A arte de criar com a velha fórmula
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de junho de 1998
Silvana Leão 
Honestidade, seriedade e competência. Junte a termos como estes uma música de fundo e está pronta a receita básica de um jingle político. Simples, não? Nem tanto. Quem trabalha na área sabe que existem alguns macetes indispensáveis para que o refrão esteja na boca de adultos e crianças na véspera das eleições.
O jingle tem que agradar logo na primeira vez que for ouvido, ser fácil de cantar e de fácil assimilação. Além disso, as palavras devem ser bonitas, soarem bem, ensina o expert Pedro Franciscon, que trabalha com produções musicais há cerca de 20 anos e já produziu jingles para muitos candidatos a prefeito, vereador, deputado e até governador.
Ele afirma que uma música de campanha deve ser, antes de mais nada, o resumo da plataforma eleitoral proposta pelo candidato. É preciso captar o espírito da campanha e traduzi-lo da maneira mais simples possível. Porque não adianta querer fazer jingle complicado, daqueles que têm palavras lindas mas que a maioria da população não consegue sequer pronunciar.
Milton DoriaAlmir da Silva diz que, com a prática, é fácil saber o que agrada e o que não agrada às pessoasDepois de tantos anos de experiência, Pedro acabou criando suas próprias regras, das quais não abre mão. Basear seu trabalho sempre na realidade é uma delas. Descartar o uso da palavra não nas letras dos jingles é outra. Evitar os plágios também.
Há casos em que o candidato já chega com a música na cabeça, geralmente uma paródia de algum grande sucesso. Aí a gente mostra a ele que existem outras possibilidades e tenta fazê-lo desistir da idéia inicial. Quando não há outro jeito, ou quando uma canção já existente casa muito bem com o objetivo da campanha, um bom recurso, segundo Pedro Franciscon, pode ser o de usar apenas os sete primeiros compassos da melodia. Neste caso, o ouvinte é reportado com facilidade à música que está nas paradas sem ficar caracterizado o plágio.
Para os donos de estúdios de Londrina, as épocas de maior trabalho são as que antecedem as eleições municipais. Isso porque as campanhas para presidente, governadores e deputados federais são concebidas geralmente em centros maiores. Para estas, as equipes de criação produzem vários jingles para o mesmo candidato, destinados às diferentes situações.
Existe, por exemplo, o de comício, que é aquele feito para dançar e agitar o público; o emocional, que utiliza palavras bonitas e vende o conceito da campanha, o perfil do candidato; os jingles populares, que serão tocados nas ruas, em alto-falantes; e as trilhas, que são as variações das melodias cantadas e servem como temas incidentais para algumas situações, como reportagens mostradas na TV, explica Pedro.
Para os profissionais mais experientes, quase sempre uma rápida conversa com o candidato já é suficiente para saber o que ele quer. Mas e quando essa conversa não é possível? Daí, o jeito é usar o bom-senso e claro, a velha e boa fórmula confiança-seriedade-honestidade-amizade-humildade. Por incrível que pareça, o poder destas palavras ainda resiste, mesmo depois de tantos escândalos e falta de pudor no uso do dinheiro público.
Se o objetivo final da campanha for a reeleição, vale a pena apostar no não menos conhecido chavão esse já provou que faz. No mais, é investir em músicas alegres, fáceis de decorar. Com o tempo, a gente já sabe o que deve dizer, o que agrada e o que não agrada ao povo, lembra Almir Coelho da Silva, outro dono de estúdio de Londrina.
Mas mesmo com a receita na ponta da língua, de vez em quando ele ainda é surpreendido com os caprichos de determinados políticos. Almir conta que fez recentemente uma música para uma pequena cidade do interior paulista e, na falta do que dizer, arriscou a seguinte frase: Aqui não tem arranha-céus mas tem felicidade. Pronto, estava feito o estrago. O prefeito não gostou da referência à falta de prédios e ele foi obrigado a mudar a letra, rapidinho. Ossos do ofício.
Almir está no ramo há sete anos. Há dois conseguiu montar seu próprio estúdio, graças aos muitos trabalhos conseguidos nas últimas eleições municipais. O forte da clientela está no Norte Pioneiro e em Estados como Rondônia, Goiás e Mato Grosso. Ele também faz parte de uma dupla sertaneja, mas o grosso do seu ganha-pão são as campanhas publicitárias e eleitorais. Faço tudo praticamente sozinho. Conto apenas com a ajuda de duas cantoras e um maestro, que faz os arranjos.
Uma das vocalistas que mais faz este tipo de trabalho em Londrina é Ana Maria Biazon. Ela começou a cantar profissionalmente há uns 10 anos, e sua voz já ajudou a eleger muito candidato por esse Brasil afora. Vários deles, Ana Maria nunca viu mais gordo.
Mas mesmo para os desconhecidos, o profissionalismo deve falar mais alto: A gente tem que entrar no espírito da campanha e, pelo menos no momento da gravação, vestir a camisa do candidato. Isto é muito importante para conseguir colocar emoção na voz. Se cantarmos uma coisa que não estamos sentindo, o resultado não será bom, ensina a vocalista.


