêncio são corretas, pois os textos de Karam fazem lembrar que a literatura (apesar de seu um território trilhado e surrado) ainda é capaz de germinar surpresas.
Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca de Manoel Carlos Karam, Editora Ciência do Acidente, 144 páginas, R$ 18,00.
As pedras são feitas para jogar, alguém me ensina, eu então penso no ensinamento, penso sobre as pedras que são feitas para jogar, penso que ninguém nunca me havia dito sobre para quais coisas as pedras são feitas, fico pensando nas pedras e fico pensando no motivo para alguém me dizer que as pedras são feitas para jogar e fico pensando em alguma coisa para dizer e para me livrar do assunto digo que quem não tiver pedras que se atire.
(Fragmento do Pane e Circo, texto que integra o livro Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca de Manoel Carlos Karam)





